empo, palavra complexa, abstrata e implacável. Tudo gira em torno dele. Com ele adquirimos sabedoria e maturidade. Com o tempo envelhecemos, aprendemos e o principal, vivemos. Para atingirmos níveis de excelência em nossa área precisamos dele. Alguns sabem enganá-lo e ludibriá-lo, conseguem brincar com a abstração. O que leva décadas para se conseguir, fazem em poucos anos. Isso sóocorre com uma conjunção ideal de fatores. A São Paulo Cia de Dança é um dos raros fenômenos que enganaram o tempo, precisaram pouco dele para atingir um nível de qualidade única. A apresentação , no Teatro Alfa dia 27/08/2011 me deixou com essa impressão.

Acostumado a freqüentar teatros de todos os gêneros há alguns anos: ópera, balé, concerto, peças, musicais. Poucas coisas me emocionam, me deixam perplexo, me tiram o sono. Nesse mesmo dia o compatriota Anderson Silva faria sua defesa de título pelo UFC Rio, estava louco para assistir sua luta (meu gosto é eclético). A São Paulo Cia de Dança me fez esquecê-lo. Quatro coreografias, quatro apresentações únicas, onde tudo deu certo.

Legend (1972)de John Crancko é a exuberância da técnica. Passos complexos, de elevada dificuldade, expostos a movimentos apaixonados pelos dois bailarinos. Uma coreografia empolgante, expressiva, que contagia o espectador. Luisa Lopes e Norton Fantinel mostraram grande virtuosismo, técnica superior em passos árduos e de difícil execução. Pequenas falhas são compensadas quando o risco e o limite dos movimentos levam a plasticidade. Coreografia inspirada na grande bailarina russa Galina Ulanova (1910-1998), eterna primeira bailarina do Bolshoi. Assisti com ela um Romeu e Juliet no Bolshoi , 1954. Grande técnica, aliada a movimentos expressivos. Pena que foi em DVD.

A forma caracteriza Inquieto (2011) de Henrique Rodovalho. Traços e linhas se multiplicam como mágica, deixando o espaço cênico complexo. Movimentos que levam as inquietudes, que mostram as complexidades de vida moderna. Coreografia que induz o espectador a reflexão. Os bailarinos tiraram de letra, dançaram com vivacidade . Grande interpretação cênica e musical. A música de André Abujamra e os figurinos de Cássio Brasil adaptam-se perfeitamente ao contexto da obra.

Tchaikovsky Pas de Deux (1960) de George Balanchine é puro balé clássico. Marcelo Gomes e Paula Penachio mostraram todo o virtuosismo que exige a coreografia. Inspirada no Lago dos Cisnes a coreografia tem grandes desafios . Velocidade, rotações, quedas e grandes saltos. Vindo do American Ballet Theater, Marcelo Gomes mostrou técnica de sobra . A prata da casa Paula Penachio dançou com delicadeza e refinamento. Bailarina de técnica apurada e uma beleza incontestável, me apaixonei por ela desde o ensaio.

Confesso que torci o nariz quando vi o ensaio de Supernova (2009) de Marco Goeck. No teatro , ao vivo , tudo muda. Passos frenéticos , rápidos como a vida nas grandes metrópoles, são misturados a diversos elementos. Luz , fogo e pequenas pedras atiradas no palco expressam cenicamente energia e contraposição. Movimentos curtos, cheios de energia e contrastes. Coreografia reflexiva que mostra o contemporâneo do contemporâneo da dança. Muitas vezes choca o espestador.

A observação é matéria prima de minha escrita. Sentada na fileira de trás uma moça delirava, boquiaberta com a precisão e a dificuldade dos números. Comentava com seu companheiro, se deliciava com os grandes saltos, aplaudia com entusiasmo. Parecia estar em outro mundo, aqueles momentos mágicos que a dança proporciona, únicos e delirantes. Terminado o espetáculo fui correndo para casa, deu tempo de ver o Anderson Silva massacrar o japonês na luta pelo título do UFC. Depois disso tudo , o sono dos justos, realmente uma noite como poucas.

Ali Hassan Ayache

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