"O sol nasceu pra todos" - Noel Rosa e Lamartine Babo


Mário Reis, Noel Rosa e Lamartine Babo

 

 

Mário Reis precisava com urgência de um samba para gravar. Encontrou Noel Rosa e Lamartine Babo, e levou-os para sua casa. Lamartine já tinha a primeira parte de “O sol nasceu para todos”.  A conversa terminou num desafio: os dois fariam segundas partes e o cantor escolheria a que considerasse melhor. João Máximo conta o desfecho dessa história.

 

 

Relato de João Máximo

 

 

 

Mário Reis saiu de um ensaio de gravação com a Orquestra de Pixinguinha e foi apressado ao encontro de Lamartine Babo, no Café Nice. O motivo da pressa era o disco que deveria gravar na Victor para o Carnaval de 1934. Um lado estava decidido: “Ri de palhaço”, marcha de Lamartine, a mesma que acabara de ensaiar com Pixinguinha. Mas, e o outro lado? Como geralmente acontecia nos discos para carnaval, os cantores gravavam uma marcha em um dos lados e um samba no outro. A marcha já sabemos - “Ri de palhaço”.

 

Foi para conseguir um samba que Mário, apressado, saiu atrás e Lamartine a quem encontrou no Café Nice tomando cafezinho com Noel Rosa. Mário não teve dúvidas. Convidou os dois para uma cerveja em sua casa, na Tijuca. Motivo: um samba para completar o disco.

 

Lá pelas tantas, entre uma cerveja e outra, Lamartine cantou um refrão que lhe parecia muito bom. Deu a impressão de tê-lo impressionado ali mesmo, na hora, com a ajuda de Noel. Mas é bem possível que ele já tivesse esboçado música e letra. Os últimos versos diziam: “o sol nasceu para todos / a esmola de um olhar? / o sol nasceu para todos / também quero aproveitar”.

 

Diante do fato de estar presença dos dois maiores letristas da música carioca, Mário lançou-lhe um desafio: Que cada qual, Lamartine e Noel, fizessem uma segunda parte. Ele, Mário, gravaria a melhor.

 

Desafio feito o cantor saiu da sala. Ao voltar um tempo depois Mário encontrou as duas segundas partes prontas. Como tinham que ser, os versos não fugia do mote proposto pelo esboço de Lamartine.

 

Eis a segunda parte do próprio Lamartine:

 

Deus quando inventou o mundo,

Fez o sol e fez a lua,

Fez o homem e a mulher,

Fez o amor em um segundo,

Sou o sol, você é a lua,

Seja lá o que Deus quiser!

 

A segunda de Noel:

 

E você é a triste Lua

Que ilumina a minha rua,

Onde mora a minha dor.

Mas uma Lua diferente,

Que é do Sol independente,

Com luz própria e calor.

 

Para os dois amigos Mário disse que o desafio terminou empatado e que, certamente, gravaria as duas segundas partes, do outro lado de “Ri de palhaço”, como de fato fez.

 

Anos depois, porém, numa série de entrevistas que me concedeu por telefone, Mário Reis admitiria que Noel Rosa, cujo nome não consta no disco foi, em sua opinião, o verdadeiro vencedor do desafio. Quem mais (observou Mário) seria capaz de misturar amor e cosmografia em letra de música.

 

 

O sol nasceu pra todos” (Noel Rosa/Lamartine Babo) # Mário Reis. Disco Victor (33738-B), 1933.

 

 

 

 

O Sol nasceu pra todos

 

O dia vem chegando, vou rezar minha oração,

A igreja é a floresta

E o sino é o violão.

Por que você me nega

A esmola de um olhar?

O Sol nascerá pra todos

Também quero aproveitar.

 

Deus quando inventou o mundo,

Fez o sol e fez a lua,

Fez o homem e a mulher,

Fez o amor em um segundo,

Sou o sol, você é a lua,

Seja lá o que Deus quiser!

 

E você é a triste Lua

Que ilumina a minha rua,

Onde mora a minha dor.

Mas uma Lua diferente,

Que é do Sol independente,

Com luz própria e calor.

 

 

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Fontes:


- Montagem de fotos: Laura Macedo.

- Programa de João Máximo na Rádio Batuta do IMS.

-  Site YouTube (vídeos)

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