País tem espaço para produção sustentável

DAYANA AQUINO
Da Redação - ADV


O Brasil tem espaço para expandir o cultivo de soja e demais culturas para biocombustíveis sem que ocorra competição com alimentos ou desmatamento para abertura de novas áreas agrícolas. Para isso, no entanto, é necessária uma força política para incentivar a agricultura em pastagens degradadas, transformando-as em áreas agricultáveis. A afirmação é do coordenador do Programa de Agricultura e Meio Ambiente da WWF Brasil, Cássio Franco Moreira.

O dado consta de estudo encomendado pela Allianz Seguros à WWF, intitulado “O impacto do mercado mundial de biocombustíveis na expansão da Agricultura Brasileira e suas conseqüências para as mudanças climáticas”. O levantamento aponta que do total de 200 milhões de hectares de pastagem, 30% estão degradadas.

A conta resulta em um potencial incremento de 70 milhões de hectares na área agrícola do Brasil, somente com a recuperação destas áreas. Ou seja, segundo Moreira, respeitando o Código Florestal e evitando o desmatamento, a expansão da agricultura à esse patamar não derrubará uma só árvore, tampouco ameaçará o bioma amazônico, além de reduzir a pressão sobre o Cerrado. O desmatamento é o principal causador do efeito estufa no Brasil.

A estimativa é um pouco mais modesta do que a apresentada por alguns pesquisadores, porém, não tira do Brasil a vantagem de ser um dos poucos países com área disponível para expansão agrícola sustentável.

O levantamento considerou outras culturas, como a cana de açúcar e o sorgo, além de demais culturas perenes. Foram traçados diferentes cenários, com base na demanda internacional pelos produtos, e o conseqüente impacto ambiental.

Soja e cana

De acordo com Moreira, a cultura de soja é mais apta a abertura de novas fronteiras agrícolas, isso por conta do seu preço, considerado baixo. É necessária uma produção em grande escala para remunerar o plantio, daí a necessidade em ampliar a área cultivada. Essa ampliação é muitas vezes a causa de desmatamentos.

Já a da cana-de-açúcar só é cultivada se houver investimentos de usinas em um raio máximo de 60 quilômetros de distância. Acima disto, não há rentabilidade suficiente para justificar o cultivo e esmagamento do produto. Por este motivo, a cana-de-açúcar tende a crescer nas regiões mais desenvolvidas e onde, efetivamente, já há um mercado consumidor maduro.

Num cenário de crescimento da demanda interna e externa por soja, a WWF estima, para 2009, um crescimento de área plantada para 8,2 milhões de hectares, para 2020, o número saltaria para 10,4 milhões de hectares. Na mesma base de avaliação, a soja ficaria com uma área plantada de 25,2 milhões de hectares em 2009 e 39,1 milhões de hectares em 2020.

Segurança Alimentar

Especificamente para a soja, Moreira ressalta que a demanda pelo grão é mensurada com base na proteína gerada, ou seja, o farelo de soja e não o óleo. Nos cenários em que a demanda pelo óleo é maior do que o farelo, o estudo considera outras culturas consideradas bons substitutos, como o pinhão-manso, para suprir a necessidade do mercado. Desta forma, a produção de biocombustível não ameaçaria a segurança alimentar. Ele acredita que há muita informação desencontrada em relação ao tema.

Isso ocorre porque a cultura da soja não foi desenvolvida para a extração do óleo, e sim da proteína, utilizada na alimentação animal. O óleo é um co-produto, que em grande disponibilidade, é usado na produção de biodiesel.

Ao contrario da avaliação de alguns pesquisadores, Moreira aponta que a soja só deixará de ser protagonista da matriz do biodiesel quando houver uma alteração na demanda por farelo de outra cultura. Atualmente o grão corresponde por mais de 70% do energético produzido no país.

Governo e mercado

Moreira aponta que é importante a ação do governo em incentivar a recuperação dessas áreas, mas o mercado também tem importante papel em exigir produtos sustentáveis. Esse é um dos obstáculos, que poderiam ser solucionados por meio de certificações, por exemplo.

Outro ponto levantado por Moreira é a implementação de uma política de pagamento por serviços ambientais. A floresta em pé tem uma importante função nas cadeias produtivas, seja na manutenção do ciclo hidrológico ou do sistema climático. Remunerar os proprietários dessas terras em troca de sua conservação, poderia ser uma das soluções para reduzir o desmatamento.

Já para Karen Suassuna, especialista Sênior do Programa de Mudanças Climáticas e Energia da WWF, há a necessidade de uma conversão maior entre as políticas agrícolas, de energia e transporte. Segundo ela, as políticas hoje prevêem apenas a substituição de um tipo de energético por outro, e não a redução ou otimização do uso.

O estudo foi apresentado durante o Fórum Internacional de Seguros para Jornalistas, promovido pela Allianz Seguradora, em São Paulo.

Veja o estudo na íntegra

Exibições: 57

Comentário de Rogério do Nascimento em 21 julho 2009 às 19:47
Cara DAYANA AQUINO,
Considero este estudo inovador, do ponto de vista econômico, para o Brasil. No entanto, com em tantos outros realizados na área tem seus pontos a serem mitigados. Por exemplo, nestas tais áreas de pastagens inativas foi realizado um um EIA/RIMA para verificar os impactos que a agricultura traria para a área em si e sua circunvizinhança? Pois, o cultivo da soja traz junto consigo os pesticidas, herbicidas e tantos outros fatores de poluição ambiental.
Desta forma, mesmo sendo a favor do aumento das áreas cultiváveis, porém, acredito que haja necessidade de que sejam sustentáveis do ponto de vista sócio-ambiental; além do econômico.
Comentário de n almeida em 25 julho 2009 às 4:33
Olá,

Postei em É Possível Alimentar a Humanidade no Século XXI? uma rápida resenha de uma palestra de Jorge Riechmann, professor de filosofia moral e política da Universidade Autonôma de Madrid, pertinente ao tema aqui abordado. Lá você encontrará acesso ao conteúdo da palestra.

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço