O valioso tempo dos maduros - Mário de Andrade

 

 

- Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver, daqui para a frente, do que já vivi até agora.
     Tenho muito mais passado do que futuro.
     Sinto-me como aquele garoto que ganhou uma bacia de jabuticaba.
     As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltavam poucas, rói o caroço.
     Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
     Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
     Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
     Já não tenho tempo para conversas intermináveis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
     Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
     Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
     As pessoas não debatem conteúdo, apenas os rótulos.
     Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa.
     Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora e não foge de sua mortalidade...
     Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
     O essencial faz a vida valer a pena.
     E para mim, basta o essencial!

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Comentário de Oswaldo Conti-Bosso em 2 agosto 2011 às 3:38

Caro Marçal,

Envelhecemos todos, a tragédia do tempo é um imperativo das leis do universo, mas o amadurecimento é opcional, cada vez mais opcional. Como diria Raymundo Faoro, não exagere na ironia, e também na seriedade, a vida é uma vivessenciaprendiz, e o Mário era e é essencial.

Sds,

 

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