Paulo César Pinheiro - Histórias das minhas Canções (III)

 

 

 

Aos poucos Baden retornava ao mundo. Saía do limbo. Se reanimava e botava os dedos no lugar. A casa respirava outra vez. As janelas, que viviam cerradas e imersas na penumbra, reabriam-se lentamente. O violão, porém, ainda era melancólico, mas já com balanço.

 

 

 

Um samba fechou definitivamente o ciclo de dor. Talvez tenha sido o mais doido dos sambas feitos por nós, mas, sem falsa modéstia, um dos mais lindos, com certeza, de todos os tempos, na antologia do cancioneiro popular. Eu, já cansado da solidariedade a tanto sofrimento, sentia falta dos meus amigos, da minha cama, do meu bairro. A rua me chamava, o botequim, a gandaia. E a faculdade, é claro.

 

 

 

Depois de pronta, cantamos até a rouquidão. Baden foi dormir e eu fiquei na sala escrevendo. Quando o dia azulou, arrematei o último verso, batizei o rebento e assinei. Deixei a folha de papel sobre a mesa de centro, debaixo do cinzeiro, e parti.

 

 

 

Peguei o lotação pra Tijuca, de lá o ônibus Saens Peña – Ilha, e no Largo da Cancela saltei feliz. Estava no meu reduto, no meu reino, no meu mundo. Tirei o dia pro sono atrasado, numa paz que eu já sabia que nem existia mais. Depois de beijar meus pais e antes de apagar,  ainda cantei mais uma vez “Refém da Solidão”. Que samba bonito!...

 

 

 

REFÉM DA SOLIDÃO” (Baden Powell/Paulo César Pinheiro) # Baden /Paulo César Pinheiro, no álbum “Os cantores da Lapinha”, 1970.

 

 

 

 

 

 

Quem

Da solidão fez seu bem
Vai terminar seu refém
E a vida para também
Não vai nem vem
Vira uma certa paz
Que não faz nem desfaz
Tornando as coisas banais
E o ser humano incapaz

De prosseguir
Sem ter pra onde ir
Infelizmente eu nada fiz
Não fui feliz nem infeliz
Eu fui somente um aprendiz
Daquilo que eu não quis
Aprendiz de morrer
Mas pra aprender a morrer
Foi necessário viver
E eu vivi
Mas nunca descobri
Se essa vida existe
Ou essa gente é que insiste
Em dizer que é triste ou que é feliz
Vendo a vida passar
E essa vida é uma atriz
Que corta o bem na raiz
E faz do mal cicatriz
Vai ver até

Que essa vida é morte
E a morte é
A vida que se quer

 

 

 

FONTES

1- Livro

- Histórias das minhas Canções – Paulo César Pinheiro. – São Paulo: Editora Leya, 2010.

 

 

2- Disco - Álbum "As músicas de Baden Powell e Paulo César Pinheiro - Os cantores da Lapinha". (Site #radinha).

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