Possivelmente dentro de mais alguns dias estarei atingindo a “melhor idade”, de carteirinha, estatuto e tudo o mais.

Nos últimos dez anos da minha vida, faço compras em uma central de abastecimento cinco dias por semana e parte delas são realizadas junto aos mesmos comerciantes, com os quais mantive contatos e conversas durante todo esse período, onde falamos de futebol, política e até da vida alheia.

Surpreendentemente alguns ainda não tiveram a curiosidade de perguntar o meu nome e me tratam ultimamente por “pai”, - quem sabe, "vô", no próximo mês - depois que os cabelos que restaram foram adquirindo aquela “unanimidade” em torno do branco, em substituição ao “coroa”, ou mesmo “tio”, de um passado recente.

Pior que dentre estes, alguns, pela claridade compulsória da cabeleira, deveriam me tratar por “primo”, ou, talvez, “mano”, desde que a idade mental, mesmo não acompanhando a biológica, já tivesse atingido pelo menos a adolescência e chegassem à conclusão de que chamando as pessoas pelo nome a comunicação se tornaria mais fácil, além de cordial e agradável.

Naquele “pai”, estão embutidos alguns conceitos e adjetivos pejorativos comumente empregados em relação ao idoso, onde só começando pela letra “B” existem um monte: barbeiro, broxado, babaca, bobo, além dos "subentendidos", como baitola e boiola e por aí vai. Diante desse “pai”, um “meu véi” aqui acolá não deixaria de ser um prêmio.

Pintar o cabelo de preto ainda não me passou pela cabeça branca, já que contrariar a realidade nunca me pareceu uma atitude interessante e assim, aqueles que criaram o Estatuto do Idoso, negligenciaram ao não incluir um item que permitisse pessoas idosas colocarem películas mais escuras em seus veículos, como forma de amenizar o “efeito buzina” no trânsito, por parte daqueles que se consideram verdadeiros “artistas” ao volante.

Nas redes sociais e fóruns de discussões existentes na Internet, o mais sensato para quem já passou da metade, ali pelos cinquenta, é não mostrar a cara, pois os mais jovens geralmente atrelam a decadência física à intelectual, esquecendo que juventude nem sempre é sinônimo de inteligência e que, a cada dia, quem desejar terá oportunidade de aprender um pouco mais, bastando girar a cabeça sobre os ombros.

O idoso não precisa de compaixão e sim de respeito com as suas deficiências físicas e mentais adquiridas com os trancos da vida. Os jovens deveriam acordar para a realidade que é a vida no Planeta Terra, que se encerra com a morte corporal, de maneira prematura ou depois de atingirem a velhice.

Em todo caso, quando um sujeito me chama de “pai”, imediatamente vem àquela pergunta que não quer calar: de onde conheço a mãe dele?

Velho sou eu. Você é apenas um projeto, se ainda não chegou lá.

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