Pesquisa: crianças negras têm redação escolar subavaliada

A pesquisa relatada abaixo precisa ser ampliada. Mas traz um indício forte de que é o que acontece no dia-a-dia das escolas.

Talvez possamos explicar este resultado, alternativamente, a partir de conceitos disponibilizados por teorias de linguagem: a leitura (ou outra qualquer outra modalidade do dizer) é atravessada necessariamente pelo imaginário. Socialmente, e pela própria historicidade das relações entre os grupos sociais, espera-se de uns mais do que outros, em diferentes atividades.

Essas projeções imaginárias são naturalizadas, geralmente inconscientes para nós. Vemos um menino negro e quase que exigimos dele que seja bom de bola. Mas quando pensamos num perfil de médico, dificilmente vem a nossa mente a imagem de um médico negro, com exceção daquelas pessoas que já conheceram um e que têm alguma proximidade.

Estas projeções interferem seriamente nos julgamentos, e é preciso que haja um trabalho mais sério na formação docente, para que este fator, que, repito, pode ser inconsciente, não acabe prejudicando desnecessariamente o aluno negro (e com isso comprometa todo o seu futuro, na medida em que pode ir convencendo de uma suposta incapacidade).

Outra questão deve ser destacada: a imagem que esses alunos negros fazem de si mesmos também deve ser levada em consideração. Há que ter um trabalho especial sobre eles. Principalmente por causa do que se chama hoje de "bullying", que afeta crianças que não atendam aos padrões estéticos ou sociais do meio em que estuda. Não é difícil ouvir na escola, quando se é uma criança negra, apelidos (macaco, tizil), julgamentos ("negro burro", o que associa o adjetivo à cor da pele, etc), que podem para alguns afetar diretamente sua auto-imagem.

Não preciso nem acrescentar que esta auto-imagem é violentada dia após dia pelos meios de comunicação, TV em particular, onde pouco se encontra um arquivo visual de negros bem-sucedidos, ocupando cargos avançados na sociedade.

Sem auto-estima, muitos ficarão pelo meio do caminho. É triste. Mas é verdade. Ou seja: há uma questão específica para o aluno negro. Por isso a importância da investigação abaixo. Parabéns para a Universaidade Federal de Sergipe por ter patrocinado esta pesquisa.

Universidade Federal de Sergipe

08/06/2009 Criança negra tem desvantagem na sala de aula, revela pesquisa Conclusão se deu após avaliar comportamento de professores em relação à etnia dos alunos

A situação das crianças negras em sala de aula é desvantajosa, constatou pesquisa empreendida pela UFS com futuros professores. Eles apresentaram atitudes e comportamentos diferenciados em função da etnia dos alunos. A formação inadequada desses profissionais, porém, acaba influenciando a maneira como se colocam em sala de aula.

O estudo chegou à conclusão através das análises do julgamento que os professores fizeram em cima de redação escrita por um aluno do ensino fundamental e de um questionário com perguntas sobre temas étnicos, como preconceito e racismo. Para alguns professores, na redação estava anexada uma foto de uma criança negra e para outros, a de uma branca.

Duzentos e oito componentes da antiga Escola Normal e do curso de Letras da UFS participaram do trabalho. Num universo de zero a dez, os membros da Escola Normal atribuíram notas superiores à redação da criança branca face à negra: 7,8 contra 7,4. Já os alunos da UFS conferiram nota 7,1 para a negra e 7 para a branca. Apesar da diferença pequena em números, foram nos critérios estabelecidos nos questionários que o preconceito se expressou acentuadamente.

“As teorias que estudam o preconceito e o racismo vão dizer que há uma tendência a avaliar pessoas brancas usando características de competência e critérios internos, enquanto quando se avalia as crianças negras usam-se critérios superficiais ou externos”, explica a professora Dalila Xavier, do Departamento de Psicologia.

Houve uma tendência dos futuros professores para avaliar que o texto da criança branca era mais criativo e que ela possuía a idade adequada para produzir aquele conhecimento. Enquanto para a avaliação da criança negra consideraram o esforço para a construção do texto e a caligrafia.

“Pretendemos continuar a pesquisa investigando o porquê da diferença das avaliações”, diz a estudante Carla Jesus de Carvalho, que também atuou na pesquisa. “O que mais chamou atenção foi a questão das diferenças dos sujeitos. Na Escola Normal a maioria deles origina da classe média baixa e possui um nível educacional mais baixo, enquanto os sujeitos da UFS participam de classe econômica e nível educacional mais elevados”, completa.

Formação deficiente

Apesar de os resultados, em geral, não demonstrarem uma discriminação das crianças, observou-se que os futuros professores têm uma formação inadequada acerca de questões étnicas e raciais, o que acaba influenciando o modo como eles se portam em sala de aula.

A pesquisadora Carla aponta a ausência de disciplinas a respeito de assuntos como preconceito e discriminação, e a escassez de material didático que demonstre o papel dos negros na história, como justificativas às atitudes dos estudantes da área pedagógica.

Segundo ela, os livros didáticos são muitas vezes mal formulados e os professores tendem a aplicá-los como verdade absoluta. “Neles os negros são estereotipados e lembrados apenas por sua participação na história do Brasil, principalmente quando se fala em escravidão”.

É justamente o comportamento do professor, ao assumir a figura de autoridade, que pode colaborar para a existência ou não do preconceito entre os alunos. “Numa sala diversa, se o docente não tiver uma formação adequada para lidar com essas diferenças, pode levar consigo estereótipos e tratar as crianças de forma diferente. Mesmo que se apresente de forma sutil, elas percebem o preconceito e podem se sentir inferiores em relação às demais”, lembra.

“Velado ou declarado o preconceito impede a criança de criar as suas próprias estratégias de defesa e consequentemente mina sua identidade. A rejeição leva a uma sensibilidade emocional que as impede de se concentrar nas suas atividades, e isso pode ter repercussão no seu desempenho escolar”, diz a professora Dalila.

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Comentário de Rubens de Araujo Rossi em 16 junho 2009 às 18:20
Aproveito o espaço para cumprimentá-lo pelo comentário no post "Os novos atores da história".
Rubens.
Comentário de Lívia Coelho de JEsus em 2 setembro 2009 às 20:56
Manda esse estudo pra ALi Kamel e pra o Demetrio Magnoli

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