O Teatro de Revista e a Música Popular Brasileira

Reprodução do programa da revista Microlândia, representada em 1928 nos Teatros Fênix e Palácio, com sambas de Sinhô, entre os quais Jura, trisado todos os dias por Araci Cortes (Coleção Edigar de Alencar).



O TEATRO DE REVISTA E A MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
por Cafu


Um dos objetivos de nossa página é resgatar para o presente a importância que o Teatro de Revista teve na constituição e difusão do que hoje chamamos Música Popular Brasileira.

Tudo começou nas últimas décadas do século XIX, quando temas e fatos da realidade política e social foram levados para os palcos e mesclados com músicas que buscavam proximidade e diálogo com ritmos e maneiras genuinamente brasileiros. Em curso, a formação e expansão de uma cultura de massas, a proliferação de questionamentos e demandas decorrentes dos modelos de desenvolvimento excludentes e subordinados ao capital externo e a busca de identidade pela via da descolonização. Afinal, quem somos nós - este tal de Brasil - e o que queremos ser? Era essa a reflexão subjacente.

No teatro, o cenário estava ocupado por companhias, peças e atores estrangeiros de matriz européia em sua maioria. A fundação em 1908 da Companhia Dramática de Teatro da Exposição Nacional por Arthur Azevedo e Lucília Peres foi uma tentativa pioneira de criar espaço para um repertório fundamentalmente brasileiro. O gênero revista-de-ano, por sua vez, assimilou componentes e características locais, mudou de cara e afastou-se dos modelos originais também europeus. O barateamento do ingresso - que o empresário Pascoal Segreto iria concretizar a partir de 1911, ao cobrar apenas 500 réis por um lugar na geral - criou possibilidades inéditas de ampliação do consumo de bens culturais. Por conseqüência, o teatro passou a incorporar públicos maiores, que não freqüentavam as casas de espetáculo até então.

“A revista em si popularizando o teatro, antes aberto apenas às classes de maior poder aquisitivo, já contribuíra para uma verdadeira revelação em matéria de diversão e de colocação de elemento nacional, em condições de uma melhor aceitação em termos de cultura.
É inegável esse papel do teatro de revista. A partir das tentativas de Artur Azevedo e Moreira Sampaio até às temporadas plenas do artigo nacional nas revistas do São José, vai um caminho de acelerada conquista, trazendo novas platéias ao teatro, gente que até o advento da revista, se mantinha afastada dos dramas, óperas e balés preferidos pela sociedade elitista.” ¹

Na música, as cançonetas, mazurcas e polcas boêmias (da Boêmia) foram, lentamente, dando lugar aos sons e sentimentos que fervilhavam nos subúrbios e morros cariocas: o choro, o lundu, o maxixe, o samba, as marchinhas carnavalescas.

Gradativamente, o rico filão da produção musical de caráter mais popular foi sendo percebido e explorado por maestros e compositores, a começar por aqueles já engajados no gênero, co-autores, com suas melodias, do trabalho realizado por escritores de peças teatrais. Foi o que aconteceu com o paulista Nicolino Milano, parceiro de Artur Azevedo em várias peças, como, por exemplo, A Capital Federal em 1987; foi assim com a Chiquinha Gonzaga, que compôs músicas para muitas revistas, a começar pelo tanguinho brasileiro Gaúcho - tremendo sucesso à época - encenado como número de dança “corta-jaca” na revista Zizinha Maxixe em 1897. Foi o caminho trilhado por Costa Junior, maestro, pianista, compositor inspirado e autor de muitas partituras revisteiras bem sucedidas.

“ O apelo do êxito era forte e logo todos os maestros regentes de orquestras de teatro, quase sempre os encarregados de musicar os textos entregues às empresas, completando-os num trabalho final com esses autores, puseram-se a adaptar os seus conhecimentos, a sua formação erudita a serviço da música popular mais próxima do povo.

Autores de peso e donos de repertório erudito e semi-erudito tornaram-se, assim, autores também de músiquinhas fáceis, de linha melódica singela, assobiável e feita expressamente para cair direto nos ouvidos do público. Foi o que fizeram Paulino Sacramento, Assis Pacheco, José Nunes, Luz Junior, Sofonias Dornelas, Júlio Cristobal, Domingos Roque, Bento Mossurunga, Sá Pereira, Bernardino Vivas, Roberto Soriano, e, depois, Antônio Lopes, Vicente Paiva, José Maria de Abreu, Morfeu Belluomini e outros que escreveram centenas e centenas de músicas, que “arranjaram melodias e orquestraram simples cortinas, vibrantes ouvertures, finais grandiosos e bailados elaborados, criando ainda, em momentos de inspiração solitária - e difícil - maxixes, sambas, foxes, as tais musiquinhas de ritmo fácil para atender à demanda e à necessidade de produzir sucessos de qualquer maneira.

Ainda outros viriam depois daqueles primeiros e antes dos últimos citados, uma geração intermediária, digamos assim, destinada a colher ensinamentos dos primeiros e legar rumos aos últimos, geração privilegiada por surgir num momento único: o do auge do teatro de revista e começo do domínio do disco e do rádio - pronta a observá-los - abrindo-lhes ambições e platéias que passaram a compreender todo o Brasil. Esses foram Freire Júnior, surgido para o meio artístico em 1917 e que se tornaria também um dos mais conhecidos revistógrafos do Brasil; José Francisco de Freitas, o Freitinhas (1918), Eduardo Souto (1920), Sinhô (1920), Henrique Vogeler (1925), Hekel Tavares, Sebastião Cirino, Pixinguinha e Lamartine Babo, todos incorporados ao teatro em 1926; Donga (1928), Ary Barroso (1928) e Augusto Vasseur (1930) - todos eles fazendo partir do teatro as músicas que iriam conquistar só depois o sucesso popular nas ruas, nos bailes, nos cabarés, nas vitrolas das casas de família.” ²

A parceria entre teatro popular e música foi tornando-se cada vez mais estreita, fecunda e consolidada. Era no teatro de revista que os nossos compositores populares encontravam mercado e meios de difusão para suas canções, principalmente quando se aproximava o carnaval e começava a temporada das chamadas “revistas carnavalescas”. No período que antecedia as folias de Momo, as marchinhas e os sambas subiam aos palcos, dentro do formato apropriado, cuidadosamente selecionados por diretores, em quadros escritos por encomenda para serem interpretados por artistas de reconhecido apelo popular. Nos outros meses do ano, as revistas lançavam músicas de sucesso ou, o contrário, músicas de sucesso batizavam revistas, inspiravam temas para peças, esquetes e espetáculos de variedades.

“Com o rádio mal ensaiando seus primeiros passos e o disco numa escala ainda reduzida, o teatro de revista subia de interesse, por ele escoando toda a grande produção da MPB do tempo, dele dependendo em grau maior a divulgação e a afirmação de sucessos. No teatro de revista encontravam-se também, todos os intérpretes de real expressão, desde Araci Cortes, Francisco Alves e Vicente Celestino, até os novatos Sílvio Caldas e Carmem Miranda.” ³

Araci Cortes, só para citar um exemplo, brilhou intensamente nos palcos dos teatros da Praça Tiradentes e dali irradiou sua luz para o Brasil e mais além, chegando a viajar em temporada para Lisboa e Paris. Seu inestimável valor como artista permanece em clássicos de nosso cancioneiro lançados por ela em revistas memoráveis:

Jura (Sinhô) - revista Microlândia (1928) e reprisada em Miss Brasil (1929).


Linda Flor (Henrique Vogeler - Marques Porto - Luiz Peixoto) - revista Miss Brasil (1929)


Quindins de Iaiá (Pedro de Sá Pereira- Cardoso de Menezes - Carlos Bittencourt) - revista Compra um Bonde (1929).


No Morro (Ary Barroso e Luís Iglésias) - lançada em 1930 na revista Diz Isso Cantando. A mesma música seria gravada por Carmem Miranda e Almirante em 1938 com o nome Boneca de Piche. Também conhecida por Eh! Eh!


Na Pavuna (Almirante - Homero Dornelas) - na revista Dá Nela (1930).


Na Grota Funda (J. Carlos - Ary Barroso) - revista É do Outro Mundo! (1930). Música que depois ganhou letra de Lamartine Babo e se transformou na imortal No Rancho Fundo. Esse imbróglio será contado em detalhes futuramente.

Mulato Bamba (Noel Rosa) - revista Angu de Caroço (1932). Interpretada por Araci e Silvio Caldas.

Linda Morena (Lamartine Babo) - composta para o carnaval de 1933 e incluída em seguida na revista Morango com Creme, apresentada em Lisboa com calorosa aceitação.

Na Batucada da Vida (Ary Barroso - Luiz Peixoto) - revista Há uma Forte Corrente (1934).


Yes, Nós Temos Banana (João de Barro - Alberto Ribeiro) - na revista de mesmo nome em 1938.

Mulata (João de Barro) - revista Não Adianta Chorar (1939).

Aquarela do Brasil (Ary Barroso) - revista Entra na Faixa (1939).

O Rouxinóis (Lamartine Babo) - revista Bom Mesmo é Mulher (1958).

É por essas e outras que temos o firme propósito de escarafunchar o baú do esquecimento para trazer à tona a luminosa conjunção que aproximou teatro e música na primeira metade do século passado e produziu frutos da maior qualidade e importância para a cultura brasileira. Já publicamos artigos sobre Araci Cortes, Chiquinha Gonzaga, Luiz Peixoto. Voltaremos ao assunto mais vezes, pois o que não falta é pano para manga e histórias para alinhavar. Ao longo do nosso caminho tem sonhos, invenções, cenários, estrelas, artistas talentosos, canções inesquecíveis, memórias preciosas e muita graça e diversão. Uma prazerosa e apaixonante viagem ao âmago do espírito carioca e da alma brasileira!





(¹) p. 98, (²) p. 102-3, (³) p. 122 in Ruiz, Roberto - Araci Cortes ; Linda Flor. FUNARTE/ INM/ Divisão de Música Popular, Rio de Janeiro, 1984.

de Alencar, Edigard - Nosso Sinhô do Samba - Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro 1968.

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Comentário de Teatro de Revista em 3 agosto 2009 às 18:02
Helô,
Já saquei certas mumunhas da jotacarlos.org. Primeiro, o próprio site avisa que a ferramenta de busca acerta apenas em 70% dos casos. Então pesquiso por datas, tipo: edições entre 01/07/1930 a 10/07/1930. A partir daí vou seguindo a ordem (crescente ou decrescente) das edições. Nessa dei sorte. Achei o que queria na primeira tentativa. Mas, por informação da Cafu, sabia que em julho de 1930 "É do outro mundo" estava em cartaz. Existem outras matérias sobre essa peça na "Para Todos". Se não me engano, Mário Nunes escreveu um artigo a respeito. Afinal, o autor era também editor do semanário.
Cafu,
Menos nada! A matéria está bem fundamentada, bem documentada e bem redigida. Sabemos de "profissionais" que não fariam melhor. As redações dos jornais estão cheias de gente que não saberia nem por onde começar a escrever.
Repare como até pesquisadores experientes e consagrados como Tinhorão cometem equívocos com datas e às vezes nomes. O exemplo está no trecho do livro postado pela Helô. "Jura" foi lançado na peça "Microlândia", de 1927, e gravado quase ao mesmo tempo em 1928, primeiro por Aracy e logo depois por Mário Reis (versão que se tornaria clássica e referência).
Ary Barroso também troca as bolas em seu depoimento. Como se vê pela foto da Para Todos (e não dá para desmentir foto), "Na Grota Funda" foi cantada pela primeira vez em 1930 por Aracy e não por Margarida Max. E a peça era "É do outro mundo" e não "É do Balacobaco" (1931), como ele afirma. Cá entre nós, é bem melhor ter muita gente contando versões desencontradas sobre um mesmo episódio do que não ter nada ou muito pouco, como acontece em alguns casos. Só precisamos de agulha e linha para costurar tudo.
Laura,
Li o artigo do Jotaefegê faz um bom tempo na internet, mas não marquei a página. Já procurei e não achei. Talvez esteja em "Meninos, eu vi", um livro em que ele reuniu crônicas e histórias. Conheci Jotaefegê na redação de "O Globo" no final dos anos 70. Uma das pessoas mais amáveis e sorridentes que já encontrei. Ele chegava na redação e cinco minutos depois já tinha uma roda em volta ouvindo seus casos.
beijão
Henrique Marques Porto
Comentário de Cafu em 3 agosto 2009 às 21:13
Henrique,
Uns anos atrás vi na TV um jornalista questionando (quase atacando) o Celso Amorim sobre as mudanças ocorridas no concurso para admissão de novos diplomatas. Antes precisava fluência total em inglês e francês (ou espanhol) e o Itamaraty passou a ser mais flexível nas provas de línguas estrangeiras. O Ministro respondeu: “Porque queremos selecionar gente que saiba pensar e escrever bem em sua própria língua! Isto é o principal. Pra língua estrangeira tem curso de formação e treinamento depois!”.
Eu achei um argumento ótimo. Acho que uma das qualidades bacanas da nossa geração é ter tido esta formação que privilegiou a reflexão, o espírito crítico, o gosto e o rigor em relação ao conhecimento. Na era dos computadores a ênfase recai na velocidade, na variedade, na brevidade, na quantidade, senão não dá ibope. Mais uma coisa que temos em comum e anosso favor: somos enrugados(as), grisalhos(as), arredondados (as), mas sabemos pensar! Hahaha. Menos mal. Bem, não vou brigar com vocês, nem estou em crise de auto-estima. Apenas me posicionei sobre um exagero, embora reconheça que o diploma de sociologia ainda me facilita muitas coisas. Dificulta outras: emprego por exemplo. Hahaha.

Roberto Ruiz escreveu o livro baseado nos arquivos do Almirante, nas contribuições vindas da própria Araci - que ele acompanhou durante quase toda a sua atividade musical e artística - e “através do seu mais fervoroso admirador e guardião de suas glórias, J. Maia (se não me engano era o secretário particular dela).Esta página do Para Todos é o máximo e confirma a informação de RR.

1930
É do outro mundo, julho
Música Ary Barroso, J Cristobal e outros
Desenhos, guarda-roupa e cenografia J.Carlos
Elenco: Aracy Cortes (reapareceu), OlgaNavarro, Afonso Stuart, Paíta Palos, Palitos, Augusta Guimarães, Mesquitinha, Leli Morel, Iolanda Ribeiro, Edmundo Maia, Edith Falcão, Oscar Soares, Domingos Terras
Bailados Nemanoff e Valery
“Araci lançou Na grota funda, com o subtítulo Esse Mulato vai ser meu”. (pag.234)

“Saudando o ingresso de J. Carlos entre os autores do gênero, Mário Nunes afirmava:

Sempre propugnei pelo aproveitamento dos verdadeiros valores intelectuais e artísticos no nosso teatro, dele arredados pela má vontade, ou curteza de vistas, de empresário de cultura mais do que precária. Afinal: J.Carlos, o caricaturista que a cidade toda estima e que é, também humorista finíssimo. Êxito legítimo. Sua revista muito difere dos decalques costumeiro. Fez tudo J.Carlos, em È do Outro Mundo! As idéias são suas. Cenários e guarda-roupa reproduzem maquettes e desenhos seus. Há graça, espírito nos diálogos. Há situações que são verdadeiros achados. Cenas e sketches tão bons quanto os de revistas francesas e americanas.
Quanto à volta da estrela, dizia o crítico:”Araci foi recebida com vivos aplausos: notável sua caricatura do tango argentino , em nota-parola”. (pag. 145)

Claro que todo mundo erra, esquece, confunde etc. Humano demasiado humano. Também concordo com você: mil vezes preferível lidar com uma Babel inteira de versões e relatos do que com o ausência deles. O Nada, o acabou-se para sempre. :(
Beijos.
Comentário de Cafu em 3 agosto 2009 às 22:01
Helô,
Você pegou o Tinhorão em flagra! Brincadeira! :) O volume de informações que esses pesquisadores recolheram e divulgaram foi enorme. Impossível não escapar uns errinhos omissões, confusões e imprecisões. Não é demérito pra ninguém. São ossos do ofício.

O lançamento de Jura foi em Microlândia, conforme o programa da revista no topo da página. Segundo a Revistografia de Roberto Ruiz, estreou em 28 de setembro de 1928 no teatro Fênix e depois foi pro teatro Palácio.
Musicas Sinhô, Antonio Rada e outros
"Araci lançou o Jura, a modinha Ciúmes, Carta do Brasil, Fox Moderno e Os Marimbodos". (Tudo lá no programa, como podemos conferir).

Em Miss Brasil de 1º de janeiro de 1929
Autores: Marques Porto e Luiz Peixoto
Músicas: J. Cristobal e Sá Pereira
Elenco: Aracy Cortes, Mesquitinha (Olímpio Bastos), J. Figueiredo, Palitos, Manoel Pera, Itália Fausta, Paíta palos, Oscar Soares, Edmundo Maia, Joaquim Coelho, Oscar Cardona, Elda Perez, Luísa Fonseca, Lídia Campos, Lili Brenier (irmã de Oscarito), Henriqueta Brieba, Vicente Celestino, Norka Rouskaya, Judith de Souza, Domingos Guimarães, Ayrosa e um grupo de girls.
"Completou mais de 100 apresentações". 'Reprisada' de 11 a 24 de abril. "Araci lançou Ai,Ioiô, Jura e um maxixe em dupla com Palitos".(óbvio que significa reprise).
A lançamento de Jura em disco pela Araci, (gravadora Parlophon), é de novembro de 1928, conforme a discografia da pg 270.

Helô...e este livro me custou 13 reais e estava esquecido numa prateleira de sebo em Piracicaba.
Beijos.
Comentário de Cafu em 3 agosto 2009 às 22:23
Laurinha,
A foto é linda. Já pensou se os cinemas fossem como antigamente, com música na sala de espera ou nas orquestras da sala de exibição e músicos como Ernesto Nazareth, Sinhô e Pixinguinha tocando para nós? Nossa! Deve ter sido o máximo!
Minha nora me emprestou um livrão sobre teatro, produzido pela Aprazível Edições para o Bradesco Seguros, cheio de fotos lindas. Dentre elas tem uma que quero escanear para mostrar aqui. É do interior do Teatro Carlos Gomes, Rio, 1914, e mostra a arquitetura, o ponto, a ostentação dos camarotes, a platéia sem distinções raciais, no fundo os mais durangos que assistiam em pé, e criança a beça com os pais. Para ilustrar aquilo que o Henrique fala abaixo, e o Roberto Ruiz acima, sobre o barateamento dos ingressos ter permitido a popularização do teatro como cultura de massas.
Beijos.
Comentário de Teatro de Revista em 4 agosto 2009 às 1:01
Cafu,
Tenho quase certeza que Micriolândia é de 1927, embora a Enciclopédia de Literatura Brasileira, organizada por Afrânio Coutinho também indique 1928 (ver em http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/Consulta/Autor.php?autor=5467). Já Miss Brasil é de 1928, com absoluta certeza. Janeiro de 1929 é o mês de lançamento de "Ai Ioiô" por Aracy Côrtes, bolacha gravada em novembro de 28.
São compreensíveis esses pequenos equívocos. A documentação sobre o período é meio fragmentada (em alguns casos toda embaralhada mesmo). Escritores e compositores morreram há décadas e poucos tinham arquivos organizados. A exceção são as gravações. Muitas bolachas ou matrizes podem até ter sumido, mas a fichas técnicas podem ser consultadas em bases de dados bem organizadas. A melhor delas é a da Fundação Joaquim Nabuco, que vai ser muito útil para tratar de música. Em http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16
Aí estão outras imagens de É do outro Mundo. Estas são de O Malho, também de julho de 1930. Já procurei por É do Babacobaco, mas acho quer o J. Carlos ficou tão zangado que não quis publicar nada.
beijão
Henrique Mraques Porto


Comentário de Teatro de Revista em 4 agosto 2009 às 2:03
Cafu, Laura e Helô
Ir ao teatro nas primeiras décadas do século passado era um programa completamente diferente do que fazemos hoje. Dá uma matéria. Ninguém chegava minutos antes do espetáculo. Chegava muito antes, ou muito depois. Dentro dos teatros, como no Carlos Gomes, ou em terrenos bem próximos, no caso de teatros menores, existiam barracas que vendiam comida, bebida e bugigangas ou ofereciam jogos e brinquedos diversos (tiro ao pato, bola na cara do palhaço, pescaria etc). Música ao vivo não faltava, na sala de espetáculos ou fora dela. Era como ir hoje a um parque de diversões, onde ainda se encontra algum teatrinho do tipo "Monga, a mulher Macaca!".
Dentro das salas era muito quente e o público ficava a vontade para dar uma voltinha, tomar ar fresco e molhar a goela. Se um cara visse uma morena bonita, fazendo visage e flanando pelo ambiente que nem pipa avoada ele deixava a peça para lá e ia atrás da morena, mesmo correndo o risco de ser esbordoado por algum noivo ou marido ciumento que estava no banheiro fazendo necessidades. Não tinha importância, o ingresso era barato, o cara voltava no dia seguinte para ver o resto da peça, acabava saindo novamente num intervalo e assim ia fazendo o seu lazer. Ir ao teatro não significava necessariamente ficar sentado duas horas com um intervalo de quinze minutos. As opções eram muitas.
Era um ambiente seguro em que um pai de família podia levar esposa e filhos sem maiores preocupações. Por isso o meio teatral se revoltou tanto quando em 1928 o Chefe de Policia e o Juiz de Menores resolveram proibir a entrada de menores nas revistas.
Mas, é claro que o teatro assim estruturado também era um local perfeito para azaração, a formação de pares românticos. Mas "pegação" não tinha! E os bolinas eram retirados do recinto sem nenhuma elegância e pagavam preço alto pelo atrevimento.
Vivia-se então uma espécie de "big bang" cultural. O Brasil estava, digamos, ficando adulto e se reconhecendo. Era um outro mundo, um outro país e um outro Rio de Janeiro. Cidade cheia de incômodos, calorenta e sem ventiladores, mas muito mais humana e acolhedora. E divertida também -imagino eu.
Henrique Marques Porto
Comentário de Helô em 4 agosto 2009 às 2:14
Ai, Ioiô!
Eu nasci pra sofrê
Fui oiá pra você,
Meus oinho fechou!


Antes de qualquer comentário, uma provocação. Tão achando que desisti? Never! E como "eu nasci pra sofrê" :))) fui novamente à revista Fon Fon. Se vocês acham que a "Para Todos" e "O Malho" são ruins, não imaginam o que é a Fon Fon!!! Além do carregamento em pdf lentíssimo, a resolução é péssima (vocês verão) e a Biblioteca Nacional crava uma "mardita" marca d'água nas páginas. E também tem notas mínimas sobre música e teatro, um mês sim outro não.
Agora deixo a provocação às meninas. kkkkkkkk
Notinha na página 47, revista número 029 de 18 de julho de 1931.
Beijos!

Comentário de Cafu em 4 agosto 2009 às 2:38
Nossa que maravilha de fotos!
O Edigar de Alencar registra 28 de setembro de 1928 a estréia de Microlândia. Igual ao Roberto Ruiz. E acrescenta : Fênix e Paácio, de Marques Porto, Luiz Peixoto e Afonso de Carvalho (sambas de Sinhô). Salvyano também: "Microlândia durou de 28 de setembro a 11 de outubro e depois Norka Rousskaya leva a trupe e a peça para Palace-Théâthe. Entrega-as ao marido, M. Francyscus - porém o êxito estava assegurado. Alguns fatores decisivos: o libreto, a canção "Ça c'est Paris", vinda da Europa e dos Estados Unidos, e Aracy Cortes trisando, todas as noites, no segundo ato, o maior dos sambas de Sinhô, "Jura", gravado imediatamente por Mário Reis (Odeon 10.278-A) (Viva o Rebolado pg 303).

Ainda segundo Salvyano:"Marques Porto e Luiz Peixoto escrevem, Júlio Cristóbal e Sá Pereira preparam a música. Os dois atos e 35 quadros de Miss Brasil entram para a história a partir de 20 de dezembro de 1928.etc...Êxito absoluto. Miss Brasilfica em cena até março de 1929, registrando 172 apresentações consecutivas....AracY Cortes canta sambas bem brasileiros que se tornam clássicos: repete o Jura de Senho; Lança Medida do Bonfim, do próprio Sinhô, gravada por Mário Reis em 1929, em disco Odeon 10.459-A, faz a platéia delirar com Linda Flor, de Henrique Vogeler e Luiz Peixoto. (pag. 303 e 304).
Ai, é ruim escrever neste espaçinho. Vou ver se Salviano fala algo do É do Balacobaco.
Beijos.
Comentário de Helô em 4 agosto 2009 às 2:55
Meninas
Talvez o Henrique já conheça, mas olha o Tio Agostinho aí num artigo que encontrei hoje.
Atenção ao Sumário, páginas 3 e 4. Pena que o artigo comece na página 201 :((
Amanhã tô de volta :))
Beijos e boa noite.
Antenor Fisher.pdf
Comentário de Cafu em 4 agosto 2009 às 3:02
Henrique, Helô e Laura,
Salvyano esclarece a confusão. Tinhorão definitivamente se enganou.
Pg.360: sobre a revista Brasil do amor 24 de maio de 1931 (Marques Porto e Ary Barroso). "Margarida Max relançava a melodia de Ary Barroso que Aracy Cortes cantara, com letra de J. Carlos, no ano anterior na revista É do Outro Mundo: agora com letra infinitamente superior, de Lamartine Babo, na Grota Funda se transmutara em No Rancho Fundo- um dos dez maiores sambas de todos os tempos".E Silvio Caldas cantou Gente Bamba e Malandragem, como disse o Roberto Ruiz.

É do Balacobaco de Vitor Pujol e Marques Porto, música de Ary Barroso, estreou em 25 de Junho de 1931 e saiu de cartaz em 15 de julho. No Recreio, com Margarida Max. (pag. 364) lê lá que estou com preguiça de digitar.
Ufa! Agora já dá para contar a história completa de No Rancho Fundo.
Beijos.

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