Os Meus Otto Anno (1)

Juó Bananére

Ó Chi sodades che io tegno
D'aquillo gustoso tempigno,
C'io stava o tempo intirigno
Brincando c'oas mulecada.
Che brutta insgugliambaçó,
Che troça, che bringadêra,
Imbaxo das bananêra,
Na sombra dus bambuzá.

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Che sbornia, che pagodêra,
Che pandiga che arrelía,
a genti sempre afazia
No largo d'Abaxo o Piques. [Brincando de piparote] (2)
Passava os dia i as notte
Brincando di scondi-scondi,
I atrepáno nus bondi,
Bulino c'os conduttore.

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Deitava sempre di notte,
I alivantava cidigno.
uguali d'un passarigno,
Allegro i cuntento da vita.
Bibia un caffé ligêro,
Pigava a penna i o tintêro
Iva curréno p'ra scuóla.

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Na scuóla io non ligava!
nunga prestava tençó,
Né nunga sapia a liçó.
O professore, furioso,
C'oa vadiação ch'io faceva,
Mi dava discompostura;
Ma io era garadura
i non ligava p'ra elli.

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Inveiz di afazê a liçó,
Passava a aula intirigna,
Fazéno i giogáno boligna
Ingoppa a gabeza dos ôtro.
O professore gridava,
Mi dava un puxó de oreglio,
I mi butava di gioeglio
inzima d'un grão di milio.

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Di tardi xigava in gaza,
Comia come un danato,
Puxava u rabbo du gatto,
Giudiava du gaxorigno,
Bulia co'a guzignêra,
Brigava c'oa migna ermá;
I migna mái p'rá cabá,
Mi dava una brutta sova.

.

Na rua, na visinhança,
Io era mesmo un castigo!
Ninguê puteava commigo!
Bulia con chi passava,
Quebrava tuttas as vidraça,
I giunto co Bascualino
Rubava nus bottechino,
A aranxia pera du Rio.

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Viva amuntado nus muro,
Trepado nas larangiêra;
I sempre ista bringadéra
Cabava n'un brutta tombo.
Mas io éra incorrigive,
I logo nu otro dia,
Ricominciava a relia,
Gaia traveis di novo!

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A migna gaza vivia
Xiingna di genti, assi!!...
Che iva dá parti di mi.
Sembrava c'un gabinetto
Di quexa i regramaçó.
Meo pái, pobre goitado,
Vivia atrapagliado
P'ra si liverá dos quexozo.

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I assi di relia in relia,
Passê tutta infança migna,
A migna infança intirigna.
Che tempo mais gotuba, [Che tempo mais de brincá] (2)
Che brutta insgugliambaçó,
Che troça, che bringadêra,
Imbaxo das bananêra,
Na sombra dus bambuzá!

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(2) versão adotada na interpretação do ator Juca de Oliveira.
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Fonte:
(1) Programa Devaneio - Rádio Band News FM
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Juó Bananére
U inginiero chi scribía nu giurnale
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Alexandre Ribeiro Marcondes Machado - ou Juó Bananére - foi o tradutor da belle époque paulistana. Segundo Otto Maria Carpeaux, o poeta Juó Bananére " foi uma voz, talvez a primeira, da democracia paulista".
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" O atrazimo duo povolo. Io non gusto delli, prontto!
(...) I disposa tuttos munno vê a dize che o secolo XX é o secolo do prugresso.
Prugresso una ova!!! " Juó Bananére, 1914
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" A artograffia muderna é una maniera de scrivê, chi a gentil scrive uguali come dice. Per isempio: - si a genti dice Capitó, scrive kapitó; si si dice Alengaro, si scrive Lenkaro; si si dice dice, non si dice dice, ma si dice ditche."

Juó Bananére

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Juó Bananére é o pseudônimo literário do engenheiro, poeta e jornalista paulista Alexandre Ribeiro Marcondes Machado (1892 -1933). Nascido em Pindamonhangaba, morou em Araraquara e Campinas durante a infância e estudou em São Paulo, na Faculdade Politécnica da USP. Ou seja, um grande conhecedor do interior de São Paulo de sua época. Como engenheiro deixou obra de arquitetura imponente, mas pouco original, segundo o pesquisador Mario Carelli. Como jornalista, escreveu artigos para o Estado de São Paulo, e crônicas irreverentes para O Pirralho, o tablóide modernista de Oswald de Andrade. Como poeta criou versos paródicos da produção de poetas laureados e famosos tais como Olavo Bilac, Gonçalves Dias e Luís de Camões. Também atazanou a vida de políticos e poderosos de sua época, como o então prefeito Washington Luis e o marechal Hermes da Fonseca.

Juó Bananére é um espalhafatoso personagem ítalo-paulistano, morador do ‘Abax’o Pigues’, como era conhecido o bairro do Bexiga e suas redondezas no início do século passado, e que possui um falar todo particular, numa mistura de português e italiano feita com rara maestria, que parodiava a fala inculta da primeira leva de imigrantes italianos que ocuparam os bairros do Brás, Barra Funda, Bexiga e Bom Retiro, em São Paulo.

Como bem sinaliza Cristiana Fonseca (2), a principal fonte de inspiração de Alexandre Machado estava nas ruas, e era para essas mesmas ruas de uma São Paulo pré-modernista que retornava a obra pronta, causando um irrefutável sucesso de época, tendo em vista as repercussões em textos de outros autores e relatos de pesquisadores

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(2) Cristina Fonseca é autora do livro " Juó Bananére - O abuso em blague" que traz uma reprodução da primeira edição do livro " La Divina Increnca" do poeta, publicado em 1915, e um estudo crítico.

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