Aqueles que me conhecem sabem de minha predileção por escrever após a poeira de algum assunto reduzir seus efeitos e permitir uma análise mais limpa do tema. O tema que abordo agora é relativo à eutanásia. Ainda no calor das notícias escrevi duas crônicas (http://cronicasdoacre.zip.net/), tentando entender os dois lados da situação. Hoje vamos colocar nosso ponto de vista sobre o tema.
No dia sete de março de 2009, os médicos da clínica La Quiete, da cidade de Udine - Itália, iniciaram a suspensão da alimentação e a hidratação de Eluana Englaro, então com 37 anos e há 17 anos em estado vegetativo por conta de um acidente de carro. Os especialistas esperavam que a morte devesse ocorrer entre 10 e 21 dias, dependendo da resistência física da paciente. Os próprios médicos disseram que o óbito seria, na prática, por inanição (fome) e de desidratação (sede). Porém a morte foi constatada somente dois dias após (9). Para poder realizar a eutanásia, o pai da jovem, Beppino Englaro, obteve sentença neste sentido ainda em 2008. Isso permitiu a retirada das sondas que a mantinham viva. "Para nós, ela está morta desde 18 de janeiro de 1992", disse Beppino.
O caso de Eluana me lembrou outro, ainda em meados dos anos 70 e na minha infância. Karen Ann Quinlan, tinha 22 anos de idade, em 15/04/75 quando entrou na emergência do Newton Memorial Hospital, de New Jersey/EUA, em estado de coma, de etiologia nunca esclarecida. Na época o fato fora creditado a overdose de cocaína e álcool.
Os pais adotivos, Joseph e Julia Quinlan, tendo as informações da irreversibilidade do caso, solicitaram, em 01/08/75, a retirada do respirador. Em 31/03/76, a Suprema Corte de New Jersey concedeu, por sete votos a zero, o direito da família em solicitar o desligamento dos equipamentos de suporte extraordinários. Após isto, a paciente sobreviveu mais nove anos, sem o respirador. Também não houve melhora no seu estado neurológico. Morreu quando chegou a hora.
Em cinco de outubro de 2005 um italiano, Salvatore Crisafulli, acordou de um coma profundo que passou durante quase dois anos. Ele era tido como um caso perdido pelos médicos. Salvatore despertou dizendo ter ouvido e entendido tudo o que se passava ao redor durante o drama. Em 02 de junho de 2007 um polonês, Jan Grzebski, acordou do coma após permanecer neste estado por 19 anos, depois de ter sido atropelado por um trem. O fato surpreendeu os médicos. Estes dois driblaram a morte.
Não concordo com o prolongamento desnecessário da vida por conta de aparelhos e equipamentos de manutenção artificial ou mesmo devido ao uso de medicamentos para isso. Acho que forçar alguém a ficar vivo é tortura, mesmo que a vítima não esteja consciente, em estado de coma. Neste caso, sou pela suspensão. Mas após isso, se houver ainda vida no corpo, defendo que esta seja mantida pelas formas normais, ou seja como alimentação.
Na minha parca e pessoal visão entendo que a suspensão da alimentação é um homicídio, uma violência. E tudo contra alguém que não pode, ao menos naquele instante, se manifestar e depende de outros. Concordo com os médicos italianos do caso Eluana: morte por inanição.
Não posso dizer que faria isto ou aquilo pois não estive na situação de Beppino. Apenas posso dizer que hoje eu continuaria com a alimentação. Hoje eu teria feito como os pais adotivos de Karen Ann Quinlan: desligue os aparelhos, mas mantenha a alimentação. Amanhã, se acontecer, não sei. Se a filha virou um bebê, cuja alimentação e higiene dependem dos outros, isso é o serviço dos pais. E ninguém disse ser isso tarefa fácil.
Espero não ter de passar por uma situação destas. Também não serei eu a acusar Beppino por sua decisão, pois ele vivenciou uma experiência pela qual nenhum de nós gostaria de passar. Só entendo que a retirada da alimentação é uma forma muito cruel de se realizar a eutanásia. Se for para matar, melhor o método Kevorkian (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jack_Kevorkian), do qual eu discordo, mas entendo.
E que cada um cumpra a medida de sua criação”.

Exibições: 58

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2020   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço