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O AUTOR

Filho de Vincenzo Leoncavallo, juiz-presidente do tribunal de Potenza, e de Virginia D'Aurio, filha do pintor e escultor Raffaele D'Aurio, Ruggero Leoncavallo nasceu em Nápoles em 23 de abril de 1857 e estudou no Conservatório San Pietro a Majella. Depois de alguns anos de estudo, e ineficazes tentativas de obter a produção de suas óperas, ele viu o enorme sucesso de Mascagni em Cavalleria Rusticana, em 1890, e decidiu também ingressar no verismo (movimento literário, das artes plásticas e da ópera, de caráter realista, que surgiu no final séc. XIX, na Itália, em oposição ao romantismo) compondo sua obra-prima Pagliacci. Segundo Leoncavallo, o enredo deste trabalho teve origem na vida real: o julgamento de um assassinato que seu pai havia presidido.
A estreia de Pagliacci foi realizada em Milão em 1892 com estrondoso sucesso, e o autor foi chamado ao palco 12 vezes para ser aplaudido. Hoje, é o único trabalho de Leoncavallo no repertório padrão de ópera.
A sua mais famosa ária Vesti la giubba, foi gravada por Enrico Caruso e tornou-se o primeiro registro sonoro na história musical a vender um milhão de cópias.

Ruggero Leoncavallo
morreu em Montecatini, Toscânia, em 19 agosto de 1919.

Aproveitando a oportunidade, e agradecendo o altruísmo do proprietário do canal 45antar, do YouTube, e por ser uma ópera relativamente pequena (apenas dois atos), pela primeira vez postamos um espetáculo completo)

(Devido à demora do carregamento dos vídeos do YouTube, e dependendo da velocidade de sua banda larga, sugerimos que você bote para carregar logo todos os vídeos e os vá assistindo, à medida que estejam prontos)


Nedda - Inva Mula.
Canio - Roberto Alagna.
Tonio - Seng-Hyoun Ko.
Silvio - Stéphane Degout.
Beppe - Florian Laconi.

Orchestre National de France.
Direction musicale: Georges Prêtre.
Mise en scène: Jean-Claude Auvray.
Decoration Bernard Arnould.
Costumes: Rosalie Varda.
Lumières: Laurent Castaingt.
Agosto, 2009


1) A ópera começa com um prólogo que funciona como um quadro explicativo e simbólico (à semelhança do que faziam alguns teatros itinerantes na Renascença), isolado do corpo da ópera. As cortinas permanecem fechadas.
A orquestra dá-lhe início com um extravagante e majestoso tema (entregue às cordas e madeiras), que sugere a desregrada existência dos saltimbancos. O ímpeto inicial dilui-se em galhofeira pontuação nas madeiras e as sonoridades se contraem em sinistro acorde. Emerge, então, velado e triste, o tema do Palhaço (que será ouvido em dimensão mais dramática na ária “Vesti la giubba”), dado pela trompa. Segue-se apaixonado tema nos violinos, ilustrando o romance ilícito de Nedda e Silvio. E, assim, o autor delineia as três principais situações dramáticas que se entrechocam no decorrer do espetáculo.
Dolorosa passagem nos violoncelos antecede o retorno do tema inicial e as sonoridades tornam-se novamente agitadas e nervosas, levando a explosivo clímax. Flautas e clarinetas insinuam rapidamente o tema jocoso, enquanto Tonio aparece no palco, introduzindo-se pela fresta da cortina. Ele vem explicar ao público o enredo do espetáculo.

1) Sinfonia-Prologo



2) Três horas de uma tarde de sol. É 15 de agosto (o ano se situa entre 1865 e 1870), dia da festa da Assunção. À entrada da pequena aldeia de Montalto, na Calábria, seus habitantes se reúnem em trajes festivos para saudar a companhia de atores ambulantes que ali armara acampamento. “Hoje – Grande Representação - Palhaço”, lê-se no tosco cartaz em frente ao improvisado teatro.
Tonio, o disforme integrante da trupe, observa com desdém a alegre multidão, e afasta-se, indo deitar à sombra do palco. Por fim, chegam os comediantes Nedda e Canio conclamam o povo a comparecer ao espetáculo., .
A multidão os cerca aos gritos: “Viva Palhaço! Viva o príncipe dos Palhaços!” Canio agradece, simulando cortesia, e tirando o barrete com gesto cômico pede a palavra, em meio ao riso geral. Anuncia pomposamente um grande espetáculo à noite, às 23 horas (na época, na Calábria, prevalecia ainda a contagem medieval do chamado tempo italiano cuja primeira hora iniciava com o pôr-do-sol. Essa forma de contar as horas possuía a vantagem de mostrar facilmente quantas horas ainda restavam sem a necessidade do uso de luz artificial, de forma que 23 horas equivalia a 19 horas de hoje). Todos prometem comparecer.
Tonio acerca-se da carroça. Ao tentar ajudar Nedda a descer, recebe uma bofetada de Canio. Todos riem, confundindo o ciúme do Palhaço com uma amostra do que será a comédia.
Um camponês convida os atores para beber. Canio e Peppe aceitam, mas Tonio alega ter que escovar o burrinho. “Cuidado, Palhaço”, insinua alguém jocosamente, “ele quer ficar só com Nedda para poder cortejá-la.” Canio não gosta: “É melhor não brincar assim comigo, meu caro. No palco, o Palhaço é indulgente com a esposa que o trai sob o aplauso do público. Mas o teatro e a vida não são a mesma coisa”. Um jogo desses é melhor não jogá-lo!
Há uma ponta de ameaça no ar e todos, inclusive Nedda, ficam constrangidos. Mas é o próprio Canio quem se encarrega de contornar a situação: beija Nedda afetuosamente e parte com todos em direção à aldeia, enquanto os sinos anunciam a missa.


2) "Un grande spettacolo"



3) Ficando a sós, Nedda medita sobre as palavras de Canio. Suspeitaria ele de que ela tem realmente um amante? Não, não é possível! Ninguém conhece seu segredo. Uma revoada de pássaros, entretanto, distrai seu pensamento e recorda-lhe uma canção que ouvira de sua mãe quando menina. Nedda põe-se a cantar.
Tonio aproxima-se e elogia o canto de Nedda. Tenta confessar-lhe seu amor, mas é repelido com ironias e, por insistir, a chibatadas. Prometendo vingança, Tonio, ferido, afasta-se.


3) "Qual fiamma"



4) Nesse momento aparece o amante de Nedda: é Silvio, um jovem camponês. Ela o adverte da imprudência de aparecer à luz do dia, mas o rapaz garante-lhe que não há perigo: Canio está longe, bebendo na cidade. E, diante dos receios de Nedda, ele sugere que ambos fujam nessa mesma noite, para longe.


4) Dueto de amor




5) Enquanto isso, Tonio, que ouvira toda a conversa, se havia dirigido para a vila, a fim de prevenir Canio. Quando este chega, ainda consegue ouvir a despedida de Nedda: “Até à noite e serei tua para sempre”. Sai correndo atrás de Silvio, mas este já se distanciara. De volta, Canio quer saber o nome do fugitivo. Chega a ameaçar Nedda com o punhal. Peppe o contém, lembrando que o povo está saindo da missa e se dirige para o teatro: a hora do espetáculo se a próxima. Todos se afastam discretamente, deixando Canio sozinho com seu desespero. Reprimido em seu furor, mas sem ter aplacado a intensa dor que o consome, Canio remói a miserável condição a que está sujeito nesse momento. Um acorde dolorido nos violoncelos antecipa seu sofrido lamento , que se desenvolve magistraalmente entre um recitativo, declamação e pungentes frases melódicas. Esse trecho, o mais famoso de toda a ópera, termina com expressivo comentário da orquestra ao desespero de Canio, que sai de cena cabisbaixo e soluçando de dor. E assim se encerra o primeiro ato.


5) "Vesti la giubba"




6) O Segundo ato é iniciado com um Intermezzo, que funciona emocionalmente como prognóstico dos trágicos acontecimentos que se seguirão. Tem início nas cordas, com um tema grave e ameaçador. As madeiras respondem com frases reticentes e por duas vezes o tema se repete. A seguir, os violinos repetem o cantabile ouvido no Prólogo( Um nido de memorie) . A intensidade sonora vai aumentando com a adesão de outros instrumentos de corda. Por fim, retorna calorosamente o último tema do Prólogo (E vuoi, piutosto) e a peça se encerra em tristes acentos nos violoncelos e violinos.
Chega a hora da encenação. Peppe com a corneta e Tonio com o tambor atraem os espectadores que chegam de todas as partes.A multidão toma seus lugares e mostra impaciência pelo começo da representação. De
repente, as cortinas se abrem.
No palco, Nedda, como Colombina, anda nervosamente: ela aguarda Taddeo (Tonio) seu serviçal, que tarda a chegar. Da janela, ouvem-se acordes de uma guitarra. É Arlequim (Peppe), o amante de Colombina, que vem
fazer-lhe uma serenata.

6) Intermezzo-Atto 2 Scena1




7) Logo após chega Taddeo, trazendo as compras. Ele presta contas e, não resistindo à beleza da patroa, confessa-lhe sua admiração. Repete-se no palco, mas de forma jocosa, as investidas amorosas de Taddeo e o repúdio de Nedda. Irônico, Taddeo insinua que Nedda é honesta e pura, pura como a neve. As declarações de Taddeo são interrompidas pela entrada de Arlequim, que o derruba com um pontapé (todos riem) e depois se abraça à amante. Ele planeja com ela uma fuga pra essa noite.


7) "È dessa!"




8) Canio (representando o Palhaço) entra em cena tristemente. Ouve a mulher dizendo a Arlequim as mesmas palavras que disse ao amante verdadeiro: “Até à noite e serei tua para sempre”. Invocando coragem, Canio prossegue a comédia: acusa Colombina de ter estado ali com outro homem: há dois lugares à mesa.
“Que idiotice!”, responde Colombina. “Você está embriagado?” “Sim”, responde Canio, encarando-a. Na realidade, desde que a surpreendera com o rival, ele está transtornado. Assim, sem que o público perceba, a comédia começa a assumir caráter de realidade.
Nedda, preocupada, insiste no roteiro da comédia e indica Taddeo (que se escondera) como o homem que a acompanhava. Tonio (Taddeo) aparece e pede – com sarcasmo exagerado - que Canio acredite na mulher. “Ela é pura! E seus lábios fiéis detestam mentir!”.
O público ri, mas o grito de ódio de Canio emudece todos: ele esqueceu a personagem e agora representa sua própria tragédia. Volta-se para mulher e exige o nome do amante. Nedda tenta desesperadamente o retorno à
comédia e chama-o de Palhaço. “Não. Não sou Palhaço!”, protesta Canio enquanto o público comenta o realismo da cena.
Desanimado, Canio deixa-se tombar numa cadeira, chorando sua amargura e lembrando o quanto fez por sua mulher no passado. A platéia aplaude entusiasmada o que supõe ser uma excelente atuação. Nedda pede ao marido que a deixe partir, já que é indigna de seu amor. “Não”, responde Canio. Ela deve ficar e dizer o nome de seu amante. A jovem insiste em retomar a comédia e aponta Arlequim como tal. Canio levanta-se furioso e exige: “O nome, ou tua vida!”
Os espectadores estão confusos, já não é comédia aquilo a que assistem. Peppe tenta intervir, mas é contido pelo vingativo Tonio. Silvio quer se aproximar do palco, mas a platéia, que se levanta assustada, o impede.
Tomando de uma faca, Canio, cego de ódio, golpeia Nedda. Agonizando, ela grita por Silvio, que avança tentando salvá-la. “Ah, é você!”, grita Canio, voltando-se para o rapaz e enterra-lhe o punhal no coração.
Silvio cai fulminado junto à Nedda. E enquanto os espectadores ficam atônitos com a tragédia, Canio, atordoado, deixa cair a arma, e exclama: “A comédia terminou!”


8) Atto II finale


Exibições: 465

Comentário de Simone-Rosa Tupinambá em 30 novembro 2010 às 12:16
Que bela e oportuna lembrança, Oscar, quando arte e realidade andam se associando sem distinção. Parece que o teatro se impõe à ópera.
Adorei o prólogo, linda a voz do barítono.
Um beijo e obrigada.
Comentário de Simone-Rosa Tupinambá em 30 novembro 2010 às 12:37
Por falar em comédia, uma que não termina,escrevo depois para você sobre o Barbeiro, que assisti na quinta-feira passada no Municipal, da Cia Brasileira de Ópera. Gostei muito.
Comentário de Henrique Marques Porto em 30 novembro 2010 às 22:04
Oscar,
E então você chegou ao corno mais famoso da ópera...pobre Canio.
Leoncavallo não foi o criador do verismo, mas é dele a autoria do que ficou conhecido como o "manifesto" do movimento: o Prólogo do I Pagliacci -"o autor é um homem, deve escrever para os homens e se inspírar na realidade". É uma ópera que estará sempre atual.
O verismo mudou inteiramente a forma de cantar e as técnicas do canto lírico. Os cantores, antes acostumados à mezza voce ou aos floreios oitocentescos, agora tinham que, além de cantar, declamar, gritar, gargalhar e chorar.
Enrico Caruso é a voz do verismo. Caruso nasceu com o verismo e foi o primeiro a entender a necessidade de mudar a forma de cantar. Teve que inventar um novo estilo e nova uma técnica que permitissem cantar o novo repertório sem prejudicar o repertório clássico e romântico. Mas a forma de cantar do verismo de Mascagni e Leoncavallo acabaram por alterar também a forma como se cantava Donizzeti e Bellini. Por isso, Caruso é uma voz histórica.
O "Vesti la Giubba" é dele. Os tenores que vieram depois, não conseguiram cantar melhor ou num estilo diferente. Caruso praticamente esgotou as possibilidades interpretativas dessa ária. Ele não interpretava apenas o Canio, mas rigorosamenete vivia a desatinada dor de corno do Palhaço traído por Colombina, a ponto de circularem especulações maliciosas a respeito de tão extremada identificação com o personagem. Vivendo o Canio, deixava de ser ele próprio ou revivia experiências pessoais, descompensando até o choro verdadeiro, com lágrimas incontidas que nada tinham de fantasia. Era sucesso sempre, inclusive aqui no Rio, em 1903.
Gostei dessa montagem. A começar pela presença no pódio de George Prêtre. Alagna é bom tenor, tem espírito dramático, mas a meu juizo voz insuficiente para encarar as exigências dessa partitura. Seu esforço ficou visível no Vesti la giubba. Só não gostei mesmo do final, com aquele tempão todo de tímpano soando na expectativa da frase final. Criou um suspense desnecessário. Fica-se esperando um "La comedia é finita" chocante que não acontece.
Depois de Caruso, o maior Canio talvez tenha sido o de Mario Del Monaco. Não apenas pela beleza e vigor da voz, que sai a plenos pulmões, mas pelo perfeito senso dramático e teatral de Del Monaco. Felizmente, existem registros de suas interpretaçôes, como essa de 1961, em Tóquio. No elenco estavam Gabriella Tucci e Aldo Protti.

Vesti La Giubba - Mario Del Monaco

"No, pagliaccio non son" - Del Monaco, Gabriella Tucci e Aldo Protti
http://www.youtube.com/watch?v=k6kEjU1Td40
(O autor da postagem no YouTube bloqueou o código para incoporar. Baixei e peguei outro código, mas não sei se vai funcionar).
Por fim, um filmete de 1904 mostrando o Caruso no I Pagliacci.
Enrico Caruso - "Vesti la giubba"

abraços
Henrique Marques Porto
Comentário de C. de Castro em 19 março 2013 às 1:09

Muito agradecida por esta oportunidade de conhecer este autor maravilhoso. Tem tao poucos lugares para se ver tal beleza.

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