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O trabalho de esconder e destruir nossa história - Paulo Moreira Leite

O repórter Rubens Valente, da Folha de S. Paulo, puxou a ponta de um novelo interessante. Ele encontrou os “Termos de destruição” que registram a queima de 39 ofícios sigilosos pelo Exército. Os papéis foram incinerados entre o final da década de 60 e o início dos anos 70. Como eram secretos, e assim permaneceram até serem reduzidos a cinzas, não se sabe o que contém — mas é fácil imaginar que registravam episódios relevantes de nossa história.
Pelo momento da incineração, os papéis se referem a episódios ocorridos antes do regime de 1964. Rubens Valente deduz, pela data, maio, junho e julho de 1961,que os papéis incinerados poderiam conter informações acerca do governo de sete meses de Jânio Quadros (1917-1992), que renunciou ao cargo em agosto daquele ano — um mês depois do último papel queimado.
Num país que deve tantas explicações às novas gerações, e tanto deveria fazer para reconstituir os fatos relevantes de nossa história, que permanecem ocultos, a espera de uma reflexão maior, essa descoberta tem um valor duplo.
Um deles envolve uma conhecida dor de cabeça de nossos governos democráticos, que são os arquivos do regime militar, que dizem respeito a mortes e execuções de presos políticos. Pergunte-se a um oficial pelo destino desses registros. Ele dirá que não se sabe, que não há como descobrir o que se fez, quando, por ordem de quem. Os papéis de Rubens Valentim informam que não é bem assim.
Mas há outro aspecto, igualmente relevante. Os segredos de Estado não são uma invenção brasileira. Mesmo nos EUA, que tem muito a ensinar nessa matéria, o Estado tem a palavra final sobre a liberação de documentos secretos e chega a censurar trechos de papéis liberados por decisão da Justiça. Apesar desse controle, é possível encontrar um número maior de informações relevantes sobre a política dos países da América do Sul nos arquivos dos EUA do que nos similares do continente, inclusive brasileiros.
A história da ditadura militar chilena possui uma narrativa melhor nos arquviso de Washington, abertos por determinação do então presidente Bill Clinton, do que em Santiago. Foram papéis descobertos em Washington que mostraram o apoio da Casa Branca às articulações militares que derrubaram Goulart em 1964 — coisa que articuladores brasileiros e aliados americanos insistiam em negar. Não custa lembrar as implicações de todo tipo, inclusive cultural, dessa situação, em que os arquivos estrageiros se tornam a melhor fonte de informações sobre a história de determinado país.
Embora tenha ares de ritual burocrático, definido em lei, essa queima de papéis conserva algo de inquisição medieval. É uma forma de censura política, interessada, que envolve o estudo de qualquer época, a de hoje, de ontem e de anteontem.
Em determinado momento, os ocupantes do poder decidem o que pode ou não ser do conhecimento não só dos contemporâneos, mas das futuras gerações — e eliminam o que não interessa. É para ficar angustiado.
Penso em personagens injustiçados e outros, injustamente glorificados.Penso na quantidade de mentiras, más interpretações e distorções que se acumulam por décadas e mesmo séculos, ajudando a formar uma visão incompleta, falsa, a respeito de quem somos, de onde viemos, do que nossos antepassados fizeram. E é claro que essa visão distorcida terá conseqüencias sobre o país que construimos hoje e amanhã.
Esse poder que destrói nosso passado é um poder de censura sobre a eternidade.

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Comentário de Paulo de Tarso Correa em 30 dezembro 2008 às 19:02
Me desculpe se vou falar besteira ou vou conspirar. Praticamente toda civilização ocidental foi construida por sociedades secretas que se mantem até os dias de hoje. Historias são feitas e desfeitas conforme o desejo delas e todos os ramos do poder são comandados por elas. Quanto a maioria, que não fazem partes desses grupos, serão sempre considerados meros espectadores e parte de baixo da piramide. Basta seguir o curso da história e fazer o estudo do poder.

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