Paulo César Pinheiro - Histórias das minhas Canções (IV)

 

 

Depois da fase da depressão avassaladora o sentimento de Baden foi se transformando. À medida que levantava a cabeça vinha o desejo do revide, a ânsia da forra, a vontade da vingança, mas num troco irônico, numa resposta zombateira, numa represaria gozadora, numa compensação bem humorada pelo pranto derramado. Sem violência – com a luva de pelica -, como ele dizia.

 

 

 

E os sambas foram se sucedendo com o aval do Ronaldo Bôscoli, maior fá daquela nova safra, e o gogó de Elis botando no ar a série que Ronaldo batizou como “Trator sobre a Margarida”. O povo ligava o rádio e só dava Elis no Brasil inteiro com “Falei e disse”, “Vou deitar e rolar (quaquaraquaquá) e “Aviso aos navegantes”. Tornou-se grande vendedora de discos nessa época, e a parceria consolidou-se tendo-a como porta voz. A imagem mais clara que tenho desse tempo é a dela, no último mês da primeira gravidez, de sorriso aberto num show do Canecão, balançando a barriga com o nosso samba. Parecia que o João Marcelo ia nascer naquele palco.

 

 

 

E outra recordação que guardo foi de Cuba, quando lá estive em 1982, no Festival de Varadero. Acordei às três da manhã com uma zoada na praia, próxima à janela do meu quarto de hotel.  Era uma espécie de luau que faziam. E um som que eu conhecia bem me chamou a atenção. Me vesti e fui na direção dele. Uma turma grande de latinos cantava, acompanhados por violão e rum. Me aproximei para ver se era verdade. Se eu não estava sonhando. Os caras cantavam em espanhol o “Quaquaraquaquá”. Sentei , sem me identificar, e fiquei curtindo. Me peguei refletindo depois que estranha é a Música”. Feita é nossa. Caída na boca do mundo, não nos pertence mais. Ninguém ali sabia que o autor estava presente. E continuaram sem saber.

 

 

 

Transcrevo, então, esse que foi marcado como símbolo da gargalhada rasgada dessa sequência de sarcasmo.

Vou deitar e rolar / Quaquaraquaquá” (Paulo César Pinheiro/Baden Powell) # Elis Regina.

Não venha querer se consolar

Que agora não dá mais pé nem nunca mais vai dar

Também quem mandou se levantar

Quem levantou pra sair perde o lugar

E agora cadê teu novo amor

Cadê que ele nunca funcionou

Cadê que ele nada resolveu

Quaquaraquaquá, quem riu

Quaquaraquaquá, fui eu

(Que ainda sou mais eu)

 

 

Você já entrou na de voltar

Agora fica na tua que é melhor ficar

Porque vai ser fogo me aturar

Quem cai na chuva só tem que se molhar

 

 

E agora cadê, cadê você

Cadê que eu já na vejo mais, cadê

Pois é, quem te viu e quem te vê

Quaquaraquaquá, quem riu

Quaquaraquaquá, fui eu

 

 

Todo mundo se admira

Da mancada que a madamezinha deu

Que deu no pira

Mas ficou sem nada ter de seu

Ela não quis levar fé

Na virada da maré

Mas que malandro sou eu pra ficar

Dando colher de chá

Se eu não tiver colher

Vou deitar e rolar

O vento que venta aqui

É o mesmo que venta lá

E volta pro mandingueiro

A mandinga de quem mandingar

As músicas de Baden Powell e Paulo César Pinheiro - Os cantores da Lapinha (LP 1970). Ouça abaixo na íntegra.

 

FONTES

 

1- Livro

 

 

 

 

 

 

 

- Histórias das minhas Canções – Paulo César Pinheiro. – São Paulo: Editora Leya, 2010.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2- Disco - Álbum As músicas de Baden Powell e Paulo César Pinheiro - Os cantores da Lapinha (Site #radinha)

 

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