Petrobras se torna uma das maiores empresas do mundo no setor petrolífero - Nicolas Bourcier (Le Monde - 03.01.12)

- A presença de gigantescas reservas de petróleo em águas profundas na costa de Santos e do Rio de Janeiro fez com que a presidente Dilma Rousseff dissesse que havia “fortes indícios de que Deus é brasileiro”. Ela poderia ter incrementado a metáfora religiosa, acrescentando que José Sérgio Gabrielli era seu profeta.

Funcionária da Petrobras exibe amostra de petróleo extraído da camada pré-sal, na plataforma marítima P34, em Vitória (ES)

Esse homem de 62 anos é o sortudo presidente da Petrobras desde 2005. A companhia nacional de petróleo brasileiro, que se tornou uma das cinco maiores capitalizações do mundo. A maior empresa da América Latina. Talvez até mesmo a primeira do mundo, à frente das americanas ExxonMobil ou da Apple, nos próximos dez anos. “É difícil prever, em razão de uma ou outra aquisição, mas nosso crescimento é efetivamente o mais rápido”, ele explica, em tom modesto, quase contido.

Em 2010, a Petrobras realizou um levantamento de fundos no total de US$ 70 bilhões. Essa operação, a maior já realizada na história do capitalismo moderno, era destinada a financiar um programa de investimentos de US$ 224,7 bilhões (R$ 411 bilhões) entre 2011 e 2015. Mais que o orçamento da NASA utilizado nos anos 1960 para enviar um homem à Lua, segundo o economista Normal Gall, diretor do Instituto Fernand Braudel, em São Paulo.

Hoje, a Petrobras viu seus lucros aumentarem mais de 30% nos últimos trimestres. A conjuntura econômica? “Nós não prevemos nenhum grande problema de financiamento em razão da crise em 2012”, pondera Gabrielli, a menos que ocorra “uma catástrofe econômica mundial”. Talvez uma maneira de evocar o medo e a falta de entusiasmo dos meios empresariais em relação aos títulos da Petrobras observados há algumas semanas em diferentes Bolsas.

A gigante do petróleo pretende dedicar os US$ 18 bilhões captados em 2011 aos investimentos do novo ano, que deverão chegar a US$ 43 bilhões. “Hoje, dispomos de US$ 26 bilhões em dinheiro, ou seja, a liquidez financeira necessária”, ele diz. “Claro, as linhas de crédito podem se retrair na Europa e nos obrigam a ir buscar em outros lugares”, ele diz, antes de acrescentar no mesmo tom: “Nossa empresa está se saindo bem, com resultados diários acima das previsões”. A ponto de ter se tornado o combustível das ambições brasileiras.

A produção da Petrobras totaliza atualmente 2 milhões de barris por dia. O ouro negro proveniente das novas jazidas descobertas no final de 2007 – o chamado petróleo “pré-sal”, enfurnado a 7 mil metros de profundidade e sob uma espessa camada de sal – representa 180 mil barris, ou seja, 10% do total. Em 2015, o pré-sal representará 18% da produção, segundo Gabrielli, e 40% em 2020, ou seja, 2 milhões de barris de um total previsto de 4,9 milhões. Quase 1,5 milhão de barris serão destinados à exportação. “O pré-sal aumenta em três vezes as reservas de petróleo do país, e em duas sua produção”, ele diz. Ele poderá fazer do Brasil o 4º maior produtor mundial de petróleo, em 2030.

“O mercado muda, mas nossas ambições permanecem muito elevadas. Segundo nossas previsões para cinco anos, a demanda europeia inegavelmente cairá, ao passo que se espera um forte aumento do consumo na China, na Índia, na África e na América do Sul”, observa Gabrielli.

“A Petrobras hoje se distingue de suas concorrentes por ter um mercado quase que exclusivamente local”, ele diz. Três números para dar a medida da situação: 90% da produção vêm do Brasil, mais de 80% das vendas são destinadas ao consumo interno e 80% das receitas são originadas do mercado local em pleno crescimento: “Nossa atividade desenvolve toda a cadeia industrial do país. É como um círculo, um sistema de trocas econômicas integradas”.

Relação público-privado

Hoje, a Petrobras representa 10% do total dos investimentos do país. “Nós somos uma velha empresa de 57 anos, inicialmente privada e que se tornou semipública, ao contrário de muitas outras”, diz Gabrielli. O Estado detém ali 54% dos direitos de voto. Uma situação que obriga a empresa a efetuar certos contorcionismos, como uma manutenção de seu preço da gasolina e do diesel na bomba. Os salários ali também são mais altos que em outras empresas, quase 10% maiores que no setor privado. Uma relação público-privada muitas vezes difícil, mas de alto padrão e eficaz, de acordo com diversos especialistas.

“O governo possui o controle e, todos os meses, temos uma reunião estratégica”, explica Gabrielli, que diz, como se para informar que os diferentes atores conhecem as questões: “A presidente Dilma Rousseff atuou sete anos na diretoria da Petrobras quando era ministra da Energia”. Ele mesmo acaba de ser nomeado executivo do ano pela Energy Intelligence Group, uma associação que reúne as cem maiores empresas petroleiras do planeta.

O único porém é a maré negra provocada na costa do Rio, em novembro de 2011, pela americana Chevron. Gabrielli se recusa a comentar o caso: “Eles são coacionistas em certas áreas do pré-sal.” O incidente, no entanto, provocou a ira das autoridades brasileiras.

Tradução: Lana Lim

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