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Outras Páginas - Atraso, irresponsabilidade e jeitinho

Atraso, irresponsabilidade do poder público e da iniciativa privada brasileiros, tudo somado com a sensação de corrupção generalizada (“jeitinho”), são a síntese do terrível incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), na madrugada de domingo, 27 de janeiro de 2013. Morreram, então, 231 pessoas, a maioria jovens universitários. O número de feridos, na quinta-feira, 31, somava 138. O cenário de erros é bem resumido no  artigo de Eliane Cantanhêde, “Brincando com fogo”, publicado na Folha de S. Paulo (dia 29).

 

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Tamanha tragédia, claro, trará alguma consequência, pode (deve) até provocar avanços na prevenção de incêndios – o terceiro maior do mundo em boates. Mas a sensação, de novo, é de que nada ou quase nada vai ocorrer, em consequência do desastre, com o passar dos dias. É o resultado da bipolaridade da sociedade (não só no Brasil) entre euforia-otimismo e pessimismo. É, principalmente, na minha opinião, o resultado do recorrente descaso com os problemas que nos cercam no dia a dia.

No artigo “A psicologia da tragédia”, Hélio Schwartsman (Folha de S. Paulo, dia 29 de janeiro), escreve que o roteiro é conhecido e o fenômeno é universal, citando estudos de “Paul Slovic, talvez a maior autoridade do mundo em psicologia do risco, e outra sumidade na área, Cass Sunstein”.

“Após uma tragédia como a de Santa Maria, a vontade de agir é irrefreável. Nas próximas semanas, Estados e municípios atualizarão suas normas de segurança anti-incêndio e apertarão a fiscalização sobre todo tipo de estabelecimento. Trata-se, é claro, de um efeito transitório. Com o tempo, o ímpeto vigilante arrefece e as coisas voltam mais ou menos ao que eram antes”.

NOSSOS CÉREBROS

 

O colunista considera que o problema, no fundo, é a arquitetura de nossos cérebros. “Quando lidamos com riscos que não fazem parte de nosso dia a dia, ou agimos como se eles não existissem ou como se fossem uma sentença de morte. O mais realista meio-termo desaparece”.

Informações inverossímeis de autoridades, de donos da boate e de integrantes da banda que teria provocado o incêndio forram o noticiário, enquanto a tristeza aniquila famílias e amigos dos mortos e feridos.

O que se lê, por exemplo, dia 31 de janeiro, é que o Rio de Janeiro Rio tem 49 espaços culturais sem alvará.”Entre os que estão em situação irregular, 36 são geridos pela prefeitura”, segundo O Globo. “São Paulo tem 300 casas noturnas em funcionamento sem alvará definitivo” (O Estado de S. Paulo).”Fiscalização em BH não tem data para começar.Cinco dias depois do incêndio no Sul, prefeitura nem sequer conhece a situação das casas noturnas” (Estado de Minas).

CAMINHOS TORTUOSOS E DESABAFO

 

Em São Paulo, há 30 mil pedidos de alvará parados na prefeitura, 600 dos quais de boates – problema herdado por Fernando Haddad, que assumiu dia 1º de janeiro.”Tirar alvará é sorte grande. Precisa de caminhos tortuosos para obter um, e as pessoas não podem ficar com o negócio fechado”, disse, naFolha de S. Paulo, Percival Maricato, da Abras (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes).

Chamou-me a atenção – e de muitos certamente – o desabafo do poeta gaúcho Fabrício Carpinejar, poeta gaúcho, “A maior tragédia de nossas vidas” (O Estado de S. Paulo, 28). Dois versos:  “(…) /Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu. /As palavras perderam o sentido”.

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SUPERAÇÃO

 

É marca do homem, também, o poder de superação de dificuldades em várias situações. O jornalista e escritor Ruy Castro revela seu exemplo excepcional no artigo “Há 25 anos”, publicado na Folha de S. Paulo.

 

Leia:

“Foi num dia 25 de janeiro, como hoje. Enquanto Alice tirava o carro, abri a geladeira e, tremendo muito, servi-me de quatro copos de vodca -pura, gelada, do freezer. Copos, não doses. Cheios, cada qual tomado de um gole, e que, como sempre, desceram como água. O tremor nas mãos não traía nervosismo. Tremia porque acabara de acordar e estava sem beber havia horas. Ainda não descobrira como beber dormindo.

Acordado, bebia um mínimo de dois litros de vodca por dia, só em casa -o consumo na rua era difícil de calcular. Uma vez por semana, a empregada botava os cadáveres para fora, à espera do garrafeiro. Os vizinhos deviam achar que os moradores daquela casa bebiam muito. Se soubessem que um único morador engolia aquilo tudo, não acreditariam.

Dali a pouco, estávamos na rodovia Raposo Tavares, rumo a Cotia, a 31 km de São Paulo, onde eu então morava. Sabia que, no lugar para onde Alice me levava -uma clínica para dependentes químicos-, não haveria bebida. Os quatro copos teriam de bastar até o fim do dia. Mas, e o dia seguinte? E os 30 dias seguintes? Não tinha ideia, nem me preocupava.

Afinal, não vivia dizendo que “bebia porque gostava” e “seria capaz de parar quando quisesse”?

Os primeiros cinco dias foram de horror -o organismo reagindo ao corte súbito do suprimento com tremores pelo corpo inteiro, agitação, insônia, diarreia, taquicardia, suores, possibilidade de delírio. Nas palestras, as vozes dos terapeutas soavam muito longe e o que eles diziam, um mistério. Os colegas de internação, fantasmas sem rosto. Mas, aos poucos, o horror passou e, em menos de duas semanas, foi sendo substituído por uma sensação quase insuportável de lucidez, vigor físico e vontade de viver -como nunca antes. Até hoje.

Enfim, foi hoje, há 25 anos. Mas hoje é apenas mais um dia”.

OTIMISMO

 

Há, claro, razões para otimismo – e com ele podemos avançar e ter dias melhores. “Neste ano, um contingente de 15 mil brasileiros, que saiu para estudar por meio do “Ciência sem Fronteiras” começa retornar ao país, trazendo na bagagem inteligência e, em decorrência dela, riqueza. No caminho inverso, mais 24 mil bolsistas partirão em 2013 para estudar no exterior pelo programa, em centros como o renomado MIT, em um admirável ciclo virtuoso”, segundo a revista Veja (data de capa, 23 de janeiro). O “Ciência sem Fronteiras” é o programa “menina-dos-olhos” da presidente Dilma Rousseff, acrescento.

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José Aparecido Miguel, sócio da Mais Comunicação, www.maiscom.com, é jornalista, editor e consultor em comunicação.

Twitter: @JoseApMiguel

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Comentário de Lafaiete de Souza Spínola em 31 janeiro 2013 às 23:03

O foco está nesses centros de diversão, porém não se esqueçam que a irresponsabilidade é geral.

Não se esqueçam dos teatros e grandes centros comerciais. Poderia citar alguns, contudo o problema é amplo.

E a fiscalização é complexa, caso seja para valer, pois não pode, apenas, ser visual.

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