Oito anos de Lula

por Noctívago Vago, terça, 15 de Novembro de 2011 às 14:43
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                    Oito anos de Lula

 

  Por que escrever um texto como este?

 

  Porque, fundamentalmente, a memória pode ser ajustada, trabalhada, pontuada. Lembramos melhor o emocional.  Concordemos aqui: neste caso nosso emocional pode variar. Entre você e eu.

 

 Para que os mocinhos continuem mocinhos e os heróis, heróis, há que se ter sempre presente a intensidade da vilania, esta adversa.

 

 O período do governo político que o Brasil teve, de 1994 a 2001 necessita, como vemos, ser pontuado, trabalhado e ajustado. Dimensão da memória, nestes tempos de multinformação desintegradora. Como pressuposto da historiografia imediata. Memória mediando a história, a política.

 

 Ou de outra forma, não existe possibilidade de falar o bom ou melhor. Ou o ruim, exceto em bases comparadas e historicamente válidas. Com o anteriormente havido, exatamente...

 

 Portanto, é inexorável. Falar de 2002-2010 pressupõe 1994-2001. Pressupõe conhecer, pontuar e articular. Pressupõe “memorializar”...

 

 O mérito da estabilização monetária veio do mesmo núcleo de genialidade acadêmica carioca dos Arida, Bacha e outros...

 

 

 O que se conseguiu e se implementou foi a seguir, baseado neste sucesso, o da genialidade acadêmica de terceiros. Mesmo porque estes ainda remanescem gênios. E os detalhes são, seguintes, revelados pela leitura e organização histórica recentes. Esta que intentamos desta forma, ‘memorializar’, agora.

 

 

 No plano político, a desagregação partidária dentro projeto nacional ficou emblematicamente resolvida no golpeio que o governo federal deu no governo estadual de São Paulo, quando o grande Mário Covas, biografia, coerência e presença política das mais intensas dentro passado republicano recente, passou a lidar com vetores simplesmente exponenciais, abissais de ordem econômica. Os dos meios com os quais financiasse a recuperação do grande estado da nação, quebrado pelo PMDB. Ao lhe ser retirado, na calada de uma noite ou final de semana (limite da função ‘memorial’, a ser completada) sentindo intenso o tamanho da punhalada política, ao tomar conhecimento da adesão incondicional ao receituário do todo-poderoso Malan (àquela altura negociador profissional da dívida externa, já de anos), privatizando, via competência regulatória federal, o banco estadual “Banespa”, de uma penada (dir-se-ia,  irresistivelmente: “caneteada”) só. E em grau da leitura partidária extremamente sinalizadora, de plena e imediata decodificação - pelos jornais...

 

 

 Aí, e exatamente aí, a historicidade, o berço e a eticidade de começo (do PSDB) foram, de forma (sinalizadora) atroz e indelevelmente, comprometidas. Algo impensável no agregador Montoro, líder de um passado intensamente vívido e plural.

 

 

 A idéia de que não pensamos em sucessores, nesta longa jornada dos nossos dias vividos na Terra, ou como se a nação ou um projeto político não necessite de continuidade, da defesa destas visões de mundo comuns, quebra, sem dúvida, o lado mais profundo da essência da Ética. O relacional. Pela quebra aceita-se que, os iguais que deveriam aplicar sofrer a ética juntos, seriam de fato  e nesta consideração, diferentes. Existe de fato um melhor do que o outro...

 

 

 O contraponto de 2002-2010 é, neste exato momento, necessário. Mensalão e adjacências, e outros escândalos, dentro destes nunca houve, como sinalizador político, a desagregação partidária. A punhalada política. A comunicação da solidão política pelos jornais... O pouco-caso biográfico... A ausência da idéia do melhor quadro partidário na construção de um êxito e, após este, uma consolidação sucessória.

 

 

 Cumpre, só à guisa de entretenimento e curiosidade cultural, lembrar que tanto o secretariado e o vice de Covas, bem como a magnitude dos problemas enfrentados e as amarras orçamentárias, o grau enfim de busca de resposta em cultura política, gerado e desenvolvido por um Covas engenheiro que era, chegou a construir de fato uma tal herança de valores, uma cultura de enfrentamento político das questões graves, donde ( errado esteja, não aposto ) meritoriamente, o governo federal 1995-2001 sequer tocou ou chegou perto...

 

 

 

 Este último parágrafo será melhor visto dentro, cremos, da formalidade da observação histórica, àquela de cinqüenta anos guardados...

 

 

 No plano econômico, a medicação passada em exato foi receitada, e de fora: concepção de Estado mínimo, a da regulação privada dos entes e serviços públicos (a conversa fiada das agências reguladoras imunes ao poderio econômico, esta por pura obra do primitivismo da crendice política... esta sim, de fato analfabeta); a privatização ou tentativa, de todo o setor de transformação de energia (o setor mais primário, sem o qual tudo pára) onde o estado tinha participação majoritária, financiamento público na aquisição do controle acionário (éééééh...!) por parte dos players privados; projetos de longo prazo (controle e vigilância da Amazônia legal pelo SIVAM by Raytheon ). Isto, esta última, no detalhe, com um destacado professor da USP, impoluto causídico e porém menos diplomata de tradição, à frente de um Ministério, este sim de grandíssima  tradição, a estimar disto, deste assunto e decisão consequente: de sua consideração acerca da manutenção da fidelidade no resguardo da criptografia tecnológica, da transferência vedada dentro da tecnologia das redes de defesa, de uma decorrente proteção ao patrimônio genético de flora e fauna brasileiros, à perigosa estimativa contratual atribuindo uma certeza e importância a quem - cerca de quinze anos antes ( Ah! memória...) – havia açodada e sofregamente  rompido um acordo interamericano assinado... E passando aí a solidarizar-se ultra-mar, após desonrar o mesmo, tanto dentro da logística quanto da inteligência militares, ante uma Argentina agredida - que àquela altura padecia uma ditadura que eles próprios, os rompedores contratuais, haviam estimulado e subsidiado.

 

 

 Isto por uma Inglaterra, a quem esta mesma nação agora honraria com, além de logística e de inteligência, o fornecer de mísseis e adendos outros, artefatos bélicos...

 

 

 Quando a isto se junta os termos de contrato na cessão privativa de soberania a país estrangeiro, em Alcântara (recentemente exposto à mídia) e o narcoterror sofrido por quem aderiu à ALCA (ou... estamos esquecidos?) - a bandeira empunhada da então ALALC - como verdade absoluta, parece ser aquele  diálogo artístico subliminar, surdo quase, de filme de Billy Wilder: escolha a sua versão – ou pode ser ingenuidade, burrice ou pura má fé.

 

 

 Do meu canto, ‘memorializando’, consigo só imaginar ( isto sim ) e conceber apenas analfabetismo político...

 

 

 Ainda, numa pontuação em retrospecto, viu-se, pela gestão de 2002-2010 tampouco política externa acéfala, e nem a  inexistência de projeto... Ao contrário este sim bem presente, em formulada e aplicada existência. Com justo começo, meio e fim. E bem ao contrário, articulou-se esplendidamente. Do econômico-produtivo, da ocupação do mercado de trocas internacionais, às zonas de cooptação e sinergia de interesses comuns, conjuntos. Da formação de consensos, dos G-20, dos Brics, da multilateralidade orgânica como regra. E, em sendo a hegemonia tentada, resultava (como resultou) escassa e rala.

 

 

 Também disso, do tamanho desta virada de eixo, só se terá dignificadora visão daqui a cinqüenta anos. Ante a tão referida compactação, sedimentação e depuração histórica...

 

 

 Sou bem mais rigoroso e impagável comigo mesmo, mais ainda pela  clara impossibilidade de estar vivo até lá. Exijo o meu à vista: tivesse mais estofo de requintes o Direito e menos a Diplomacia, dentro do campo do saber humano, aí talvez a escolha do agente político, a que quisesse refundar o Brasil de cócoras, tivesse então talvez mais êxito...  

 

 

 A tese do mercado interno foi flagrantemente desrespeitada. O tamanho do “palavrão” inicial (2002), o do dito “assistencialismo”, do Bolsa Família e o eixo de inclusão massiva dentro das políticas públicas, só encontra correspondente  e  contraponto cabal no sentido da  incompreensão, da chamada plenitude do analfabetismo político. A de chamar ‘aposentados’ de ‘vagabundos’ (fato histórico). Dava-se-lhes a destinação (indigna e ofensiva) do trabalho não remunerado, o chamado “trabalho voluntário”, ultrajando-lhes como se externalidade econômica do setor produtivo fossem... Sem que se deitasse mínimo olho a qualquer das planilhas do IBGE de hoje – para correção de pensamento equivocado, dentro de um revisionismo generoso - verificando sua atual pujança de ator e protagonista econômico, como classe e segmento econômico...

 

 

 De novo, requeiro meu em cheque à vista: dizer que estas teses, as das potencialidades internas, não circulam no meio econômico há pelo menos cinquenta ou sessenta anos    (por outro herói e gênio da raça, Celso Furtado) ou em meio político – renda mínima, de Eduardo Suplicy – há pelo menos trinta, não é analfabetismo sociológico, econômico, histórico ou cultural... É legítima e tosca cabulação de aula básica de convívio humano. Vai mesmo de acadêmico-popular, portanto:trata-se mesmo de indigência civilizatória  crua...   

 

 

 Mas a maior e definitiva lesão ainda estaria por vir. A das gerações futuras.

 

 

 Ficou combinado dentro duma esfera de concepção de pátria singular, a do consenso de Washington e assemelhados, que seríamos Pátria: quanto ao que toca aos despossuídos, do poder ser ( refere-se aí a gerador de riqueza, assalariados sub corrigidos que fomos, por oito longos anos), do  poder consumir ( mercado, ainda que sub-estimado, como vimos no caso) mas nunca, em hipótese alguma poder ter ( o acúmulo de riqueza estaria reservado apenas a quem já teria, abastadamente, desta ).

 

 

 Só esqueceram de combinar, histórica e acertadamente, com o calendário eleitoral do povo...

 

 

 A lesão a que quero me referir, a de um pai ou de uma mãe de família, exatamente dentro dos seus corações, a perceber que uma criança sua ou adolescente, dentro de sua casa... Foram estes os exatos vitimados por esta espécie de conto do vigário, o do vigário ideológico, o  conto do aumento das contas de custeio fixo... Estas, ali, saindo de 20 a 30 por cento da sua renda-salário-ganho fixos, para sessenta ou setenta por cento , em mês-a-mês, mediante a correção dos custos, a de  uma ideologia de se privatizar sem critérios ou penalidade,  a transformação da energia, bem ainda os chamados insumos básicos da economia (água, luz, transportes, gás, saneamento, combustíveis, etc). Isto frente a uma base salarial comprimidíssima (por não corrigida e amplamente recessiva, em oito anos de crescimento pífio).

 

 

 E ainda com este pai e esta mesma mãe, em se desdobrando para conseguir fontes de renda alternativa, ao longo de oito anos de crescimento médio de dois por cento...

 

 

 A tragédia de gerações a que me refiro foi a percepção infantil, que grassava ( talvez seja minha percepção não estatística ): a criança, dentro deste extrato social de vida econômica doída, sequer, pelo aperto, via presentes de aniversário. E como toda criança, inferia. Vendo o pai e a mãe tanto trabalhar, pensava. De que adiantava tanta honestidade e tanta dedicação dos pais, se a necessidade se apresentava maior, bem maior...

 

 

 Não sem razão daí vem, indubitável e precisamente como seqüela, o formidável abdicar dos pais, dentro dos vetores de participação e formação dos valores infantis, bem como a idéia da prática desvalorização gratuita e perversa, das estruturas e da carreira de ensino, à estas mesmas crianças...

 

 

 Isto porque a sanha privatizadora da transformação da energia e a firme desarticulação, por inibição das mãos e dos braços da força fiscalizatória do Estado diante dos excessos deste mesmo furor econômico-privatista, esta houve-se sucumbida ao claro receituário econômico-político, este sempre aviado de fora: Estado mínimo, sob quaisquer condições. Estado mínimo. Bandeira neoliberal, dentre as suas, a mais cara ...

 

 

 A formidável e atual crise de valores, a banalização da vida humana e a consagração da violência atuais têm clara leitura anterior no abandono do papel participativo dos pais e dos educadores. Pode-se datar daí de perto, suas origens e o seu devido vetor social.

 

 

 Não sem razão é impressionante o desacerto constatado pelo quadro oposicionista atual. Seja em clareza de idéias, seja em exposição clara da defesa do que se sustenta como bom ao país, na sua visão.

 

 

 Isto também pode ser explicado pelo fenômeno da ‘oposição sem agenda’. Sem agenda por que? Por que das últimas vezes dos seus embates, simplesmente sequer imaginou ou conceituou o binômio necessidade-aspiração de todo um povo, de cento e dez milhões de eleitores?

 

 

 Além de faltante o ideário, falta ou foi-lhe tirada a agenda. Não sabe o percurso de volta ao lar. A bússola e o mapa lhe restaram subtraídos. E pelo povo...

 

 

 Dito isto, consideradas as vertentes políticas e econômicas, eleitorais e partidárias, instala-se o contexto necessário de se inaugurar, e de prosseguir falando, dos oito anos de Lula.

 

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