Então. Eu precisava de pedregulhos para o fundo do vaso em que pretendo plantar uma mudinha de pimenta. O vaso vai ficar na varanda, ao lado do alecrim azul que ofereci para a Maria Magnoni, em troca do fermento de garrafa dela. Foi uma transação poético/comercial que não deu certo porque ela está aí no Brasil e eu moro no Japão. Sou um carcamano no oriente.

Percebi que cascalho de rio resolveria meu problema e, por acaso, há um riozinho que passa bem junto da minha casa. Como esta é uma atividade do meu primeiro dia de férias em anos, decidi principiá-la com uma cerveja. Tenho o hábito de conversar com o Kami deste rio, conversas que são sempre melhores com uma cerveja. Um Kami é um Deus, mas não é um Deus como Esse que vocês têm aí, porque o Kami é muito mais acessível. Parece mais com os Deuses da África, que nós também temos aí.

Mas voltemos ao cascalho da pimenta, que é o começo desta história. Foi fácil escolher as pedrinhas que precisava: fui até o meio do ribeirão e apanhei, colocando-as no saquinho que me deram quando comprei a tal da latinha de cerveja. Uma latinha, diga-se, porque a cerveja aqui é excelente, mas é muito cara. Enquanto eu catava os seixos, com água pelos joelhos, carpas recém nascidas brincavam nos meus dedos. Mais adiante havia uma família de tartarugas tomando sol e, do outro lado, uma garça almoçava carpinhas mais azaradas. Sim, vida por todos os lados num riozinho que atravessa kilômetros de zona urbana densamente povoada.

Eu nunca vi nada parecido no Brasil. Nunca.

Digo isto para que tenhamos mais respeito quando falarmos de Fukushima.       

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