Uma estória sem eira na beira do nada. Por companheiro o devaneio,  e por sombra o medo.  Uma estória profana de um qualquer, que é sempre único. Digo estória, porque a História é sempre duvidosa, mas a estória é real, uma vez que é o que sentimos e somos.

 

 

 

PERCIVAL

 

 

31 de março de 1964. As tropas avançam ímpias, devastando a multidão. Carruagens metálicas esmagam as frágeis vidas aglomeradas. A Cruzada contra os pagãos é finda.

 

- Nãaaaaaaao!        

 

Percival acorda. Tudo é escuridão. Caveiras com enormes capas negras cantam e se movem e em círculo à sua volta. É a hora do sacrifício, riquezas derramadas por todo o chão. Primeiro, uma caveira com uma adaga, vestida de mulher, aproxima-se e se desmonta à sua frente. Outra caveira então, segurando uma espada e uma balança, vem em sua direção. Percival tem que salvar sua alma. Tem a visão do Santo Graal, um mar imenso se abre à sua frente. Navega, ouve pela primeira vez uma voz de seu interior – Calma. Sabe o caminho, já está traçado, só não tem ciência de como sabe. Ainda não vislumbra nada além de água. Uma paz profunda, do tamanho do mar e do céu que o cerca. Sente fazer parte de tudo isso.

 

 

                                                   II      

 

- O que tem Dr. Pedro?

- Não sei, nem reclamou de nada ainda, só entrou em sua sala e não saiu mais de lá, nem atendeu as ligações..., e o mais esquisito, sorriu e me agradeceu quando fui levar o café.

 

 

 

III

 

- Não sei Marina, fui um menino de saúde frágil, magro, pequeno, tive sempre que gritar muito para ser respeitado. Acabei ganhando as eleições escolares para líder de turma. A partir daí, vi que podia vencer. Casei-me com Glória para dar melhor chance ao meu destino, ela era rica, o pai influente. Trabalhei durante a ditadura em prol dos militares. É Marina mesmo o seu nome?

- Que importa?

- Eu gosto. Vem de mar.

 

 

 

IV

 

 

- Você não vai ao jantar, Pedro?

- Não Glória, avise, por favor, arrume qualquer desculpa, vou ver minha neta.

- Jesus, finalmente! Você vai falar com Cristiano?

- Vou tentar.

 

 

V

 

- Fui ver minha neta ontem.

- Como é mesmo o nome dela?

- Vitória.

- Você fez as pazes com seu filho?

- É estranho não é? Ele passou a vida me desafiando, criticando. Penso até que a gravidez repentina da namoradinha foi para me atingir. Imagine, casar com a filha daquele calhorda do Félix.

- Talvez só quisesse te chamar a atenção.

- Ele trabalhou contra mim nas campanhas, até escândalo fez durante um discurso meu. Patrícia é diferente, mais calma, mas se tornou fútil igual à mãe. Hoje me sinto responsável por tudo isso, passei a vida viajando, preocupado com minha carreira política. A culpa tem me atormentado.

- Mas você foi ver sua neta. Falou com seu filho?

- Sim. Ele chegou a me alfinetar falando da mãe, mas fingi não ouvir. Acho que chegamos a nos entender um pouco, pela primeira vez. Minha neta é linda, sabe? Parece com ele. Só espero que não tenha herdado seu temperamento.

- Talvez seu filho tenha herdado o seu.

Pedro olha assustado.

 

 

 

VI

 

 

Percival chega à ilha. Depara com um pequeno menino que lhe ofereceu um cálice, porém, quando se aproxima, o menino se transforma num imenso monstro querendo devorá-lo. Ele foge, refugia-se numa caverna. Homens o capturam e o levam a um ritual bizarro onde é condenado à morte. Todos dançam, ele observa, com uma enorme sombra pesando sobre si, querendo esmagá-lo sobre o solo. Aquelas estranhas pessoas começam ter relações sexuais por dentre a mata, casais variados, escolhidos por um líder. Percival é conduzido a uma caverna. É chegado o momento. Jogam-no em um poço úmido. Do outro lado surgem duas crianças luminosas. Um menino, aquele que encontrou ao chegar, e uma menina, trazendo uma taça de metal antiga. Aproximam-se sorrindo. Percival se espreme contra a parede, as crianças o olham sorrindo, o menino lhe acaricia os cabelos, a menina lhe oferece a taça, ele bebe, é sangue. No instante seguinte uma força enorme o traciona para fora, tudo é luz, num azul imenso.  Sente uma paz suave e alegria. Mergulha no mar e depois o sobrevoa, está livre.

 

 

 

VII

 

 

- Pedro, até quando você vai aguentar estas pressões? Me contaram que no partido estão te chamando de Judas. O que acontece com você meu marido?

- Vou largar a política, vou ficar só com o escritório de consultoria.         Quero que Cristiano trabalhe comigo.

- Jesus ouviu minhas orações! Graças a Deus! Foi Nossa Senhora! Mas será que ele vai?

 

 

 

VIII

 

- Falei com Cristiano ontem, ele disse que ia pensar, mas senti uma certa alegria em sua voz. Penso que vai sim. Só não creio Marina, que vá ser fácil para nenhum de nós dois.

-  Se vocês se conseguirem se unir, penso que irão muito além do que imaginam, em todos os sentidos.

- Cristiano espelha tudo que eu não quis enxergar durante toda a minha vida, não sei o quanto vou aguentar. Nem sei se estou me punindo ou buscando a felicidade.

- Talvez seja o caminho que você tem que percorrer. Mas quando estiver muito difícil, lembre-se de que ele é apenas um menino, seu filho.

- Passamos uma vida acreditanto, ou fingindo para nós mesmos que acreditamos no que fazemos. Esmagamos, destruímos  em nome de uma vaidade travestida de valores maiores.

- Tudo isso para disfarçar aquele menino frágil, magro, pequeno que está aí escondido, e que se parece com seu filho, não é?

- Deixa eu deitar no teu colo. Será que estou me apaixonando por você?

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