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O que dizer de um livro que conta uma história da destruição de livros? Enlouqueceu o autor, poderia ser dito... mas não. Ele não enlouqueceu!
Disse “uma” história, porque, na verdade, esta não precisa ser,
necessariamente “a” História, sobre esse assunto. Debate longo, sinuoso,
que, aqui, não vai levar ninguém a lugar nenhum. O que interessa é
despertar o interesse pela leitura de um livro que parece desejar a
morte da leitura, denunciando os processos – às vezes grosseiros, às
vezes sofisticados – de destruição dos livros. Assunto polêmico, no
máximo; instigante, no mínimo. O autor passou 12 anos estudando,
viajando, pesquisando. Fez um trabalho de paleontólogo. Ele é
venezuelano. Seu nome: Fernando Báez.

Recentemente teve seu livro, História universal da destruição dos livros: das tábuas sumérias à guerra do Iraque. (Tradução de Léo Schlafman. Rio de Janeiro: Edirouro, 2006, 440 p.), publicado no Brasil. O livro
começa contando a História dos livros. "Os primeiros livros da
humanidade apareceram na ignota e semi-árida região da Suméria, no
mítico Oriente Médio e eram feitos de argila”. Esta observação sustenta a
ousadia do autor: contar uma História da destruição desse objeto tão
discutido, num arco cronológico que começa com as tábuas sumérias e
chega à guerra no Iraque. Livros ou tábuas desapareceram por causa da
frágil estrutura que tinham, como consequência de fenômenos naturais e,
também, da "mão violenta do homem." Algumas dessas tábuas datam dos anos
4.100 a.C. ou 3.300 a.C. Não há como se saber com exatidão a idade
desses primeiros livros. Mas o que se sabe, com certeza, é que eles são
muito antigos. Podem, inclusive, ser mais antigos ainda, pois as
pesquisas que desenterraram esses documentos não podem ser consideradas
definitivas. Como, aliás, nada no mundo pode ser considerado definitivo.

O livro de Báez já seria interessante apenas pelo fato de ser um estudo sobre a "destruição de livros em massa", ou o "extermínio de livros",
como ele, às vezes, define o ato de destruir livros. Além do mais, dos
12 anos de pesquisa, das citações de autores da antiguidade, de contar
uma História do surgimento dos livros, Fernando Báez consegue fazer do
seu livro uma leitura agradável para qualquer um. E esta expressão,
aqui, não vai carregada de sentido pejorativo. Ao contrário, celebra a
abertura de horizonte de expectativas da leitura, como deveria sempre
ser. Em vez disso, ao que parece, os autores desejam sempre escrever
livros que sejam, ainda que aparentemente, alvo de estudiosos. Que bom
que não é esse o caso aqui!

Nesta obra, Báez divide com o leitor um pouco de suas próprias experiências, como quando ele entrou em uma livraria em Madri, a fim de procurar um livro de Miguel de Unamuno.
Nessa livraria, o autor não encontrou o que queria, mas se deparou com
outro livro: uma antologia de poemas de Federico Garcia Lorca, que
estava em frangalhos: o livro praticamente virava pó na medida em que
era manuseado. Nas suas últimas folhas, uma nota oficial, que dizia
"Livro proibido. Astúrias, El Infierno". Báez procurou o dono da
livraria e perguntou o valor daquele exemplar. Ouviu o seguinte:
"Leve-o, não sei quem trouxe esse livro de comunista". O impacto daquele
acontecimento – ter encontrado um livro tão importante, pelo seu
conteúdo proibido, pelas circunstâncias de sua publicação e pelas
consequências dela (Garcia Lorca, para quem não sabe, foi assassinado em
1936, durante a Guerra Civil Espanhola) –, motivou o venezuelano a
iniciar seus estudos sobre a destruição de livros.

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