A capital paulista, em 1922, eclode como um vulcão em ebulição, irradiando lavas férteis no universo artístico/cultural da cidade. Era a famosa “Semana de Arte Moderna”.

Também, em 1922, precisamente dia 17 de outubro, na cidade do Rio de Janeiro, nasce o menino Luiz Floriano Bonfá, que tempos depois igualmente eclodiria, irradiando lavas férteis no universo musical brasileiro e mundial.



FORMAÇÃO MUSICAL


É o próprio Luiz que nos fala da sua formação musical:


"Minha formação musical foi mais baseada no popular. Meu pai, imigrante italiano, tocava violão, gostava muito de seresta e estava sempre rodeado de músicos como Bororó e Pixinguinha.
A família costumava ouvir o que tinha de melhor na música brasileira da época: Francisco Alves, Noel Rosa, Bororó, Mário Rossi.

Comecei a tocar violão com 7 anos. Como ele tinha alguns conhecimentos nas rádios, me levou a vários programas de calouros. Isso até por volta dos doze anos. Aí, um dia, meu pai me apresentou a Isaías Sávio, um grande violonista e professor, que me ouviu tocar e imediatamente me chamou para iniciarmos as aulas".


Nessa época Luiz Bonfá morava em Santa Cruz, bairro situado na zona oeste carioca. Para ir às aulas, tomava um trem até a Central e caminhava um bom pedaço a pé até a subida para Santa Teresa, onde morava o professor Isaías. Mesmo assim Bonfá não media esforços para aproveitar o máximo dos ensinamentos do mestre que foi aluno de Miguel Lloblet, que por sua vez estudava com Tárrega - fundador da escola do violão moderno.

Isaías Sávio tinha duas características como professor: a exigência de rigor e seriedade, e o estímulo para que cada aluno encontrasse o seu próprio caminho, sempre dentro da música clássica. Mas a opção de Bonfá foi pela música popular, para tristeza de Isaías, que apostava nele todas as suas fichas como um dos futuros grandes concertistas do mundo.

No final da adolescência, ganhando a vida tocando em bares, boates e cassinos do Rio de Janeiro, deu-se a outra parte do seu aprendizado, no contato com músicos como Garoto.

"Meu amigo Garoto me influenciou muito, um gênio musical à frente do seu tempo. Costumávamos nos reunir em sua casa em Copacabana e tocar durante horas, só nós dois".


A aquisição de uma excelente base clássica, a experiência de tocar na noite, o contato com o jazz e a canção americana engendraram o alicerce sobre o qual Luiz Bonfá construiria sua música.



ESTREIA PROFISSIONAL


Estreou profissionalmente em 1945 como solista de violão e vocalista do Trio Campesino, apresentando-se, com sucesso, nos cassinos da Ilha Porchat, de Santos (SP), e de Icaraí, em Niterói (RJ).

No ano seguinte, levado pelo amigo Garoto, passou a integrar o cast da Rádio Nacional, onde tocavam em dupla, e foi convidado a participar de outro conjunto vocal, o quarteto Quitandinha Serenaders, que gravou dez discos entre 1948 e 1952. Quando Bonfá resolveu se afastar e foi substituído por João Gilberto.


TRAJETÓRIA PROFISSIONAL


Em 1956, Bonfá atua como violonista da peça "Orfeu da Conceição" que, com o nome de "Orfeu Negro" e já com duas composições suas com parceiros ("Manhã de Carnaval" e "Samba de Orfeu"), foi filmada pelo diretor francês Marcel Camus, ganhando o Oscar de melhor filme estrangeiro.

"Manhã de Carnaval", de Bonfá e Antônio Maria (CD Luiz Bonfá Solo In Rio - 1959).





Grava, em 1959, o excelente disco "Luiz Bonfá: Solo In Rio 1959".



"Sambolero", de Luiz Bonfá.



"Perdido de Amor", de Luiz Bonfá.



"Amor sem Adeus", de Luiz Bonfá e Tom Jobim.




BONFÁ NO EXTERIOR


Em 1958, com pouco dinheiro e sem falar inglês, Bonfá vai para os Estados Unidos.

"Batalhei muito. Cheguei lá sem saber o idioma, sem grana e com o violão debaixo do braço. Fiquei hospedado numa pensão em Nova York e andava o dia inteiro atrás de trabalho. Fui ajudado por amigos do Brasil, como o saudoso Ibrahim Sued. Na época, me convidavam para todas as festas e eu tocava a noite inteira de graça".


"Numa dessas festas, fui observado por uma grande cantora que fazia grandes musicais na Broadway, chamada Mary Martin. Foi aí que tudo começou. Passei a integrar a orquestra dela, e ela sempre me dava oportunidade de fazer solos e participar de seus discos. Fui ficando conhecido e viajamos pelo mundo".


Depois do famoso show da bossa nova no Carnegie Hall, em 1962, Luiz Bonfá acompanhado da esposa e por vezes parceira, Maria Helena Toledo, decidem radicar-se nos Estados Unidos onde passam a residir até 1971, com visitas esporádicas ao Brasil. Durante esse tempo, gravou, com alguns dos maiores músicos do Brasil e dos Estados Unidos, quase toda a sua extensa produção discográfica em LPs e CDs.


A discografia completa de Luiz Bonfá está disponível num site mantido por dois irmãos japoneses. Confiram aqui.


Em 1963, a cantora italiana Caterina Valente grava um disco só com composições de Luiz Bonfá. Confiram a performance da dupla.













Em 1968, Bonfá acompanha Elvis Presley na única música brasileira que o cantor gravou em toda sua carreira: "Almost In Love".

"Almost In Love", de Bonfá e R. Starr, na belíssima voz de Ithamara Koorax.








No ano seguinte, 1969, Bonfá acompanha Frank Sinatra na gravação de "Manhã de Carnaval" para o seu consagrado disco "My Way". E o cantor e guitarrista George Benson o convida para um duo em faixas do seu disco.

"Absorvi muita coisa da música americana, cheguei a uma sonoridade suave, sem malabarismos, enriquecendo mais os acordes".


De 1971 em diante, o sentido se inverte – o Brasil passa a ser a base, e Bonfá retorna aos Estados Unidos periodicamente para se apresentar e para gravar novos discos – inclusive o elogiado "Introspection", de 1972.

Anos depois, a carreira entra em fase mais lenta devido a problemas de saúde, e ele retorna definitivamente para o Brasil em meados da década de 1990.






A talentosíssima cantora Ithamara Koorax lança em 1996 o CD "Ithamara Koorax Sings The Luiz Bonfá Songbook".


"The Gentle Rain", de Luiz Bonfá e M. Dubey.


"Menina Flor", de Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo.


"Correnteza", de Luiz Bonfá e e Tom Jobim.







Esse disco (1996) é dividido em duas partes, onde na 1ª Garoto interpreta ao violão algumas obras de Ary Barroso com acompanhamento orquestral e na 2ª Luiz Bonfá toca músicas próprias e faz releitura de alguns clássicos da música americana.
O texto da contracapa foi escrito por Aloysio de Oliveira, em 1994, pouco antes da sua morte em 1995.

"Garoto", autoria e interpretação de Luiz Bonfá.


"Na Baixa do Sapateiro", de Ary Barroso, interpretação de Garoto e orquestra.




TALENTOSOS ARTISTAS GRAVARAM AS COMPOSIÇÕES DE LUIZ BONFÁ, entre eles, Nora Ney, Ângela Maria, Dóris Monteiro, Edu da Gaita, Sylvinha Telles, Tom Jobim, Agostinho dos Santos, Elizeth Cardoso, Djavan, Frank Sinatra, Caterina Valente, Elvis Presley, Stan Getz, Diana Krall, Luciano Pavarotti, Ithamara Koorax.



DEPOIMENTOS


CARLOS LYRA: "O Bonfá era uma pessoa que tinha uma técnica diferente dos outros. Era uma técnica mais leve, mais suave, ele não punha pressão no violão, ele tocava muito leve, deslizava como se fosse uma cascata musical".


PAULINHO NOGUEIRA: "Lembro que uma vez, há mais de 30 anos, ele foi me visitar na minha casa, faltou luz e ficamos várias horas tocando no escuro. Esse tipo de coisa não se esquece".


TONINHO HORTA: "Ele tinha um jeito particular de tocar. É raro um músico que seja tão bom intérprete e compositor como ele era, como o Baden Powell era".


ANTHONY WELLER (Violonista e escritor americano): "Um exuberante virtuosismo aliado a uma suave alegria, e uma ainda incomum capacidade de simular diversos instrumentos de percussão simultaneamente no violão. O violonista, musicólogo e compositor Brian Hodel conta que, certa tarde no Rio de Janeiro, pediu a Bonfá que tocasse uma versão 'perfeita' de 'The gentle rain' para que ele pudesse transcrevê-la. Vendo-o tocar algo completamente diferente a cada passagem, deu-se conta de que Bonfá não só estava improvisando mas, instintivamente, não conseguia se repetir."


CARLOS BARBOSA-LIMA: "A concepção harmônica de Luiz Bonfá sempre me impactou muito. Era um violão diferenciado, com movimento de vozes, com contraponto, um conceito orquestral ainda não superado na música brasileira. Um violão tratado como uma pequena orquestra. Isso me influenciou muito nos trabalhos de transcrição e harmonização que passei a fazer".




TAVYNHO BONFÁ, participante do nosso Portal, sobrinho, de Luiz Bonfá está prestes a lançar um magnífico DVD em sua homenagem: BONFÁ TOCA BONFÁ.


"...falando em nome de todos que participaram do processo da confecção musical do 'BONFÁ toca BONFÁ', o importante foi fazer com a liberdade que a música do Luiz Bonfá exige, na simplicidade de suas linhas melódicas e na sutileza de como ele compôs essas músicas bonitas..."

Detalhes sobre o DVD, aqui.


Hoje, 17/10/09, se vivo, Luiz Bonfá completaria 87 anos...

Sentimos uma imensa saudade da sonoridade cristalina do seu violão universal/orquestral e de suas geniais invenções harmônicas...


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Fontes:

- Violões do Brasil / organização Myriam Taubkin; fotos Angélica Del Nery. - 2ª ed. rev. e ampl. - São Paulo: Editora Senac São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2007.

- Dicionário Ilustrado [da] Música Popular Brasileira / criação e supervisão geral Ricardo Cravo Albin. - Rio de Janeiro: Paracatu, 2006.

- Luiz Bonfá em entrevista com o músico Mário Adnet, em 2002.

- Luiz Bonfá em depoimento ao jornalista e escritor Tárik de Souza, em 2000.

- Encarte do CD Luiz Bonfá Solo In Rio 1959, de autoria de Anthony Weller (violonista, escritor e jornalista americano).

- Sites: Músicos do Brasil, Sovaco de Cobra e Chifrantiga.

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Comentário de BLOG DAS IGUARIAS - em 17 outubro 2009 às 17:04
Que bom retornar e ver essa maravilha de trabalho.
Laura , parabéns pelo texto . Vou atualizar meu trabalho logo. Não vou esquecer .Bom final de semana. BJS

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