Paulo César Pinheiro - Histórias das minhas Canções (II)

 

 

 

Em 1969, com vinte anos, passei a ser procurado por todos os intérpretes. Bagagem eu já tinha e muita. E era um atrás do outro nas vozes mais importantes do momento. Elis, acima de todas, se destacava. E o que ia pra boca de Elis arrebentava. Tocava mais que telefone de distrito, como se dizia em São Cristovão. Criamos aí, eu e Elis, uma bela e profunda amizade de irmãos, que se estenderia até sua trágica morte.

 

 

 

 

Houve nesse ano, um transtorno emocional de proporções imensas na vida de Baden, que foi sua separação de Teresa, a mulher que ele amava. Praticamente me mudei pra sua casa do Itanhangá, fazendo-lhe companhia dia e noite. O violão foi encostado e empoeirou. Ali dentro só se via uísque e tristeza. Foi um tempo brabíssimo. E, no meio disso tudo, eu fazendo meu primeiro ano de Direito na Faculdade Brasileira, no Campo de Santana. Imaginem o aluno que eu era...

 

 

 

 

 

Pairava sobre aquele casarão da Barra uma sombria nuvem negra de solidão. Só se bebia e se falava de amor e abandono. Foram meses assim. O dinheiro se acabando, porque ele não tinha mais ânimo pra trabalho, as contas penduradas se avolumando e os credores batendo na porta.

 

 

 

Numa santa madrugada, cochilando no sofá, escutei um vago som de cordas naquele silêncio sepulcral. Achei que era um sonho. O som cresceu e acordei sobressaltado. A figura de Baden, à meia-luz de um abajur da sala, crescia no branco da parede. O reflexo iluminava na lente dos óculos os olhos enormes e perdidos. E os dedos voltaram a se mexer nas primas. Os bordões vibravam fortes no bojo. Foi assim até amanhecer. Era uma canção que tinha acabado de nascer.

 

 

 

No fim daquela tarde a letra ficou pronta. O tema estava muito na cara pra eu não perceber. Era o violão vadio voltando à vida.

 

 

 

 

VIOLÃO VADIO” (Baden Powell / Paulo César Pinheiro) # Elizeth Cardoso, 1986.

 

 

 

 

 

 

Novamente juntos eu e o violão
Vagando devagar, por vagar
Cantando uma canção

Qualquer só por cantar
Mercê da solidão
Vadiando em vão por aí
Nós vamos seguir
Outra rua, outro bar

Outro amigo, outra mão
Qualquer companheira

Qualquer direção
Até chegar em qualquer lugar
Qualquer que seja a morte a esperar
Jamais meu violão

Me abandonará
Se eu sofri foi inútil viver
Já mais nada me resta saber
Quero ouvir meu violão gemer
Até me serenizar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FONTES

1- Livro

- Histórias das minhas Canções – Paulo César Pinheiro. – São Paulo: Editora Leya, 2010.

2- Disco - Álbum Luz e Esplendor, de Elizeth Cardoso (Site #radinha)

Exibições: 118

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