Paulo César Pinheiro - Histórias das minhas Canções (V)

 

 

Fui ver, a convite do meu companheiro de todas as horas, irmão de poesia, amigo leal, Hermínio Bello de Carvalho, a gravação do disco “Som Pixinguinha”.

 

 

 

Era o ano de 1971. O dia era o último do trabalho, citada a minha visita no texto de contracapa feito por Hermínio, do qual transcrevo o trecho: “... No último dia chega o poeta Paulo César Pinheiro: o abraço dos três foi aquele buá. O Patriarca que fornece o som mais do que livre e liberto diz que está cansado, mas puxa um riso frouxo e satisfeito ouvindo as provas. ‘Em Paris, Pixinguinha é Deus’ – diz o poeta”.

 

 

 

Conheci aquele que seria, pra mim, modelo de dignidade e caráter da raça humana. Aquele de quem Vinicius diria ser o mais íntegro que ele conhecera. Alfredo da Rocha Viana, o Pizindin do samba enredo. Hermínio com sua generosidade, me apresentou ao velho como o poeta certo pra fazer a letra da música que ele mais gostava de todas (e não foram poucas) as que havia composto: “Ingênuo”, Pixinguinha aceitou, imediatamente, a sugestão como ordem, e nos tornamos amigos. Ele com setenta e eu com 21 anos.

 

 

 

Morando em São Cristovão ainda, próximo do centro da cidade, fui algumas vezes ao Bar Gouveia, na rua Sete de Setembro, em seu ponto de fé, atrás de um bom papo com o chorão. E eram conversas realmente de um bom prosador. Lucidez e sabedoria permeavam suas palavras. Olhos de bondade e coração de menino. A partir do terceiro ou quarto uísque ele falava com as mãos também. Quem olhava de longe via um mamulengo, um polichinelo, em cordéis guiados por mãos invisíveis. Saí, todas as vezes, embevecido com sua filosofia, extasiado com sua inteligência, emocionado com sua sensibilidade. Tinha sempre uma história bonita pra contar. Nunca o vi falando mal de ninguém, nem depreciando a música de quem quer que fosse. Havia mesmo um carinho e um estímulo para quem o procurava.

 

 

 

 

Todos queriam cumprimentar o mestre, tocá-lo, abraçá-lo, e a todos ele atendia com paciência e atenção. Alguns sentavam-se à sua mesa, também, para ouvi-lo. Jamais foi deseducado ou deselegante com sua enorme legião de fãs. Para um, uma vez, que, não por maldade, mas por cuidados com sua saúde, lhe dissera que a bebida lhe fazia mal, Pixinga recrutou com uma frase que ecoa ainda hoje em minha mente:

 

- Meu filho, bebida só faz mal para quem não tem caráter.

 

Cantei pra ele os dois primeiros versos do choro;

 

 

Eu fui ingênuo quando acreditei no amor

Mas pelo menos jamais me entreguei à dor...

 

 

E o velho abriu um sorriso de prazer e aprovação, ansioso pelo resto.

 

 

 

Dias depois me trouxe duas fitas com  mais de quarenta composições entre choros, valsas, toadas, modinhas e sambas. Senti aquele gesto como a confiança depositada em mim pra uma parceria que parecia promissora.

 

 

 

Infelizmente nada disso ele veria pronto. Num dia de carnaval, pouco depois desse papo, recebi, desfilando na Banda de Ipanema, a notícia que, há duas quadras dali, na Igreja da Praça Nossa Senhora da Paz, falecera o gênio brasileiro. Foi a primeira vez que chorei copiosamente pela morte de alguém.

 

 

 

Fiz algumas dessas músicas que ganhei de herança, mas não teve muita graça sem a sua presença. O que eu queria mesmo, de verdade, era ter visto de novo, em sua boca, aquele sorriso esboçado quando ouviu de meus lábios a letra de “Ingênuo”.

Ingênuo” (Pixinguinha/Paulo César Pinheiro) # Márcia. Album: Eduardo Gudim/Márcia/Paulo César Pinheiro - O importante é que a nossa emoção sobreviva, 1975.

Eu fui ingênuo quando acreditei no amor
Mas pelo menos jamais me entreguei à dor
Chorei o meu choro primeiro
Eu chorei por inteiro

Pra não mais chorar
E o meu coração permaneceu sereno
Expulsando o veneno

Pelo meu olhar

Eu procurei me manter Como Deus mandou
Sem me vingar que a vingança não tem valor
E depois perdoar a quem erra
É ser perdoado na terra
Sem ter que pedir perdão no céu

Eu não quis resolver

Eu não quis recusar
Mas do amor em ruína

Uma força termina

Por nos dominar
E depois proteger

Dos abismos que a vida traçar
Quando o tempo vira o único mal
E a solidão começa a ser fatal

Eu não quis refletir, não
Eu não quis recuar, não
Eu não quis reprimir, não
Eu não quis recear

Porque contra o bem nada fiz
E eu só quero algum dia

Ser feliz como eu sou infeliz

Dedico este post ao amigo Luciano Hortencio que, ao presentear-me com o vídeo destacado acima, motivou-me a prosseguir com a Série: Paulo César Pinheiro – Histórias das minhas canções.

 

FONTES

 

1- Livro

 

 

 

 

 

 

 

- Histórias das minhas Canções – Paulo César Pinheiro. – São Paulo: Editora Leya, 2010.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2- Disco - Álbum Eduardo Gudim/Márcia/Paulo César Pinheiro - O importante é que a nossa emoção sobreviva, 1975.

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