PAPÉIS CO-DEPENDENTES Este artigo foi publicado na Revista Anônimos - Ano 1 - Nº 3 - 2008

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PAPÉIS CO-DEPENDENTES
Este artigo foi publicado na Revista Anônimos - Ano 1 - Nº 3 - 2008 e faz uma referência ao meu trabalho e a um artigo por mim escrito.

Foi devidamente autorizado pela Revista a divulgá-lo por email.

Torço para que possa ajudar a muitos!
Grande abraço e uma suave e serena semana para todos.

Marília
Um filme de diversos gêneros. Ação, drama, emoção e fantasia se misturam para criar as cenas da vida real. Os papéis são definidos, mas intercalam-se entre os atores. Seria este o roteiro da história vivida pelos co-dependentes?

É comum, as pessoas assumirem vários papéis de acordo com o momento e a necessidade que se apresenta e que vivem.

Com o processo de recuperação de toda a família, esses papéis tornam-se conhecidos e “desvendados” por todos.

Uma vivência ímpar. Um turbilhão de emoções que se alternam. Um vulcão de sentimentos prestes a explodir.
Ninguém está a salvo desta conflituosa situação, um filme onde personagens desempenham seus papéis. Mas, quando essa miscelânea de sentimentos faz parte de alguém que convive com um dependente químico, o filme ganha um nome: co-dependência. No roteiro, uma sucessão de sensações que alteram o estado emocional dos personagens. Eles se escondem, mas revelam-se na roda vida da doença ativa.

Dra. Marilia Teixeira Martins é psicóloga especializada em dependência química. Em seu livro “Universo adicto”, baseado nas constatações de sua trajetória profissional, a especialista reúne os papéis vivenciados pelos familiares.
Em sua definição para co-dependência alerta para a situação em que as pessoas que tem uma proximidade maior com os dependentes químicos, sejam familiares ou amigos, correm um sério risco de também se tornarem adoecidos com o processo ativo da doença, mesmo sem fazer uso de substâncias químicas que alterem o seu humor.

Segundo a psicóloga, como sintomas, os co-dependentes costumam adotar e desempenhar alguns papéis, que às vezes, sem terem conhecimento reforçam o uso da droga pelo dependente, como também justificam, para si mesmos, a própria imutabilidade diante da situação e da própria estrutura familiar doentia.
Nem sempre conscientes e conhecidos, cada papel assumido por seus membros, traz uma expressão ou sentimentos manifestos ou aparentes, sentimentos internos ou latentes, uma compensação e um provável futuro.

O FACILITADOR

Sem perceber, o familiar pode agir como facilitador e reforçador da dependência, na medida em que ajuda o próprio dependente a “resolver” todas as desordens e conseqüências que a doença acarreta.
São inúmeros os exemplos desta situação. Existem casos, nos quais o alcoolista ou drogadicto quebra objetos em casa sob o efeito da droga e quando volta a si, encontra tudo limpo, arrumado e até mesmo com utensílios novos já providenciados pelo facilitador. Às vezes, depois de passar noites fora de casa, recebe do facilitador ao chegar, uma superalimentação para compensar os dias em que não se cuidou e até mesmo um tratamento adequado para a ressaca. Em outras ocasiões, o facilitador se torna o responsável por avisar no trabalho que o dependente químico não vai, ou vai chegar tarde, inventando uma desculpa qualquer, tornando-se assim cúmplice da doença e do doente.

Paga os bares ou assume dívidas contraídas pelo dependente com o uso da droga -o que às vezes é necessário em prol de sua segurança - emprestam seu carro, mesmo sabendo que o dependente não vai cuidar dele de maneira responsável. E alguns chegam a receber em casa os amigos de “seu dependente” - que se encontram na “ativa” - , com todas as “honrarias etílicas a que têm direito”.

“Tenho inúmeras vezes escutado de alguns facilitadores, que o seu familiar não é um dependente, porque bebe ou se droga em casa, como se isso o isentasse de ter a doença. Ou então que não é alcoólatra porque só bebe uísque e não cachaça. Ou ainda, que só usa maconha, uma droga natural”, relata Dra. Marilia.

Segundo a especialista, normalmente, as pessoas que adotam o papel de facilitadores, manifestam de forma muito evidente sua frustração. Pensam e acreditam que “ajudam” o dependente a “melhorar” por “amor”, mas experimentam e sentem internamente ou de forma latente uma raiva muito grande de si mesmas por não acertarem nesta “ajuda”.
Não percebem que acabam por facilitar e reforçar o uso de drogas, enquanto privam o dependente de assumir as conseqüências que a droga traz em sua vida, seja dentro de casa, no trabalho ou nos bares.

Se o facilitador perpetuar seu papel será eternamente o mártir e doente.

O BOMBEIRO E O HERÓI

Outro papel que também se destaca dentro de um processo ativo da doença é o de bombeiro.
Como o próprio nome sugere, é aquele que “apaga o fogo”, ou seja, está sempre pronto para ajudar nos momentos mais difíceis, constrangedores e de crise, nos quais, normalmente, existe um acidente que o próprio dependente causou.

Sempre mais forte e racional, busca soluções rápidas para amenizar os problemas enfrentados pela família e pelo próprio dependente.

O bombeiro normalmente se compensa com a ilusão de controle, mas acaba se frustrando pelas repetidas vezes em que “ajuda” e não resolve definitivamente a doença.
Ao perceber que não consegue resolver definitivamente o “fogo” ou a “cura” da doença, opta então pelo afastamento, quando é substituído por outro bombeiro.

Já o herói, manifesta competência durante todo o tempo do processo ativo da doença, mas internamente sente-se culpado por não conseguir também resolver o problema da dependência.

Segundo a Dra. Marilia, quem assume esse papel, na maioria das vezes, é o pai ou um irmão mais velho, buscando compensar-se com o perfeccionismo em algum aspecto de sua vida.

Assim como o bombeiro, o herói também tende a se afastar e tornar-se um trabalhador compulsivo ou um membro ausente.

O MASCOTE E A CRIANÇA PERDIDA

O mascote, papel normalmente adotado pela criança, o filho ou irmão menor, ente muito medo da família se dissolver. Por isso, através de uma suposta hiperatividade, às vezes, se torna o centro das atenções como forma de compensação de sua frustração.

Junto com ele, está a criança perdida, papel geralmente adotado por outra criança ou adolescente dentro do núcleo familiar. O sentimento manifesto é a insegurança. Seu comportamento é tímido, mas o sentimento interno e latente é o de solidão.

O mascote e a criança perdida, tem como prováveis futuros, caso não entrem em recuperação, a imaturidade,a inatividade e o isolamento, podendo também tornarem-se dependentes químicos.

O DETETIVE

“Esse papel, normalmente, não é adotado por algum membro da família, mas por alguém externo a ela. Pode ser o porteiro do prédio, uma vizinha, a faxineira, a empregada, enfim, alguém que se torna o elo entre o dependente e o familiar deste”, explica Dra. Marilia.

Como um detetive , ele tem todas as informações dos passos do dependente e do movimento familiar em relação a ele. Agindo com ansiedade e com a ilusão de que está ajudando, carrega também uma frustração muito grande.

Ele tende a afastar-se desse papel e desta família em decorrência das inúmeras frustrações vivenciadas por não conseguir ajudar de forma efetiva.
Dra. Marilia explica que tais papéis podem ser adotados por um ou mais membros da família-núcleo ou por pessoas próximas. “É comum, as pessoas assumirem vários papéis de acordo com o momento e a necessidade que se apresenta e que vivem.

Essa análise, entretanto, não traz a obrigatoriedade de ser fielmente reproduzida em todas as famílias de dependentes químicos. Existem variações. Este é um relato de minhas observações e constatações baseadas na experiência clínica”, afirma.
MAS, DE ONDE VEM OS TAIS PERSONAGENS?
Por que os que convivem com a adicção tornam-se vulneráveis ao desempenho de diferentes papéis?

É comum que a doença ativa e todas as conseqüências que ela traz, se encarregue de esconder alguns sintomas doentios dentro da estrutura familiar, que podem existir de forma independente a ela. Enquanto a dependência química for focada como único problema da família, seus membros são privados de entrar em contato consigo mesmos e com suas próprias dificuldades. Vivem e respiram a doença, esquecendo-se de sua própria vida.

“Algumas famílias que chegam em busca de ajuda, demonstram uma maior fragilidade emocional do que outras. Assim contribuem de forma efetiva para o desenvolvimento e instalação de uma dependência emocional entre seus membros. São famílias que buscam e esperam que um agente externo seja o responsável pela resolução de problemas e dificuldades internas. Acreditam que é outra pessoa, e não elas, a responsável direta por sua felicidade, passando então a buscá-la fora e não dentro de si. Querem soluções rápidas e fáceis para qualquer dificuldade. E em se tratando da dependência química, nada “melhor” do que a droga para ocupar esse espaço e fazer esse papel. Não é raro fazerem uso constante de medicamentos, pois querem alivio imediato para as suas dores físicas ou emocionais, esperando soluções mágicas e fantasiosas”, explica a especialista.

Para complementar a situação, ter um dependente químico em casa é uma forma de desviar o foco do problema e da dificuldade familiar, colocando-o, sem perceber, como o “bode expiatório” de toda essa dinâmica.
MUDANDO A CENA
Para a maioria dos co-dependentes , a vivência desses papéis, não é consciente. Eles tem muita dificuldade em detectar e nomear os seus sentimentos, além de negarem grande parte dos problemas relacionados à dependência química.
Mas, para encontrarem a própria recuperação, é necessário a identificação dos papéis.

Segundo a Dra. Marilia, com o processo de recuperação de toda a família, esses papéis tornam-se conhecidos e desvendados por todos. A tendência passa a ser assumir atitudes mais positivas e maduras em relação a si mesmos, em relação aos dependentes e à própria doença. Tais atitudes virão, efetivamente, ajudar no processo de recuperação de todos.
OS TRATAMENTOS MAIS INDICADOS
Os tratamentos mais indicados, segundo a psicóloga, são a psicoterapia individual e a psicoterapia familiar com abordagem sistêmica e, paralelamente, a freqüência às reuniões de grupos de mútua ajuda.

Caso haja algum outro diagnóstico associado à dependência química, as co-morbidades, o dependente químico deve fazer o tratamento psiquiátrico adequado com uso ou não de medicação apropriada ao seu caso, de acordo com o critério médico.

Os principais pontos abordados na recuperação da família conduzida pela especialista são o desligamento emocional e a prática da assertividade.

“Agindo dessa forma, os familiares acabam por adotar outra prática bem mais saudável de ser relacionarem, na qual entendem que para enfrentar dificuldades e problemas, é necessário partir de dentro para fora, com esforço, determinação e empenho e, ainda, que aconteça de forma mais natural e autêntica. Incorporam um jeito mais funcional de viver, acreditando que cada um pode crescer dentro de suas próprias escolhas, permitindo-lhes encarar ou assumir as conseqüências em relação às mesmas, colhidas como forma de aprendizado”, revela.

Neste processo, o individuo passa a aceitar a escolha de cada um, sem querer interferir ou controlar os resultados. Perceber e constatar sua impotência diante do outro, posicionando-se, acima de tudo com humildade e parando de apontar ou procurar culpados por sua infelicidade ou por problemas que fazem parte de sua própria caminhada é fundamental.

Cuidar do próprio tratamento, crescimento e recuperação, importando-se e apoiando quem se ama, sem criar expectativas e desejos para a vida do outro é o caminho da recuperação.


“É como dizem, de forma muito feliz e sábia, os grupos de mútua ajuda: “É viver e deixar
“um dia de cada vez” e “só por hoje”. “É temer menos e amar mais”, finaliza a especialista.

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