No prefácio de sua "Antologia dos poetas brasileiros bissextos contemporâneos" (Zélio Valverde, 1946), Manuel Bandeira aconselha-nos a não procurar a expressão "poeta bissexto" em dicionários. Depois, define como bissexto "aquele em cuja vida o poema acontece como o dia 29 de fevereiro do ano civil". [1] Ou seja, aquele que faz poesia só de vez em quando.
Vinicius de Moraes exemplificou:
"Bissexto é um Pedro Dantas cujo poema "A cachorra" [2] passou a ser uma obra-prima da literatura brasileira. O mesmo se pode dizer de "O defunto" [3] de Pedro Nava, uma das peças mais belas e mais sinistras da nossa poesia. Bissexto é um Aníbal Machado, escritor esporádico, em quem o verso é uma espécie de estado de graça que assoma entre largos períodos de sombra; um Dante Milano, notável pela unidade da sua forma poética, de grande pureza; um Joaquim Cardoso, cuja produção se recusa à intimidade dos que lhe são mais chegados, tão íntima quer ser; um José Auto, poeta que se tem dez poemas, terá muito, mas em quem a poesia é uma fatalidade de condição. Bons poetas que futuramente figurarão, estou certo, ao lado da melhor poesia brasileira." [4]
Antes de se dedicar ao gênero memorialístico, Pedro Nava era conhecido como "poeta bissexto", ou seja, aquele que faz poesia só de vez em quando. Seus primeiros poemas surgiram ainda na década de 20, quando Nava fazia parte do grupo que introduziu o modernismo em Minas Gerais. Esse grupo era formado, em sua maioria, por rapazes que estudavam em Belo Horizonte e que se tornariam nomes fundamentais para a política e a cultura brasileiras: Drummond, Emílio Moura, João Alphonsus, Milton Campos, Abgar Renault, Cyro dos Anjos, dentre outros.[5]
Da produção esporádica, porém vigorosa, de Pedro Nava seu melhor momento é considerado o poema "O defunto", que prenuncia as atitudes do autor em relação à morte.


Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também.


A "Antologia..." organizada por Bandeira reúne várias obras de poetas bissextos. Não deixa de ser uma curiosidade uma passada de olhos no índice onde encontramos nomes que não suporíamos ligados à produção poética, ainda que de quando em quando. Para se ter ideia fazem parte da relação: Aurélio Buarque de Holanda (mais tarde o "Aurélio" que conhecemos pelo seu dicionário), o pintor Di Cavalcanti, Gilberto Freyre, autor de “Casa Grande e Senzala”, Euclides da Cunha, autor de "Os sertões", o cronista Rubem Braga e muitos outros.

Referências
[1] http://www.ayrtonmarcondes.com.br/blog/?tag=antologia-de-poetas-bra...
[2] http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/brasil/pedro_dantas.html
[3] http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/brasil/pedro_nava.html
[4] http://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/colunistas/wilson-martins/...
[5] http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/o-poeta-bissexto/


N. do E.
Paula Nei (1858–1897) – Nascido em Aracati-CE, não escreveu nem dez poemas, não deixou livro publicado, mas sabia da importância de juntar-se aos bons. Em sua boemia literária no Rio de Janeiro, Paula Nei costumava dividir a mesa com Aluízio Azevedo, Coelho Neto, Olavo Bilac e outros. O poeta fez duas "sacadas" geniais: a expressão "Fortaleza, a loura desposada do Sol", que figura no soneto que escreveu para a cidade, e a frase "pelo Brasil, eu morro; pelo Ceará, eu mato", que citava como prova de seu amor à terra natal. Virou nome de rua na Aldeota, em Fortaleza. Mereceu.
In: Para que serve o secretário de um poeta?
29/02/2012 – Leaplings


Rodapost
Os anos e dias bissextos são comumente associados a imagens de sapos ou rãs saltando. O doodle do Google neste 29 de fevereiro vem com três coelhinhos. Dois estão deitados, o “28″, referindo-se a 28 de fevereiro, e o “1″, de 1 de março. Do lado de fora, o “29″, que pula no meio dos dois “coleguinhas” e se espreme ali entre eles, representando o 29 de fevereiro.


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