Globo News - Documento - Sábado, 12/02/2011

 

Conheça da história de Dominguinhos contada por ele mesmo. Confira a homenagem aos 70 anos da maior referência do forró brasileiro.

 

 

 

''Sete décadas em oito baixos''

O Estado de S.Paulo - 12 de fevereiro de 2011

Lauro Lisboa Garcia

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Herdeiro direto de Luiz Gonzaga, Dominguinhos faz 70 anos e participa de uma festa em sua homenagem no Canto da Ema, reduto do forró em São Paulo, onde reina absoluto. O show conta com Elba Ramalho, sua fiel parceira "musical e espiritual" de longa data, Oswaldinho do Acordeon, Gabriel Levy, Cezinha, Mestrinho. "A turminha da gente", diz Dominguinhos, em animada conversa com o Estado em seu escritório no bairro do Paraíso. A ocasião também é propícia para o lançamento em DVD do documentário O Milagre de Santa Luzia, de Sérgio Roizenblit (leia abaixo). Trechos do filme, que tem Dominguinhos como condutor, serão exibidos durante a festa.

Dominguinhos 70 anos. Hoje, 20 h. Canto da Ema. Av Brig Faria Lima, 364 - 3813-4708, Pinheiros. R$ 30 (homem) e R$ 22 (mulher).

 

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Legitimado por Luiz Gonzaga (1912-1989) como seu real herdeiro musical, Dominguinhos completa 70 anos hoje, mais de 55 deles dedicados à sanfona e a toda a profunda musicalidade nordestina, a partir do legado do rei do baião. Depois de ter passado por um processo de desentupimento das veias, ele recuperou a saúde e tem muito o que comemorar.

 

Amanhã, [hoje, dom, 13/02/2011] participa de uma festa em sua homenagem no Canto da Ema, reduto do forró em São Paulo, onde reina absoluto. O show conta com Elba Ramalho, sua fiel parceira "musical e espiritual" de longa data, Oswaldinho do Acordeon, Gabriel Levy, Cezinha, Mestrinho. "A turminha da gente", diz Dominguinhos, em animada conversa com o Estado em seu escritório no bairro do Paraíso. A ocasião também é propícia para o lançamento em DVD do documentário O Milagre de Santa Luzia, de Sérgio Roizenblit (leia abaixo). Trechos do filme, que tem Dominguinhos como condutor, serão exibidos durante a festa.

Desde que passou a ter medo de avião (nem ele sabe o porquê), a vida de Dominguinhos é rodar por esse país, dirigindo o próprio carro, a exemplo do Mestre Lua. E lá vai ele para o São João no Nordeste em junho de novo. "Tenho também um CD e um DVD já prontos, mas falta patrocínio para lançar. O disco é instrumental e se chama Iluminado. Foi ideia de Zé Américo, que chamou Wagner Tiso e Gilson Peranzzetta para fazer arranjos. Tenho outro trabalho pronto, que é a gravação de um show no Teatro Fecap. Estou terminando outro disco em Fortaleza com Adelson Viana, já tem 20 músicas prontas. Tem coisas novas e regravações de músicas antigas minhas que ficaram esquecidas", conta.

Ele também acaba de ter um choro inédito gravado no disco que vai marcar a volta do grupo Os Incríveis, produzido por Sandro Haick. Há duas semanas, gravou uma participação no novo álbum de Ziggy Marley, tocando sanfona. Depois da maranhense Flávia Bittencourt ter realizado um disco todo com suas canções, Dominguinhos é tema de um projeto cinematográfico de Mariana Aydar, com participação de vários convidados.

Ele também tem uma biografia que pode sair este ano. "Clóvis Nunes disse que está quase terminando esse trabalho, que ele vem lutando há muito tempo para lançar. Ele me disse que é uma coisa muito linda, que entrevistou muita gente."

Dominguinhos tocou nos regionais da Rádio Nacional e da Rádio Tupi e no mais importante de todos, o Regional de Canhoto, substituindo ninguém menos do que Orlando Silveira, ao lado de Dino de 7 Cordas, com quem gravou os primeiros discos na gravadora Cantagalo, a partir de 1964. "Aprendi muita coisa com eles, paralelo ao trabalho com Luiz Gonzaga", lembra o músico. "Fiz minhas primeiras gravações acompanhando Gonzaga com 16 anos, por volta de 1957. Depois eu só vivia na casa dele. Viajei muito com ele por todos os cantos. Eu tocava tudo exatamente como ele gostava. Isso tudo me ajudou muito."

O surgimento da bossa nova, depois do auge do baião, "acabou com o acordeom". "Os acordeonistas tiveram de mudar de estilo, muitos passaram a tocar piano, só ficou mesmo quem era do ramo", lembra Dominguinhos. Ele se manteve firme em seu propósito, mas foi se tornar nacional e internacionalmente conhecido só depois que Gilberto Gil gravou Eu Só Quero Um Xodó (pareceria com Anastácia) em 1973. "Desde Luiz Gonzaga, esse foi o primeiro grande sucesso de uma música nordestina", lembra Gil.

Naquela época foi que ele chamou Dominguinhos para gravar com ele o álbum Refazenda. E Gal Costa o convidou para tocar no disco e no show Índia (1973). Para Dominguinhos esses são marcos do renascimento da sanfona.

Em Refazenda, Gil gravou duas parcerias com ele que são fundamentais. Lamento Sertanejo, a canção mais representativa e mais regravada de Dominguinhos, era um tema instrumental "mais ligeiro" que o pernambucano tinha gravado em 1964. Gil colocou letra e a transformou numa toada. No mesmo disco, registrou outra obra-prima, Tenho Sede. "Para mim é a melhor gravação de uma música minha", diz o sanfoneiro. "A outra é Contrato de Separação com Nana Caymmi."

Mas o Brasil também foi contemplado com outras belezas dele: Gostoso Demais, com Maria Bethânia, várias na voz de Elba Ramalho (como De Volta pro Aconchego), De Amor Eu Morrerei exclusiva de Gal Costa, e animados duetos com Luiz Gonzaga (Quando Chega o Verão), Gil (Abri a Porta) e Chico Buarque (Isso Aqui Tá Muito Bom), parceiro dele em Xote de Navegação. "Chico demorou 15 anos para colocar letra nessa música, ficou uma maravilha."

 

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"O Milagre de Santa Luzia" - Na estrada com ''o maior da sanfona''

 

 O Estado de S.Paulo - 12 de fevereiro de 2011

 

Milagre de StaLuzia

Direção Roteiro e Montagem: Sérgio Roizenblit

Numa viagem pelo Brasil, o filme percorre as mais diversas regiões onde a sanfona ganhou destaque e de onde surgiram seus maiores intérpretes. Entre eles Dominguinhos, que, considerado o maior sanfoneiro do país, conduz a viagem em sua caminhonete, já que não entra num avião há 30 anos.
Através da sanfona, gaita, acordeon ou pé de bode múltiplos universos culturais se apresentam, mostrando que esse é o instrumento mais conectado as emoções e tradições dos brasileiros.

 

O Milagre de Santa Luzia (Miração Filme, R$ 29,90) é um filme conduzido por Dominguinhos, mas é sobre Luiz Gonzaga. Afinal um é indissociável do outro, como o instrumento que lhes deu régua e compasso. "Não há nem sequer uma foto de Gonzaga no filme, no entanto ele paira sobre tudo", observa o diretor Sérgio Roizenblit. Ele tinha realizado antes outro documentário, O Brasil da Sanfona, projeto de Myriam Taubkin. "Esse é o desdobramento do Brasil da Sanfona. A diferença é que o outro era um filme sobre a sanfona com o Brasil de fundo. Este é o contrário."

 

No estilo road movie, o filme começa com Dominguinhos tocando sozinho o tema de Lamento Sertanejo caminhando lentamente por uma estrada vazia no sertão pernambucano. Rodando mais adiante, segue para Exu, terra de Gonzagão, que tem um tocante poema escrito e falado por Patativa do Assaré. Da secura do Nordeste, encontrando boiadeiros e sanfoneiros pelo caminho, o espectador é levado ao deslumbre das águas pantaneiras, depois ao Rio Grande do Sul, onde encontra Luiz Carlos Borges, Renato Borghetti e outros acrescentam capítulos importantes sobre a história da sanfona brasileira.

Dali a viagem segue para São Paulo e fecha o círculo de volta ao Nordeste, com a última gravação da vida de Sivuca e Dominguinhos contando sua própria história. "Acho Dominguinhos o maior nome vivo da sanfona no mundo", diz Roizenblit. "Ele é um monumento." E o Luiz Gonzaga, nascido no dia de Santa Luzia (13 de dezembro) "é o próprio milagre". "Sem ele não haveria nada", diz o diretor. Gil e Dominguinhos estão de acordo.

 

Dominguinhos encontra vaqueiros, no filme "O milagre de Sta Luzia"

Cena do documentário musical O milagre de Santa Luzia, em que Dominguinhos percorre o Brasil mostrando a vida dos sanfoneiros.

 

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''Musicalidade ampla de um improvisador''

O Estado de S.Paulo - 12 de fevereiro de 2011
Gilberto Gil, CANTOR E COMPOSITOR
"A composição de Dominguinhos é um desdobramento natural de uma musicalidade ampla, que se expressa o tempo todo na capacidade de improviso. Porque ele é um improvisador, que vai alinhavando todas as pequenas peças de Vitalino (célebre ceramista popular pernambucano), essas pequenas esculturas, pequenos trabalhos artesanais da cultura nordestina, um gosto imenso por aquela coisa fundamental da sanfona de oito baixos, do pé de bode, extraordinariamente atento a tudo aquilo que os sanfoneiros rudimentares do Nordeste fizeram.

 

"E vai adiante, alinhavando também as coisas ultradesenvolvidas, harmonicamente, melodicamente, em termos sinfônicos mesmo, de gente como Sivuca, Orlando Silveira, Chiquinho, acordeonistas extraordinários, que beberam em fontes sinfônicas, jazzísticas, etc. Dominguinhos é tudo isso, então a música dele, a composição dele quando se dá é em função disso. São resumos que ele faz desse arco imenso de música que passa por ele daquela forma tão espontânea, tão simples, tão natural, como se fosse fácil, mas não é. Para o músico comum aquilo só pode ser resultado de um empenho enorme, que a gente não percebe existir nele. Os xotes, as canções que ele fez com Nando Cordel, com Anastácia, são pequenos resumos que ele faz dessa ópera, que é o conjunto da musicalidade dele.

"Para essa nova composição, pedi que mandasse o título, o mote da letra, do tema. E ele me mandou Um Riacho, Um Caminho. Somos nós, dois imigrantes, egressos do mundo sertanejo, passando pelas cidades grandes, indo pro mundo. São percursos parecidos - ambos chegando agora à última fase da existência, à velhice. E ambos ligados em Luiz Gonzaga."



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Trailer de "O Milgare de Santa Luzia"
A sanfona ou acordeon são os protagonistas do filme em cartaz nos cinemas, O milagre de Santa Luzia, que conta a história e os ritmos do instrumento

Exibições: 417

Comentário de Laura Macedo em 17 fevereiro 2011 às 0:22
Gilberto, post completíssimo. Muito Bom.

Não vou deixar de comprar o DVD "O Milagre de Santa Luzia". Imperdível!
Ontem o programa Metrópolis foi quase todo dedicado a esta temática. Não sei se você assistiu.

Teve entrevista com o Sérgio Roizenblit, Oswaldinho do Acordeon, Marcelo Jeneci, Orquestra Sanfônica de São Paulo e muitas histórias (causos).

Por falar em histórias/causos vou relatar o que ocorreu comigo na minha infância (mais ou menos com 8 anos de idade).

A quase totalidade das minhas amigas do colégio estudavam piano o que motivou meu desejo de estudar também. Minha mãe, Dona Aracy, até que procurou me matricular, mas a exigência básica da professora é que tivéssemos um piano em casa, o que era impossível à época. O jeito foi sufocar a vontade.

Passados alguns meses meu pai, Moacyr, chegou em casa com uma enorme caixa de presente. Quando abri era uma sanfona branca enorme, de muitos baixos. E como criança não consegue disfarçar fui logo dizendo que não queria tocar sanfona de jeito nenhum, para decepção do meu pai que teve mesmo que devolvê-la.

Sabedor dessa história, Gregório não perde a oportunidade de fazer brincadeira comigo toda vez que assistimos shows que tem uma sanfona pelo meio: "...se não tivesse rejeitado a sanfona que seu pai lhe deu estaria hoje dando show..." :)))

Hoje sou uma admiradora da arte de tocar sanfona e fã dos bons sanfoneiros como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Oswaldinho, Toninho Ferragutti e tantos outros.

Beijos.

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