O Teatro de Revista e a Música Popular Brasileira

Reprodução do programa da revista Microlândia, representada em 1928 nos Teatros Fênix e Palácio, com sambas de Sinhô, entre os quais Jura, trisado todos os dias por Araci Cortes (Coleção Edigar de Alencar).



O TEATRO DE REVISTA E A MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
por Cafu


Um dos objetivos de nossa página é resgatar para o presente a importância que o Teatro de Revista teve na constituição e difusão do que hoje chamamos Música Popular Brasileira.

Tudo começou nas últimas décadas do século XIX, quando temas e fatos da realidade política e social foram levados para os palcos e mesclados com músicas que buscavam proximidade e diálogo com ritmos e maneiras genuinamente brasileiros. Em curso, a formação e expansão de uma cultura de massas, a proliferação de questionamentos e demandas decorrentes dos modelos de desenvolvimento excludentes e subordinados ao capital externo e a busca de identidade pela via da descolonização. Afinal, quem somos nós - este tal de Brasil - e o que queremos ser? Era essa a reflexão subjacente.

No teatro, o cenário estava ocupado por companhias, peças e atores estrangeiros de matriz européia em sua maioria. A fundação em 1908 da Companhia Dramática de Teatro da Exposição Nacional por Arthur Azevedo e Lucília Peres foi uma tentativa pioneira de criar espaço para um repertório fundamentalmente brasileiro. O gênero revista-de-ano, por sua vez, assimilou componentes e características locais, mudou de cara e afastou-se dos modelos originais também europeus. O barateamento do ingresso - que o empresário Pascoal Segreto iria concretizar a partir de 1911, ao cobrar apenas 500 réis por um lugar na geral - criou possibilidades inéditas de ampliação do consumo de bens culturais. Por conseqüência, o teatro passou a incorporar públicos maiores, que não freqüentavam as casas de espetáculo até então.

“A revista em si popularizando o teatro, antes aberto apenas às classes de maior poder aquisitivo, já contribuíra para uma verdadeira revelação em matéria de diversão e de colocação de elemento nacional, em condições de uma melhor aceitação em termos de cultura.
É inegável esse papel do teatro de revista. A partir das tentativas de Artur Azevedo e Moreira Sampaio até às temporadas plenas do artigo nacional nas revistas do São José, vai um caminho de acelerada conquista, trazendo novas platéias ao teatro, gente que até o advento da revista, se mantinha afastada dos dramas, óperas e balés preferidos pela sociedade elitista.” ¹

Na música, as cançonetas, mazurcas e polcas boêmias (da Boêmia) foram, lentamente, dando lugar aos sons e sentimentos que fervilhavam nos subúrbios e morros cariocas: o choro, o lundu, o maxixe, o samba, as marchinhas carnavalescas.

Gradativamente, o rico filão da produção musical de caráter mais popular foi sendo percebido e explorado por maestros e compositores, a começar por aqueles já engajados no gênero, co-autores, com suas melodias, do trabalho realizado por escritores de peças teatrais. Foi o que aconteceu com o paulista Nicolino Milano, parceiro de Artur Azevedo em várias peças, como, por exemplo, A Capital Federal em 1987; foi assim com a Chiquinha Gonzaga, que compôs músicas para muitas revistas, a começar pelo tanguinho brasileiro Gaúcho - tremendo sucesso à época - encenado como número de dança “corta-jaca” na revista Zizinha Maxixe em 1897. Foi o caminho trilhado por Costa Junior, maestro, pianista, compositor inspirado e autor de muitas partituras revisteiras bem sucedidas.

“ O apelo do êxito era forte e logo todos os maestros regentes de orquestras de teatro, quase sempre os encarregados de musicar os textos entregues às empresas, completando-os num trabalho final com esses autores, puseram-se a adaptar os seus conhecimentos, a sua formação erudita a serviço da música popular mais próxima do povo.

Autores de peso e donos de repertório erudito e semi-erudito tornaram-se, assim, autores também de músiquinhas fáceis, de linha melódica singela, assobiável e feita expressamente para cair direto nos ouvidos do público. Foi o que fizeram Paulino Sacramento, Assis Pacheco, José Nunes, Luz Junior, Sofonias Dornelas, Júlio Cristobal, Domingos Roque, Bento Mossurunga, Sá Pereira, Bernardino Vivas, Roberto Soriano, e, depois, Antônio Lopes, Vicente Paiva, José Maria de Abreu, Morfeu Belluomini e outros que escreveram centenas e centenas de músicas, que “arranjaram melodias e orquestraram simples cortinas, vibrantes ouvertures, finais grandiosos e bailados elaborados, criando ainda, em momentos de inspiração solitária - e difícil - maxixes, sambas, foxes, as tais musiquinhas de ritmo fácil para atender à demanda e à necessidade de produzir sucessos de qualquer maneira.

Ainda outros viriam depois daqueles primeiros e antes dos últimos citados, uma geração intermediária, digamos assim, destinada a colher ensinamentos dos primeiros e legar rumos aos últimos, geração privilegiada por surgir num momento único: o do auge do teatro de revista e começo do domínio do disco e do rádio - pronta a observá-los - abrindo-lhes ambições e platéias que passaram a compreender todo o Brasil. Esses foram Freire Júnior, surgido para o meio artístico em 1917 e que se tornaria também um dos mais conhecidos revistógrafos do Brasil; José Francisco de Freitas, o Freitinhas (1918), Eduardo Souto (1920), Sinhô (1920), Henrique Vogeler (1925), Hekel Tavares, Sebastião Cirino, Pixinguinha e Lamartine Babo, todos incorporados ao teatro em 1926; Donga (1928), Ary Barroso (1928) e Augusto Vasseur (1930) - todos eles fazendo partir do teatro as músicas que iriam conquistar só depois o sucesso popular nas ruas, nos bailes, nos cabarés, nas vitrolas das casas de família.” ²

A parceria entre teatro popular e música foi tornando-se cada vez mais estreita, fecunda e consolidada. Era no teatro de revista que os nossos compositores populares encontravam mercado e meios de difusão para suas canções, principalmente quando se aproximava o carnaval e começava a temporada das chamadas “revistas carnavalescas”. No período que antecedia as folias de Momo, as marchinhas e os sambas subiam aos palcos, dentro do formato apropriado, cuidadosamente selecionados por diretores, em quadros escritos por encomenda para serem interpretados por artistas de reconhecido apelo popular. Nos outros meses do ano, as revistas lançavam músicas de sucesso ou, o contrário, músicas de sucesso batizavam revistas, inspiravam temas para peças, esquetes e espetáculos de variedades.

“Com o rádio mal ensaiando seus primeiros passos e o disco numa escala ainda reduzida, o teatro de revista subia de interesse, por ele escoando toda a grande produção da MPB do tempo, dele dependendo em grau maior a divulgação e a afirmação de sucessos. No teatro de revista encontravam-se também, todos os intérpretes de real expressão, desde Araci Cortes, Francisco Alves e Vicente Celestino, até os novatos Sílvio Caldas e Carmem Miranda.” ³

Araci Cortes, só para citar um exemplo, brilhou intensamente nos palcos dos teatros da Praça Tiradentes e dali irradiou sua luz para o Brasil e mais além, chegando a viajar em temporada para Lisboa e Paris. Seu inestimável valor como artista permanece em clássicos de nosso cancioneiro lançados por ela em revistas memoráveis:

Jura (Sinhô) - revista Microlândia (1928) e reprisada em Miss Brasil (1929).


Linda Flor (Henrique Vogeler - Marques Porto - Luiz Peixoto) - revista Miss Brasil (1929)


Quindins de Iaiá (Pedro de Sá Pereira- Cardoso de Menezes - Carlos Bittencourt) - revista Compra um Bonde (1929).


No Morro (Ary Barroso e Luís Iglésias) - lançada em 1930 na revista Diz Isso Cantando. A mesma música seria gravada por Carmem Miranda e Almirante em 1938 com o nome Boneca de Piche. Também conhecida por Eh! Eh!


Na Pavuna (Almirante - Homero Dornelas) - na revista Dá Nela (1930).


Na Grota Funda (J. Carlos - Ary Barroso) - revista É do Outro Mundo! (1930). Música que depois ganhou letra de Lamartine Babo e se transformou na imortal No Rancho Fundo. Esse imbróglio será contado em detalhes futuramente.

Mulato Bamba (Noel Rosa) - revista Angu de Caroço (1932). Interpretada por Araci e Silvio Caldas.

Linda Morena (Lamartine Babo) - composta para o carnaval de 1933 e incluída em seguida na revista Morango com Creme, apresentada em Lisboa com calorosa aceitação.

Na Batucada da Vida (Ary Barroso - Luiz Peixoto) - revista Há uma Forte Corrente (1934).


Yes, Nós Temos Banana (João de Barro - Alberto Ribeiro) - na revista de mesmo nome em 1938.

Mulata (João de Barro) - revista Não Adianta Chorar (1939).

Aquarela do Brasil (Ary Barroso) - revista Entra na Faixa (1939).

O Rouxinóis (Lamartine Babo) - revista Bom Mesmo é Mulher (1958).

É por essas e outras que temos o firme propósito de escarafunchar o baú do esquecimento para trazer à tona a luminosa conjunção que aproximou teatro e música na primeira metade do século passado e produziu frutos da maior qualidade e importância para a cultura brasileira. Já publicamos artigos sobre Araci Cortes, Chiquinha Gonzaga, Luiz Peixoto. Voltaremos ao assunto mais vezes, pois o que não falta é pano para manga e histórias para alinhavar. Ao longo do nosso caminho tem sonhos, invenções, cenários, estrelas, artistas talentosos, canções inesquecíveis, memórias preciosas e muita graça e diversão. Uma prazerosa e apaixonante viagem ao âmago do espírito carioca e da alma brasileira!





(¹) p. 98, (²) p. 102-3, (³) p. 122 in Ruiz, Roberto - Araci Cortes ; Linda Flor. FUNARTE/ INM/ Divisão de Música Popular, Rio de Janeiro, 1984.

de Alencar, Edigard - Nosso Sinhô do Samba - Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro 1968.

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Comentário de Cafu em 4 agosto 2009 às 3:09
KKKKKKKKKKK. Helô, quem é o autor desta pérola do nosso jornalismo machista? Conta, conta.
Vou ler o que falam do nosso tio.
Durma com os anjos.
O:)
Comentário de Cafu em 4 agosto 2009 às 3:26
KKKKKKKKKKKKKKKK. Só agora que vi o texto do Henrique sobre o que era "ir ao teatro" antigamente. Está ÓTIMO! Proponho detacar num post, tal como está , ilustrado com a tal foto de que falei.
Agora quem vai dormir sou eu.
Beijos.
Comentário de Teatro de Revista em 4 agosto 2009 às 19:18
Helô,
Arquivo em pdf é um atentado contra a nossa paciência! E o Adobe também! Cada vez que abrimos o programa canalha ele começa uma "atualização de linguagem", que pode ser português (dispensável), grego ou cantochão, atravancando tudo. Mas já baixei o arquivo e vou tentar ler.
Cafu,
"Pérola machista"? Acho que não. O repórter da "Fon Fon" deve ter revirado os olhinhos ao sonhar com a voz de barítono do Francisco Alves, por exemplo, nos versos "um moreno canta as mágoas/Com os olhos rasos d'água". "-Aff... Maria...", diria ele hoje em róseos tremeliques.
A implicância deve ter sido por conta da voz pequena, mas agradável, da Elisinha Coelho. Sem fundamento, já que a gravação é da era eletrônica e captava bem as vozes femininas e os sons mais delicados.
Sobre "Miss Brasil", Ary Barroso afirmava que a seu juízo foi a melhor Revista entre todas. A confusão de datas é porque a peça ficou em cartaz até março de 1929, como informa Salvyano. Mas, para efeito de registro, vale a data de estréia, em dezembro de 1928.
Quanto ao que escrevi sobre como era ir ao teatro naqueles tempos, isso é assunto para você, que é socióloga. Já li algumas referências a respeito em ensaios sobre o teatro, mas não tenho notícia de trabalho mais amplo sobre o tema, que traz muita informação sobre os hábitos, os costumes e a vida social do Rio de Janeiro de então.
A propósito fico aqui pensando: há 80, 100 anos o povo ia ao teatro. Claro que os bem pobres já eram excluídos do consumo de bens culturais. Mas as camadas médias -assalariados, pequenos funcionários do comércio, da indústria, dos serviços e do governo- conseguiam separar um dinheirinho para comprar um ingresso. O teatro de revista morreu e o povo nunca mais foi ao teatro! E não adianta fazer campanhas do tipo "vamos ao teatro".
beijão
Henrique Marques Porto
Comentário de Teatro de Revista em 4 agosto 2009 às 20:28
Helô,
É curioso ver peças do tio Agostinho incluídas num livro com o título "A LITERATURA DRAMÁTICA DO RIO GRANDE DO SUL". Antenor Fisher forçou a barra. Tio Agostinho nasceu em Bagé-RS por acaso. Não entendia nada de bombachas, e vai ver nunca tomou chimarrão. Meu avô era militar de alta patente e comandou unidades em diversos estados do sul, sudeste, norte e nordeste. Também nasceu no RS, em Rio Grande, porque também era filho de militar. O revistógrafo Marques Porto poderia ter nascido no Amazonas ou no Ceará. De nove irmãos foi o único a nascer no sul. Todos os demais são cariocas. Ele é o primeiro filho do segundo casamento do meu avô, realizado no Paraná. Um ano exato depois, em 8 de janeiro de 1898, nasceu meu pai, já no Rio de Janeiro. Mas tio Agostinho gostava do sul e viajou algumas vezes para lá, inclusive em excursões teatrais. Tenho uma foto dele montado num cavalo lá pelos pampas. Mas não gostava muito da complicada (até hoje!) politicagem gaúcha. Aliás, os revistógrafos só gostavam dos políticos gaúchos na hora escrever sátiras para o teatro. Mário Lago, por exemplo, estreou em 1933 explorando o tema com a revista "Flores à Cunha". Por sinal, Lago conheceu bem tio Agostinho. Além de amigos e colegas foram vizinhos numa determinada época. O próprio Mário Lago foi quem me contou.
Mas o trabalho de Antenor Fisher parece muito interessante.
beijão
Henrique Marques Porto
Comentário de Laura Macedo em 5 agosto 2009 às 2:28
Helô,
Se fosse a minha voz cantando "No Rancho Fundo", até que se "justificava" o preconceito do jornalista machista :))))))
Depois do meu mandato como síndica - ainda falta quase um ano -, :(((( vou entrar numa aula de canto. Será que aos 55 anos ainda tem jeito? HaHaha...

Cafu, concordo plenamente que o nosso colega Henrique transforme seu comentário num post.
Mas confesso que estou mesmo ansiosa é pelo post do tio Agostinho galopando em seu cavalo pelos pampas. Vamos aguardar.
Beijos a todos.
Comentário de Henrique Marques Porto em 5 agosto 2009 às 17:58
Laura,
"Galopando" em cima de cavalo seria exigir muito. Do cavalo, é claro. Tio Agostinho pesava mais de 100 quilos! Ia matar o animal!
Henrique Marques Porto

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