PCB PPS e a Cultura Brasileira 

autor Ivan Alves Filho

 

 "O PCB não se tornou o maior partido do Ocidente, nem mesmo do Brasil. Mas quem contar a história de nosso povo e seus heróis tem que falar dele. Ou estará mentindo”.
(Ferreira Gullar, durante os 60 anos do PCB)
 

 


Em 1922, a sociedade brasileira vivia uma extraordinária efervescência cultural e política, materializada pela fundação do Partido Comunista, pela inauguração da Semana de Arte Moderna, pelo Primeiro Congresso Feminista e, também, pela explosão da Revolta do Forte de Copacabana. Um ano de cortar o fôlego. O Partido Comunista surge então com uma dupla característica: é um partido que se quer profundamente brasileiro, com a proposta de se entranhar nas lutas nacionais, e, ao mesmo tempo, internacionalista, solidário dos povos em luta. Além do que, é um partido que ambiciona governar para os setores menos favorecidos da população, com a classe operária à frente. E tudo isso é muito novo, para os padrões do país e para a época. Se obteve ou não êxito em sua função, trata-se de outro problema.

De toda forma, com vocação para lutar pela democracia, conforme se verificaria com o correr do tempo, o PCB daria uma contribuição importante à vida nacional. Senão vejamos. Foi o primeiro partido a defender, já em 1923, a implantação de uma reforma agrária entre nós (exigência essa que guarda ainda uma certa atualidade, ao menos no plano social). E é também o primeiro a propor uma política relativamente ampla de alianças, conforme o atesta a formação do Bloco Operário Camponês (BOC, 1928) e da própria Aliança Nacional Libertadora (ANL, 1935). Isso, para não aludirmos à criação, em 1967, da Frente Ampla, para combater a ditadura militar. Mais: a partir da chamada Declaração de Março de 1958, o PCB elege a democracia como o espaço para a superação da ordem vigente no Brasil. Foi com essa firme determinação que a maioria do Partido optou por derrotar politicamente – e não derrubar pela força das armas – a ditadura político-militar instalada no país desde o dia 1 de abril de 1964. Não deu outra, a História lhe daria razão, apesar de o partido ter cometido inúmeros equívocos ao longo de sua trajetória.

Um dos herdeiros da tradição pecebista, no que ela possuía de positivo e também de negativo, o Partido Popular Socialista (PPS) dá continuidade histórica a algumas das propostas desse Partido. Mas, de certa forma, sua entrada na cena brasileira também representa uma ruptura com determinadas práticas e mesmo concepções do PCB. Pois o PPS compreendeu que a sociedade brasileira é plural, complexa, e que no caminho político nacional não há espaço para um modelo autoritário de partido único. E tampouco para exclusões de qualquer natureza. Nesse sentido, o Partido se quer continuidade, mas também mudança. Talvez até mais mudança do que continuidade, no entender de alguns.

A cultura sempre aproximou o PCB-PPS da população brasileira. Nos tempos mais agudos da clandestinidade, ela chegou a ser, praticamente, a única forma de o Partido estabelecer um vínculo permanente com a sociedade organizada. Os comunistas não estão muito longe de ter uma concepção de cultura como um estar no mundo, uma relação social entre indivíduos. Para os comunistas, a cultura é uma ferramenta de transformação do mundo real. E o homem, ator da sua própria história. Isso, em teoria. Mas a prática pecebista não apresenta nenhum corte entre o mundo real e a visão que se tem desse esmo mundo. Prática e teoria como que se fundiram, nesse caso.

Como explicar o engajamento político dos intelectuais e artistas brasileiros no Partido Comunista? Provavelmente não existe resposta única a essa pergunta. Certamente há por parte dos intelectuais uma postura generosa diante das mazelas sociais que afligem o país e um desejo de superá-las. Não há como negar tampouco que alguns deles enxergavam no socialismo uma possibilidade de realizar suas expectativas de trabalho, seus anseios profissionais, pelo menos de forma mais efetiva (apesar de, como observou Paulo César Nascimento, muitos desses intelectuais e artistas já serem homens consagrados quando se aproximaram do PCB). Outras figuras, ainda, se sentiam atraídas pela possibilidade de contribuir para a formação da identidade brasileira. Ou talvez tudo isso junto, quem sabe.
É interessante observar que a política cultural do Partido extrapola o próprio âmbito do Partido, ou seja, nada tinha de estreita, voltada para dentro. Em alguns momentos, é verdade, houve, alguns atritos sérios com a intelectualidade, mas o Partido compreenderia que era preciso respeitar a liberdade de criação dos artistas e intelectuais, sobretudo após os ventos libertários trazidos pela Declaração de Março de 1958, na esteira do desmoronamento do sistema stalinista. Daí sua proposta cultural pleitear, quase sempre, amplos setores da sociedade. A política cultural era encarada certos períodos da trajetória partidária como uma política para a sociedade e não para o Partido. E mais: era preparada ou estabelecida, sobretudo a partir de 1958, é sempre bom lembrar, pelos próprios criadores de cultura. Só assim o PCB (e, agora, o PPS, de certa maneira) pôde começar a se fazer necessário na cena cultural brasileira. O Partido nunca se apoderou da máquina do Estado, ou esteve no Poder, é bem verdade; mas talvez tenha construído algo melhor. Vale dizer, uma sólida relação com a chamada sociedade civil, que ele buscava oxigenar com suas ideias e propostas.
Não seria exagero afirmar que o Partido contribui para estruturar a cultura brasileira contemporânea, por intermédio de instrumentos como jornais, revistas e grupos de cinema. Uma parte da identidade cultural brasileira (isto é aquilo que a caracteriza e diferencia das demais práticas culturais) ao longo do século XX é forjada aí,pelos setores mais criativos da militância partidária. Daí a presença de nomes tão ilustres da intelectualidade e da criação artística brasileira no PCB-PPS. Essa ligação com a intelectualidade era tão próxima que a crise do PCB significou também, em certa medida, a crise da própria cultura brasileira. Parafraseando o poeta, é impossível escrever a história da nossa cultura sem falar no PCB - sob muitos aspectos, uma espécie de partido da inteligência brasileira.



Esquematicamente, eis o que nós apuramos:

-1922-1927 – O PCB - nunca é demais lembrar - foi fundado no mesmo ano da Semana de Arte Moderna. Alguns modernistas se aproximariam ou mesmo adeririam ao partido, como a pintora Tarsila do Amaral e o pintor Di Cavalcanti – o idealizador da Semana –, e os escritores Oswald de Andrade e Pagu, um pouco mais adiante. Fora isso, o PCB tem na sua secretaria geral um intelectual autodidata que se destacaria mais adiante como especialista da obra do escritor Machado de Assis: o gráfico, linotipista e jornalista Astrojildo Pereira. Alguém que ousaria escrever, de Moscou, em 1925, que "a democracia, ainda que burguesa, é vista como um bem pelas massas...".
Fervoroso defensor da Revolução Russa de 1917, o escritor Lima Barreto, prematuramente falecido em 1923, é um dos intelectuais que simpatizam então com as posições políticas dos comunistas brasileiros. O jornalista Domingos Ribeiro Filho foi outro.
Em seu esforço para entender a realidade brasileira, o Partido Comunista lança algumas publicações, como Movimento Comunista (1922) e A Classe Operária (1925).
Em 1923, Otávio Brandão, intelectual comunista
alagoano, autodidata, publica Agrarismo x Industrialismo, primeiro ensaio a reivindicar a necessidade de uma reforma agrária no Brasil. Enquanto expressão de um processo de industrialização em marcha no país, o PCB passa a ter nos setores mais politizados das camadas médias urbanas, potencialmente ao menos, um poderoso aliado. Já era uma clara demonstração da complexidade da estrutura de classes do país, já àquela época.

-1927-1930– Período marcado pela formação do Bloco Operário, posteriormente Bloco Operário e Camponês (BOC), a primeira frente única eleitoral do PCB. Entre outras reivindicações, o
BOC luta pela criação de bibliotecas públicas no país. Nessa fase, o PCB se aproxima um pouco mais das camadas médias, de certa forma representadas por Luiz Carlos Prestes e outros membros militares da chamada Coluna Invicta. Tanto que, em 1929, é criado o setor militar do Partido, com a adesão de Agliberto Vieira de Azevedo e outros membros das Forças Armadas, como Almir Neves. Carlos Marighella, então estudante de engenharia na Bahia, adere ao Partido por essa época (1929, exatamente). Leôncio Bausbaum é outro importante quadro intelectual formado pelo PCB nos anos que antecedem à chamada Revolução de 30. Foi o fundador da Juventude Comunista, em 1925, e futuro autor de obras de peso, como História sincera da República. Nessa fase ainda, cumpriu importante papel o jornal A Nação, dirigido pelo professor Leônidas Resende. O jornal não era porta-voz oficial do Partido, mas o professor Leônidas Resende o colocou à disposição dos comunistas.

-1930-1933 - O triunfo das teses obreiristas, isto é, sectárias, pautadas apenas pela inserção no mundo proletário, afasta do PCB os setores médios da sociedade. Intelectuais e formuladores políticos como Astrojildo Pereira (gráfico e jornalista, como já mencionado), Cristiano Cordeiro (funcionário público) e Heitor Ferreira Lima (alfaiate) são alijados do Partido (eles se reintegrariam muitos anos depois). Outros - como Alberto Passos Guimarães, que aderira à organização em 1931 - logram permanecer no PCB. Ainda nesse período, se afastam do Partido militantes intelectuais e artistas que posteriormente se identificariam com o movimento trotsquista, entre os quais o crítico Mário Pedrosa, a escritora Rachel de Queiroz e o gravurista Lívio Abramo. Esses afastamentos certamente dificultam a plena compreensão, pelo PCB, da nova realidade formada a partir dos episódios de outubro de 1930. Ou seja, o Partido perde a capacidade de intervir na nova realidade formada materializada pela chegada de Getúlio Vargas ao poder. E o fato concreto é que o PCB se isolaria tremendamente nessa fase, apresentando, talvez pela primeira vez, um rosto político sectário.

-1933-1935 – Ascensão do nazi-fascismo faz com que o PCB adote uma política de alianças mais efetiva, materializada na Aliança Nacional Libertadora (ANL). Nessa quadra da vida nacional,figuras representativas do mundo da cultura como o historiador Caio Prado Júnior, o jornalista Aparício Torelly (o Barão de Itararé) e os conceituados médicos Valério Konder e Manoel Venâncio Campos da Paz se aproximam do Partido. Há indícios de que o compositor Noel Rosa simpatizaria com as teses do PCB, recebendo publicações do Partido, como o jornal A Classe Operária, pelas mãos de um dentista comunista. Em tempo: Caio Prado Júnior seria, por sinal, o redator do programa da ANL, com menos de 30 anos de idade. Fora isso, a ANL apóia, com firmeza, a organização das mulheres. Jovens intelectuais como a psiquiatra Nise da Silveira e Maria Werneck são detidas após o levante de novembro de 1935. Elas ficariam presas na mesma cela de Olga Benário Prestes, posteriormente deportada por Getúlio Vargas para a Alemanha nazista. Incentivada pelo PCB, a ANL talvez tenha tivesse se configurado no primeiro partido político de massas da História do Brasil.

-1935-1942 – O envolvimento do PCB com o levante da Aliança Nacional Libertadora de novembro de 1935 contribui para isolar e muito o Partido das massas. Uma grande repressão se abateria então sobre os comunistas. Intelectuais, escritores e artistas como Graciliano Ramos, Emílio Carrera Guerra, Ivan Pedro de Martins, Mário Lago e Dionélio Machado são presos. O estado da Bahia foi, por esse período, um dos únicos a preservar intactos os contatos com a intelectualidade progressista, por intermédio da revista Seiva, dirigida por João Falcão, então um jovem comunista. Outro jovem revolucionário à época, Armênio Guedes, egresso da Faculdade de Direito de Salvador, também participa ativamente da publicação. E o mesmo podemos dizer de Eduardo Maffei, paulista, e Paulo Cavalcante, pernambucano. A relativa liberdade de expressão existente na Bahia se explica pelo fato de a rebelião aliancista não ter atingido o estado, a repressão se concentrando no Rio de Janeiro, Recife e Natal, praticamente. Isto é, áreas onde ocorreram levantes armados.
Com as mudanças ocorridas no cenário externo – o Brasil começa a se unir contra as forças do Eixo –, os comunistas voltam a se inserir nas lutas nacionais. Os estudantes, em particular, conseguem se manifestar pela retomada das liberdades democráticas, incluindo aí a liberdade de expressão cultural.


-1942-1947 – O PCB vai ganhando prestígio junto às forças da cultura, no bojo da luta antifascista e pela anistia. Naturalmente, a resistência que a União Soviética impõe às forças nazistas também influencia a intelectualidade. Oscar Niemeyer, por exemplo, se aproxima do Partido já em 1942, assim como Marcos Jaimovitch, seu principal contato com o PCB. O poeta sul-mato-grossense Manoel de Barros adere à Juventude Comunista, ainda que dela se afastasse pouco tempo depois. Por essa mesma época, Jorge Amado escreve o seu Cavaleiro da Esperança, na casa de Ernesto Sábato, nos arredores de Buenos Aires, relato romanceado da vida de Luiz Carlos Prestes, então na prisão. Rompendo cada vez mais com o seu isolamento, o Partido marca forte presença no Congresso dos Escritores, presidido pelo comunista Aníbal Machado. Há comunistas entre os redatores da resolução do Congresso, a começar por Alberto Passos Guimarães e Caio Prado Júnior. Os congressistas exigem uma ampla campanha de alfabetização no Brasil. Surgem ou ressurgem a União Nacional de Estudantes (UNE) e a Associação Brasileira de Escritores, entidades apoiadas pelos comunistas. Astrojildo Pereira é uma das grandes referências da intelectualidade nessa fase.
Muitos representantes da área cultural filiam-se oficialmente ao PCB na redemocratização de 1945, quando o prestígio da União Soviética se encontra no auge. Cândido Portinari lança-se, inclusive, candidato ao Senado pelo Partido, perdendo por ínfima margem de votos, em pleito muito questionado. Mas Jorge Amado é eleito deputado federal. Mário Schöemberg (que aderira ao Partido já na década de 30), Graciliano Ramos, Arnaldo Estrela, Quirino Campofiorito, Oduvaldo Viana, Elias Chaves Neto, Mário Gruber, Guerra - Peixe, Aníbal Machado, Bruno Giorgi, Antonieta Campos da Campos, Abelardo da Hora, José Pancetti, Eugênia e Álvaro Moreyra, Moisés Vinhas, Rui Santos, Dalcídio Jurandir, Orígenes Lessa, Darcy Ribeiro, Dionélio Machado, Pedro Mota Lima, Procópio Ferreira,Mário Lago, João Saldanha, Aline Paim, Marco Antônio Coelho e Nelson Pereira dos Santos(os dois últimos jovens estudantes ainda) e outros nomes expressivos(ou que se tornariam expressivos) da cultura nacional assumem oficialmente sua condição de comunistas. Agora podem fazê-lo plenamente.
O poeta Carlos Drummond de Andrade chega a dirigir um jornal do Partido no Rio de Janeiro, o mesmo ocorrendo com Jorge Amado, em São Paulo. Aliás, fiel ao preceito leninista de que o jornal ajudava a organizar as massas populares, o PCB monta uma verdadeira escola jornalística no país, da Tribuna Popular do Rio ao Hoje, de São Paulo; de O Momento, em Salvador à Tribuna Gaúcha, de Porto Alegre; da Folha do Povo, do Recife, ao Jornal do Povo, em João Pessoa. Heloísa Ramos, militante das mais atuante, esposa de Graciliano Ramos, trabalhava no jornal Momento Feminino, dirigido pela jornalista Arcelina Mochel. No ano de 1946, circula a revista quinzenal Divulgação Marxista. Em algumas capitais, o PCB organiza os chamados Comitês Culturais, para apoiar as atividades artísticas progressistas. O Partido tem, então, uma concepção dos fatos culturais mais calcada no realismo socialista, em uma visão demasiadamente curta dos fatos culturais, visão esta diretamente influenciada pela experiência stalinista, diga-se de passagem.

No Rio de Janeiro, compositores populares como Paulo da Portela, Ataulfo Alves e Silas de Oliveira mantêm ligações com o PCB. A própria União Geral das Escolas de Samba (UGES) era muito próxima do PCB, a ponto de ser chamada também de União Geral das Escolas Soviéticas...O hino da campanha de Luiz Carlos Prestes ao Senado foi composto por Dorival Caymmi. Um nome respeitado como Monteiro Lobato fazia campanha para Luiz Carlos Prestes, votando nos candidatos comunistas e publicando o folheto Zé do Brasil, ou seja, o próprio Prestes. A área musical contribuiria ainda com o cantor Jararaca, nascido em Alagoas, e a jornalista e crítica Eneida, oriunda do Pará. Além disso, a Editorial Vitória cumpre importante função ao divulgar os clássicos do marxismo no Brasil. Astrojildo Pereira é um dos responsáveis pela linha da editora. E o PCB consegue montar ainda uma produtora de cinema, a Liberdade Filmes, bem modesta, é verdade. Mais, até: Alinor Azevedo, um dos criadores da Atlântida, era membro do PCB. Atraídos pela resistência da União Soviética às forças do Eixo, muitos intelectuais de origem ou formação judaica aderem então ao Partido Comunista. Entre eles poderíamos citar Carlos Scliar, que participara da Segunda Guerra Mundial na campanha da Itália. Mesmo atletas como Leônidas da Silva, o Diamante Negro, aderem ao PCB(da mesma forma que Didi, mais tarde). O pugilista Waldemar Zumbano, tio do futuro campeão mundial Éder Jofre, ingressaria igualmente no Partido, onde militaria por décadas a fio. Dir-se-ia que esses foram os primeiros anos dourados do PCB.

-1947-1954 – A ida do PCB para a ilegalidade e as próprias posições extremadas adotadas então pelo Partido (sobretudo após o Manifesto de Agosto, que propõe a luta armada) contribuem para afastar os comunistas do movimento de massas em geral e dos setores culturais em particular. Trata-se de um dos períodos mais difíceis do ponto de vista da relação do PCB com os criadores culturais. É nessa fase que intelectuais da importância de Paulo Mercadante, por exemplo, deixam o Partido. Mas o PCB mantém boa parte de sua imprensa na legalidade, o que contribui para divulgar suas idéias, inclusive aquelas mais voltadas para a atividade intelectual ou artística. Mais: os jornais do PCB têm então boa penetração popular, sobretudo nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia e Ceará. São relativamente bem aceitas as revistas teóricas e culturais Fundamentos (dirigida por Elias Chaves Neto) e Literatura (com Manuel Bandeira e Arthur Ramos no conselho editorial). Escritores como José Lins do Rego e Álvaro Moreyra trabalham em órgãos orientados pelo Partido. Pertence ao partido a compositora de concerto Eunice Catunda, que organiza corais populares, sobretudo em São Paulo. Outra atividade importante dos comunistas é a criação de cineclubes em várias partes do Brasil, notadamente em Salvador, com Walter da Silveira à frente. E convém destacar ainda, nessa fase, como fato extremamente significativo, a atuação dos militantes intelectuais negros do PCB na organização do Congresso do Negro Brasileiro, realizado em 1950. É o caso, por exemplo, do antropólogo Edison Carneiro e do poeta Solano Trindade. Aqui, interessa recordar que, em 1930, o Partido lançara um negro como candidato à presidência da República, o operário marmorista Minervino de Oliveira, o primeiro vereador - naquela época se dizia intendente - negro da então capital da República, o Rio de Janeiro. E que, em 1945, o Partido elegeria o primeiro negro da Constituinte, Claudino José da Silva, ferroviário que ingressara no PCB ainda em 1928.

Mas esse período é marcado pelas posições sectárias assumidas pelo Partido, que avalia o segundo Governo Vargas - equivocadamente, como se verificaria mais tarde, no bojo dos dramáticos acontecimentos que conduziriam ao suicídio do presidente da República - como pró-imperialistas e praticamente fascistas. Essa postura estreita acaba contaminando igualmente a esfera cultural do Partido, que assume um viés muitas vezes excludente, sobretudo em relação àqueles intelectuais e artistas em divergência com marxismo ou com a versão oficial deste.


-1954-1958 – Importantes greves operárias verificadas no início da década de 50 atuam no sentido de fazer com que o Partido inicie um processo de ruptura com as posições sectárias que vinha assumindo desde 1948, reaproximando-o assim da população pelas mãos do movimento sindical. Mas a crise política interna adquiriria novas proporções com a denúncia do chamado culto à personalidade, que atinge a figura quase sagrada de Josef Stalin, todo-poderoso secretário geral do Partido Comunista da União Soviética. Desiludidos, alguns intelectuais de peso deixam o Partido, como Jorge Amado e Antonio Paim. Um número considerável de jornalistas (entre eles se alinharia Moacyr Werneck de Castro), lotados na imprensa partidária, também rompe com o PCB nessa ocasião. O Partido é praticamente salvo do isolamento completo e de uma crise interna mais profunda pelos novos ventos que sopram na vida do país, como que materializados pelo Governo JK, democrático e desenvolvimentista.

-1958-1964 – Buscando superar a grave crise interna, o PCB elabora a chamada Declaração de Março, que privilegia o caminho da democracia para a solução dos problemas nacionais e a superação do capitalismo. Com isso, a intelectualidade volta a se aproximar do Partido. Pipocam daqui e dali inúmeras manifestações de ordem cultural. A revista Para Todos, fundada em 1956 pelos comunistas, influencia parcelas consideráveis da intelectualidade. E o mesmo se pode dizer do semanário Novos Rumos, que chega a vender mais de 50 mil exemplares, em um país então com cerca de 50 milhões de habitantes. Os dois principais responsáveis por Novos Rumos, os jornalistas Mário Alves e Orlando Bonfim, seriam assassinados pela Ditadura poucos anos após o empastelamento do jornal. Luiz Mário Gazzaneo, Josué Almeida, Almir Matos e Maria da Graça Dutra participam ativamente dos Novos Rumos. Jornalistas como Sérgio Cabral e Ivan Alves também dão sua colaboração ao jornal em diversos níveis, indicando textos ou revisando algumas matérias ou ainda organizando finanças para a sua manutenção. A revista teórica do Partido, Estudos Sociais, dirigida por Astrojildo Pereira e Armênio Guedes, exerce uma certa influência sobre os estudiosos e parcelas da Academia. Nelson Werneck Sodré, Fausto Cupertino, Jacob Gorender e Jorge Miglioli integram a revista, que publica dezenas de artigos de peso até 1964, inclusive de intelectuais não comunistas e de enorme prestígio entre seus pares, como Josué de Castro e Hermínio Linhares. Dirigentes, militantes e intelectuais do Partido se debruçam então sobre a questão agrária, como Alberto Passos Guimarães, autor do clássico Quatro séculos de latifúndio, Caio Prado Júnior, Carlos Marighella e Fragmon Carlos Borges. Entre os cientistas sociais começam a despontar nas fileiras partidárias Joel Rufino dos Santos, Décio Freitas, Antonio Carlos Peixoto, Amaro Quincas, Clóvis Moura e Rui Facó. Surge o Cinema Novo, com decisiva participação de realizadores ligados ao PCB, como Nelson Pereira dos Santos (que dera partida no movimento, com o clássico Rio 40 graus), Roberto Santos e Leon Hirzsman. Fora isso, o livro intitulado Introdução ao cinema brasileiro, publicado em 1959 pelo crítico e cineasta comunista Alex Viany, marca toda uma geração de criadores. Alex Viany seria o co-autor, juntamente com Glauber Rocha, do célebre texto-manifesto Estética da Fome, que faz um balanço do Cinema Novo, já em 1965. Na literatura de ficção, os nomes cobrem o país todo: do goiano Bernardo Éllis ao paraense Abguar Bastos e deste ao maranhense José Louzeiro, que se iniciava então nas letras e já exercia o jornalismo. Ainda nos anos 60, escritores jovens como Ciro Martins e Sérgio Faraco aproximam-se do PCB. José Paulo Paes, tradutor e poeta, intelectual e autodidata também atua no Partido. No teatro, a presença do PCB também se faz sentir e autores consagrados como Dias Gomes (“O pagador de promessas”) e Gianfrancesco Guarnieri (“Eles não usam black-tie”) pertencem às suas fileiras. A ação de Flávio Rangel, Zbigniew Ziembinsky e João das Neves também leva a marca de suas militâncias no PCB. Entre os críticos, destaca-se Fernando Peixoto. E, entre os atores e atrizes, poderíamos citar Paulo José, Glauce Rocha, Juca de Oliveira, Ítala Nandi, Dina Sfat, Carlos Vereza, Joel Barcellos, Francisco Milani, Stênio Garcia e José Wilker. Há criadores do PCB atuando com brilho na arquitetura e nas artes plásticas de maneira geral. Além dos já citados Niemeyer, Di Cavalcanti, Portinari e Carlos Scliar, são comunistas Iberê Camargo, Renina Katz, Virgínia e Vilanova Artigas. O PCB se implanta também no mundo da ciência e os comunistas Luís Hildebrando Pereira da Silva e Samuel Pessoa ajudam a elaborar uma política de pesquisa médica para o país, influindo de forma decisiva na criação da própria Fapesp, ainda hoje o principal organismo de apoio à pesquisa em todo o estado de São Paulo. A psicanalista Helena Besserman Vianna é membro do Partido. Ainda no campo da ciência aplicada, alinham-se entre os comunistas os jovens engenheiros Raymundo de Oliveira, Joel Teodósio e Sérgio Augusto de Moraes, figuras que teriam um papel importante nos embates democráticos entre nós. Fernando Santana, também engenheiro e um dos mais competentes deputados da história do parlamento brasileiro, já havia aderido ao PCB em 1934. Vale dizer, o Partido cresce visivelmente aos olhos dos intelectuais e artistas. Nei Lopes, futuro historiador e sambista, integra, ainda estudante, as hostes juvenis do PCB, assim como Aspásia Camargo, que se destacaria depois como socióloga e militante da ecologia, Mariza Campos da Campos, bióloga e jornalista, a atriz e escritora Jalusa Barcellos, o futuro médico Jacob Klingerman,o futuro advogado e ministro da Justiça Aloysio Nunes Ferreira, o futuro engenheiro e escritor Ailton Benedito de Souza, o futuro animador do Movimento de Cultura Popular no Recife, Joacir de Castro. É preciso reconhecer que os governos democráticos de JK e Jango Goulart, com suas propostas reformadoras, fomentam as condições políticas mínimas para o alastramento da atividade cultural. Um comunista dos idos de 35, Ignacio Rangel, será um dos elaboradores, inclusive, do famoso Plano de Metas de JK. São os tempos de Brasília, com o comunista Oscar Niemeyer à frente. Do CPC da UNE, os comitês de cultura popular incentivados pelos estudantes e presidido pelo poeta Ferreira Gullar (ainda no plano do CPC, tiveram ainda destacada atuação na massa estudantil os comunistas Marcos Jaimovitch, Givaldo Siqueira e Zuleika Alambert). E são também os tempos do Comando dos Trabalhadores Intelectuais, que congrega nomes de primeira grandeza, a saber: o general e historiador Nelson Werneck Sodré – ligado ao Partido desde o final do Estado Novo pelo menos –, o crítico Álvaro Lins e o dramaturgo Dias Gomes e outros. Isso, para não aludirmos ao ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), criado pela MEC, com forte presença comunista. Intelectuais da importância de Roland Corbusier, Nelson Werneck Sodré e Álvaro Vieira Pinto participam de inúmeros debates e publicações, contribuindo para a criação de marcos ideológicos que iriam balizar a política do chamado desenvolvimentismo entre nós. Além do que, há um clima favorável também às lutas por reformas e, mesmo aos embates de corte revolucionário, como a resistência armada dos povos vietnamita e cubano e os próprios combates travados pelos movimentos de libertação na África.

 

-1964-1968 – A ditadura militar instalada no país em 1º de abril de 1964 golpeia com todas as suas forças o mundo da cultura também. Criação intelectual, evidentemente, não é compatível com obscurantismo e perseguições políticas, com a falta de liberdades públicas. Nesse quadro, as relações do PCB com o ambiente da criação ficam abaladas, uma vez mais. Mesmo assim, o Partido se esforça para recompor as suas bases intelectuais e influir, por intermédio da cultura, para isolar o regime militar. Dessa maneira, jornalistas e intelectuais comunistas, entre os quais Luís Mário Gazzaneo, Maurício Azêdo, Artur José Poerner, Anderson Campos e Leandro Konder lançam no Rio de Janeiro o jornal Folha da Semana, o primeiro periódico alternativo da era da ditadura. São ainda expressões da resistência cultural dos comunistas o Teatro Opinião, comandado por Ferreira Gullar, Tereza Aragão, Oduvaldo Viana Filho e Armando Costa; o Teatro de Arena, de São Paulo; a Revista Civilização Brasileira, da editora homônima, conduzida pelos comunistas Ênio Silveira e Moacyr Félix; e até livros simbolizam individualmente toda uma resistência coletiva, como o célebre Febeapá, de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Isso, sem esquecer a música de protesto de João do Vale, um ex-pedreiro comunista originário do Maranhão, assim como diversos manifestos lançados contra a censura. No Pará, um intelectual da qualidade de Rui barata passa a dirigir o Partido dede a clandestinidade. Estudantes ainda, Juca Ferreira e Ana de Holanda, futuros ministros da Cultura, se aproximam por essa época do PCB, assim como os músicos Jards Macalé e Buru. Nas redações dos grandes jornais e revistas – notadamente do eixo Rio-São Paulo – os jornalistas comunistas travam uma luta renhida contra os censores. Milton Coelho da Graça, Elio Gaspari, Ivan Alves, Carlos Alberto Caó de Oliveira, Jairo Régis, Fabiano Villanova, Maurício Azedo (posteriormente presidente da Associação Brasileira de Imprensa), Sérgio Cabral, Célia Maria Ladeira (depois professora na UNB), Roberto Müller, Antonieta Santos, Alberto Rajão, Narceu de Almeida Filho, Heloneida Studart, Nilson Miranda, Ancelmo Góis e Milton Temer são alguns desses profissionais. Quase todos são presos. Em Minas Gerais, Roberto Drummond, também jornalista, ingressa no Partido. Não se pode esquecer que a modernização profissional das redações criadas na grande imprensa brasileira foi, também, em grande parte, esforço dos comunistas.

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1968-1978 – A fase mais dura do regime militar, que vive sob o império do Ato Institucional n.5, carta de natureza facistóide, que suprime todas as liberdades democráticas. Um terço do Comitê Central do PCB é assassinado pelas forças repressivas. Seus corpos até hoje não apareceram. Barbaramente torturados, dirigentes como Hilário Pinha, Renato Guimarães, Moacyr Longo, Marco Antonio Coelho, Paulo Elisiário Nunes e Renato Oliveira da Motta conseguem sobreviver, cumprindo anos de cadeia. Seqüestros, prisões, torturas e assassinatos dos opositores políticos atingem igualmente a esfera da cultura. Muitos criadores deixam o país. O PCB, além das perseguições que sofre, enfrenta, também, a crítica dos grupos radicais de esquerda, que fascinam determinados setores da intelectualidade e da massa estudantil. Um quadro intelectual da envergadura de Jacob Gorender, formado nas hostes partidárias desde o início dos anos 40, rompe com o PCB após o golpe. Apesar do contexto político desfavorável, o PCB busca incentivar algumas iniciativas democráticas no campo da cultura. Um dos fundadores do jornal Pasquim, em 1969, é o comunista Sérgio Cabral, que também cria o Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, ao lado de Moisés F****. O Casa Grande, como é conhecido, se revela uma fonte permanente de finanças para o Partido. Mas o mar não está para peixe, como se diz. Muitos músicos ganham o caminho do exílio, a exemplo do comunista Carlos Lyra, mas representantes da chamada MPB buscam manter acesa a chama no interior do país. Entre eles, artistas também ligados ao PCB - Rildo Hora, Sidney Miller (criador do projeto Pixinguinha), José Carlos Capinam, Gonzaguinha, Paulinho da Viola, Tom Zé, Jorge Goulart e Nora Ney. No campo da música de concerto, Camargo Guarnieri, José Siqueira e Cláudio Santoro, todos ligados ao Partido Comunista, procuram igualmente dar sua contribuição cultural e política. Mesmo um músico como João Gilberto, normalmente pouco afeito à participação político, recebe influência das idéias marxistas. Também o teatro resiste: quando a ditadura proíbe a peça Abajur Lilás, do ex-estivador e dramaturgo comunista Plínio Marcos, todos os teatros da cidade de São Paulo fecham suas portas, em sinal de protesto. O comunista Paulo Pontes escreveu, em parceria com Chico Buarque, a peça “Gota d’Água”, de grande sucesso. Atuando, sobretudo na Bahia, o ator Bemvindo Sequeira também cumpre um importante papel na resistência cultural ao regime ditatorial, chegando a disputar a vereança pelo MDB com o apoio dos comunistas, então clandestinos. Os cineastas e diretores de fotografia também resistem, à sua maneira, como o então jovem fotógrafo Antonio Luiz Mendes Soares, que trabalha há tempos com Nelson Pereira dos Santos e, posteriormente, fotografaria com Sylvio Back. Espedito Rocha, um revolucionário profissional do Partido, torna-se artista plástico – e dos bons - ainda na cadeia. O comunista Roberto Pontual,respeitado crítico de arte, esforça-se para manter uma reflexão sobre os rumos da criação plástica.

Mas esse também é a fase marcada pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog e pelas torturas infligidas contra outros profissionais de imprensa, como João Aveline, futuro diretor de Voz da Unidade. E essa é ainda uma época em que jovens intelectuais, como Aloísio Teixeira, Gildo Marçal Brandão e Marco Aurélio Nogueira, dão o melhor dos seus esforços à reorganização do PCB em São Paulo. Em 1977, os comunistas – apesar de a organização partidária estar praticamente estraçalhada pela repressão política, sobretudo após a vitória eleitoral da oposição em 1974 – conseguem lançar uma revista teórica, Temas de Ciências Humanas, que circularia até 1981. Dela participaram Nelson Werneck Sodré e Renato Guimarães, este último o responsável pelo setor de educação no Comitê Central do PCB na década de 60 e parte da de 70. Ainda em 1977, graças em boa medida à intensa movimentação dos comunistas, quase três mil jornalistas de todo o país assinam o Manifesto da ABI contra a censura aos órgãos de comunicação. Durante parte da década de 70, trabalhando nos núcleos de criação da TV Globo, alguns membros do Partido Comunista Brasileiro logram criticar o obscurantismo do regime, valendo-se de novelas e seriados de grande audiência popular. Na própria direção central do PCB, há intelectuais orgânicos com capacidade de elaboração política e visão cultural, entre os quais poder-se-ia citar Armênio Guedes, Salomão Malina, Givaldo Siqueira, Moacyr Longo, Marco Antônio Coelho, Marly Vianna e Anita Prestes, esta última hoje conceituada professora universitária e escritora. E não só: ainda da clandestinidade, dirigentes como Geraldo Rodrigues dos Santos e Abigail Páscoa ajudam a organizar o movimento negro e o combate ao racismo. O arquiteto Zulu Araújo desponta já em meados da década de 70 como um das lideranças mais significativas do movimento negro na Bahia, participando da criação do grupo Olodum em 1979. Zulu presidiria mais tarde, por vários anos, a Fundação Palmares. A propósito das chamadas lutas étnicas, convém observar que o Partido tampouco desconheceu, ao longo da sua existência, a enorme contribuição dos índios para a formação do que é o hoje o Brasil. Foram membros do PCB, afora Darcy Ribeiro, os antropólogos Eduardo Galvão, Carlos Moreira, Berta Ribeiro, Sylvia Carvalhoe também o Dr. Noel Nutels e os indigenistas Chico e Apoena Meirelles, pai e filho. Apesar de tudo e a duras penas, o Partido buscava manter sua influência junto à sociedade, no quadro de um combate desigual travado com a ditadura militar.

-1978-1985 – Com o fim do AI-5, a Anistia e o retorno dos comunistas do exílio, o PCB tenta se rearticular. Reconhecendo a importância do mundo da comunicação, o Partido publica em 1980 um semanário, Voz da Unidade, o qual abre algum espaço para o debate cultural. O jornal é dirigido, em uma primeira fase, por João Avelino e, depois, por Luis Carlos Azêdo, oriundo do setor estudantil do Partido e um dos seus melhores intelectuais orgânicos até hoje, já no PPS. Um dos editores de cultura da Voz da Unidade é o respeitado escritor e professor universitário Martin Cezar Feijó. Nesse mesmo ano surge a revista Presença, coordenada pelo veterano dirigente comunista Armênio Guedes, que exprime a chamada visão eurocomunista que se desenvolve dentro do PCB e conta com a participação de Luiz Werneck Vianna, Gilvan Mello, Luiz Sérgio Henriques e Alberto Aggio. Dois anos antes, ressurgia das cinzas a revista Civilização Brasileira, agora denominada Encontros com a Civilização Brasileira, também dirigida pela dupla Ênio Silveira e Moacyr Félix, velhos comunistas. Ex-líderes egressos do movimento estudantil, como Carlos Alberto Muniz e Franklin Martins, assumem as propostas do Partido. Mas o PCB ainda não obtém a sua legalidade. Pior, até: encontra-se muito dividido. De um lado, há o grupo que se articula em torno das posições defendidas por Luiz Carlos Prestes, partidário da formação de uma frente das esquerdas. O conceituado advogado Aldo Lins e Silva, membro do Comitê Central do Partido, o acompanha nesse posicionamento. De outro, há os chamados eurocomunistas, partidários da aplicação da experiência histórica de alguns partidos europeus à realidade brasileira, notadamente no que tange à valorização da questão democrática. Acaba prevalecendo a linha política expressa por Giocondo Dias – mas a influência do PCB junto à intelectualidade já não é mais a mesma decididamente. Seguramente, a maneira como o PCB tratou da questão eurocomunista contribuiu para esse afastamento da intelectualidade do seio do Partido. Intelectuais históricos do PCB, com mais de vinte ou trinta anos de militância – Leandro Konder é um deles; Carlos Nelson Coutinho, outro – pedem afastamento do Partido. Um jornalista da importância de Mauro Malin também se desliga nessa ocasião do PCB (ele fora um dos redatores, juntamente com Giocondo Dias e Leandro Konder da resposta à Carta aos Comunistas, de Luiz Carlos Prestes). Zuleika Alambert, que sempre trabalhara com a juventude e se tornara a principal expressão feminina do partido, deixa igualmente a agremiação. Mas Zuleika deixaria marcas, igualmente: Irina Abigail, Almira Rodrigues, Sonia Francine e Teresa Vitale, expressões do feminismo no interior do PPS, sempre destacam o pioneirismo de sua ação. Seja como for, enfraquecido, o PCB se defronta ainda com a presença, senão a hegemonia, exercida pelo Partido dos Trabalhadores (PT) nos meios culturais, sobretudo na Academia. Marco Aurélio Nogueira e Gildo Marçal Brandão se afastam organicamente do Partido, mas mantêm inúmeros vínculos com a organização. Um importante quadro intelectual e formulador político, José Paulo Neto, permanece, contudo, nas fileiras partidárias naquele momento. Ironias da História: não se pode deixar de destacar que, no exato momento histórico que o PCB afirma a vitória de sua linha política de massas sobre a ditadura, a Partido começa igualmente a declinar.

-1985-1992 – O PCB obtém a sua legalidade somente em 1985, após o fim do regime militar. O Partido tenta reconstruir as pontes com o movimento cultural de maneira geral. O médico comunista Sérgio Arouca assume a presidência da Fiocruz. O veterano jornalista comunista Ivan Alves torna-se o Diretor de Jornalismo da TVE, a única televisão educativa que ainda depende do governo federal (as demais são estadualizadas). Horácio Macedo passa a ser o reitor da UFRJ. São espaços que os comunistas voltam a ocupar na sociedade. Um poeta libertário como Paulo Leminsky assume a sua condição de comunista. Um ensaísta da qualidade de Ivan Ribeiro Filho confirma a sua permanência no Partido. Advogados prestigiosos, defensores dos direitos humanos, como Marcelo Cerqueira, Humberto Jansen, Modesto da Silveira, Hermann Baeta e Flora Strozenberg também renovam ou mantêm suas ligações antigas com o Partido. Em 1986, o PCB decide lançar a revista Novos Rumos, de caráter teórico. Dirigida pelo veterano antifascista Noé Gertel, a publicação visa ampliar a inserção do PCB na intelectualidade. Aos poucos, os contatos com o mundo do samba vão sendo retomados. Lícia Canindé, a Ruça, vereadora comunista pelo Rio de Janeiro, passa a presidir a escola de samba de Vila Isabel, ganhando o carnaval de 1988, em memorável desfile que homenageia Zumbi dos Palmares no centenário da Abolição. Noca da Portela, sambista dos mais queridos, integra oficialmente o partido. Monarco, outro portelense histórico, comparece a inúmeros atos promovidos pelo Partido – sua prima, Zélia Magalhães, seria assassinada em um comício do partido, durante o Governo Dutra, em 1946. Um compositor da qualidade de Almir Sater comparece a espetáculos promovidos pelo Partido no Mato Grosso do Sul. Criadores como os cineastas Sílvio Tendler e João Batista de Andrade e os pintores Siron Franco, Waldomiro de Deus e Aparecida Azedo tomam o mesmo rumo. O mesmo se pode dizer do economista Raul de Mattos Paixão, autor de uma tese importante que considera a inflação um instrumento de transferência de renda do salário para o capital, em uma fase em que ela recrudescia.

O rumo do PCB seria também aquele do ator Stepan Nercessian e da atriz Beth Mendes. Mas – é preciso que se reconheça – o PCB representa um modelo internacionalmente esgotado – o chamado socialismo real – e a intelectualidade progressista não se sente nem um pouco atraída mais por ele. Apesar dos esforços de alguns reformadores – à frente dos quais se encontra o próprio secretário geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachiev –, o socialismo real se extingue em 1991, com o fim da União Soviética. Em 1992, o PCB decide mudar de nome e de política, sobretudo, e passa a se chamar Partido Popular Socialista, PPS.

-1992-2011– Ao perceber a importância fundamental da democracia (o Partido se pronuncia pela chamada radicalidade democrática, a ampliação contínua dos espaços de ação e expressão populares) e o alcance da revolução técnico-científica em curso no mundo, o PPS vai se posicionando como uma organização que almeja reunir condições de atrair e influenciar com sua política aqueles que atuam na área da cultura e da ciência. Trata-se, na passagem do PCB para o PPS, de uma ruptura com determinadas práticas organizativas do velho Partidão, para além de uma mudança de concepção de mundo. Ademais, o Partido percebe que há novos atores sociais em cena. E espaços políticos novos, igualmente. Afinal, a chamada Sociedade do Conhecimento, o capitalismo cognitivo começava a mostrar a sua cara. Apesar disso não se traduzir em fortalecimento imediato do Partido, homens como o economista Luís Gonzaga Beluzzo, o jornalista José Hamilton Ribeiro, o antropólogo Mércio Gomes, o influente líder indígena Marcos Terena, o poeta Wally Salomão, o filósofo Luiz Sérgio Coelho Sampaio (esses dois últimos prematuramente falecidos) juntaram-se nesses últimos anos ao PPS, agremiação presidida por um respeitado quadro da área parlamentar, Roberto Freire. Nas artes plásticas, Rubens Gerchman, um nome de peso, colabora com o Partido. Delcio Marinho, diretor de teatro carioca e sobrinho-neto de Astrojildo Pereira, retoma suas ligações com a frente cultural partidária e passa a presidir a Fundação Astrojildo Pereira (FAP), no Rio de Janeiro. Luiz Carlos Prestes Filho, estudioso e pioneiro no exame das chamadas indústrias criativas entre nós, também mantém relações amistosas com a FAP. Esportistas como o velejador Lars Grael, o ex-goleito do Corinthians Ronaldo, e o ídolo do Palmeiras Ademir da Guia aderem ao PPS, assim como a ex-jogadora de voleibol, pentacampeã pelo Flamengo e sobrinha de Astrojildo Pereira, Norma Dias. A esportista Georgette Vidor também ingressa no Partido, sagrando-se, inclusive, deputada estadual pela legenda do PPS. Igualmente deputado estadual pelo PPS, Comte Bittencourt enriquece a visão partidária sobre a questão educacional.

Um passo importante no sentido da integração com a esfera da cultura se deu ainda com a criação da Fundação Astrojildo Pereira (FAP), mencionada acima e instituída pelo Partido em 2001. Intelectuais, jornalistas e artistas conceituados integram a FAP e o conselho editorial da sua revista, a Política Democrática. Eis alguns deles: o poeta Ferreira Gullar, o documentarista Vladimir Carvalho, o cientista político Luiz Werneck Vianna, o economista Sérgio Besserman Vianna, o sociólogo Raimundo Santos, o professor Paulo Bonavides, a física Dina Lida Kinoshita, o professor Amílcar Baiardi, o economista Raul de Mattos Paixão Filho (já falecido), o sociólogo Luiz Eduardo Soares, o ensaísta e tradutor Luiz Sérgio Henriques, o crítico e historiador musical Ricardo Cravo Albin, o jornalista Marco Antônio Coelho, o professor Marco Aurélio Nogueira, a poetisa Graziela Mello, a socióloga Cleia Schiavo, o jornalista Luiz Carlos Azedo, o sociólogo Augusto de Franco,o historiador Alberto Aggio, a historiadora Maria do Socorro Ferraz, o historiador Ricardo Maranhão, o professor Fausto Mato Grosso. A revista da FAP - editada por Marco Antônio Coelho, ex-deputado comunista, pelo sociólogo da UNB Caetano Araújo e pelo jornalista Francisco Inácio de Almeida - vem desempenhando um papel semelhante àquele da revista Estudos Sociais nos anos 50 e 60, tornando-se um instrumento central para o diálogo do Partido com o mundo do conhecimento e a sociedade em geral. O mundo do futuro. E é interessante observar que, desde seu primeiro número, no ano 2001, a Política Democrática estampa em sua capa um grande artista nacional, divulgando assim o melhor da nossa produção plástica, de Oscar Niemeyer a Candido Portinari, passando por Aparecida Azedo e Waldomiro de Deus e João Câmara Filho. Sintomaticamente, o primeiro secretário do PPS, Francisco Inácio de Almeida, um dirigente forjado nos duros tempos da luta clandestina e um de seus mais preparados intelectuais orgânicos, é hoje um dos principais organizadores da FAP - o que, por si só, traduz a importância que o PPS dedica à questão do conhecimento e da cultura. Um projeto importante da FAP, e que merece ser mencionado aqui, implica o resgate do passado promovido pela série Brasileiros e Militantes, que, em 2011, já editara cerca de 30 documentários, a partir de depoimentos de figuras expressivas da vida do PCB-PPS e do próprio Brasil, como Niemeyer, Leandro Konder, Ferreira Gullar, Armênio Guedes, Severino Teodoro de Mello, Moacyr Longo, Joel Rufino dos Santos, Antônio Ribeiro Granja, Sérgio Cabral e tantos outros.
É possível concluir que o PPS tem por um de seus objetivos se apoiar nesse rico passado na tentativa de oferecer ao país um projeto cultural consistente. Refazer a utopia, em síntese. Sem tal projeto, não há construção (ou reconstrução, melhor dizendo) possível de qualquer saída política para o Brasil, a nosso juízo.

Seja como for, o fato é que, em meados de 2005, o Partido organizou, em conjunto com a FAP, no Rio de Janeiro, mais exatamente no Museu da República, um seminário nacional para contribuir para a elaboração de uma política cultural para o país na passagem para o terceiro milênio. E o PPS ainda organizou, em julho de 2007, sempre em parceria com a FAP, uma Conferência Nacional Caio Prado Júnior para debater com a intelectualidade, sobretudo, os novos rumos da esquerda brasileira. Realizada no ano seguinte, a Conferência deverá começar a publicar seus anais completos no máximo até 2012. São vários volumes, com textos de alguns dos intelectuais e homens públicos mais brilhantes do país, como Ferreira Gullar, Roberto Freire, Fernando Gabeira, José de Souza Martins, Luiz Werneck Vianna, Rui Fausto e César Benjamim. O Partido faz questão de deixar claro que os próprios intelectuais e artistas é que definirão os caminhos da cultura entre nós.

E não poderá ser com outro espírito que o Partido e sua Fundação enfrentarão as próximas batalhas políticas e embates eleitorais, quando pretendem influir de maneira significativa para a construção de um novo bloco de forças para mudar de fato o Brasil, em plena transição para a sociedade do conhecimento.

 

 

* Ivan Alves Filho é jornalista, historiador e autor de mais de dez livros, um dos quais é sobre Giocondo Dias, ex-presidente nacional do PCB (anos 1980-1986).



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Comentário de Delcio Marinho em 30 setembro 2011 às 19:57

A Fundação que tem como patrono ASTROJILDO PEREIRA é um instrumento para análise e discussão das complexas questões da atualidade aberto a todo e qualquer cidadão independentemente de ser filiado ou não à agremiação partidária
e de suas concepções políticas e filosóficas
 
Instituída pelo PPS Partido Popular Socialista, destina-se ao estudo e
à reflexão crítica da realidade, na construção de referências teóricas e culturais que incidam sobre as lutas democráticas da sociedade brasileira
 
http://www.fundacaoastrojildo.org.br/

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