Por Fabio Victor
Pola é argentina, filósofa, inteligente e bonita. Tem um blog sobre orquídeas. Seu primeiro romance, publicado quando ela tinha 31 anos, despertou amor e ódio na Argentina e foi aclamado na Espanha. Ela agora tem 33.
Pola é uma nerd assumida, vive entre hackers e escreve artigos sobre tecnologia. Pola surfa. Canta num dueto que musica poemas de uma duquesa do século 17.
Filha de um engenheiro naval com uma psicóloga forense, escreveu o primeiro romance aos oito anos. Tem outros quatro engavetados.
Antes de filosofia, estudou medicina.
Embora se diga uma “tímida evoluída”, é louca por moda e posa para retratos como garotinha, mulher fatal ou pin-up. É mais exuberante em fotos que pessoalmente.
Citando Alexandre Kojève, define-se politicamente como “marxista de direita”.
Pola pinta as unhas de azul e mora numa casa de cinema em Bariloche. Gosta de escrever em inglês, alegando que é um idioma mais conciso que o espanhol. Parece tipo, mas compõe à perfeição a persona literária interessantíssima que ela se esforça para compor, embora nem precisasse, porque de fato é.
A obra que a lançou ao mundo e foi a senha para que ela integrasse uma antologia dos melhores novos ficcionistas de língua espanhola da revista britânica “Granta” chama-se “As Teorias Selvagens” e sairá no Brasil no final deste mês pelo selo Benvirá, da editora Saraiva.
É uma bem construída gozação sobre o “mise-en-scène” ridículo de certo mundo acadêmico e político portenho, aqui situado na Faculdade de Filosofia de Buenos Aires, onde Pola estudou. A narradora é uma aluna que tenta seduzir um velho professor renovando uma teoria já usurpada por ele a um (ficcional) antropólogo holandês, segundo a qual “a presa é a causa do homem”.
O romance também corrói a esquerda argentina refém ideológica dos anos de chumbo da ditadura.
E é, ao mesmo tempo, a crônica de um casal de nerds feios que, mais evoluídos que os pais esquerdistas, agora fazem ciberguerrilha (hackeando o Google Earth e reduzindo a “guerra suja” da ditadura argentina literalmente a um game, o Dirty War 1975) e curtem orgias –gravadas no celular e jogadas na internet– em festas regadas a quetamina (anestésico para animais).
Outro dia apareceu no blog de Pola um post em que ela dizia ser um homem (havia uma foto dele), mas incorporara aquela mulher bonita (foto dela) só para promover seu livro no Brasil.
“Se você for mulher, eu poderei deixá-la chupar o meu impressionante e belo pau (se for homem, pode chupar também, não me importo)”, estava escrito. O post sumiu depois de alguns minutos (depois reapareceu resumido). Pola disse que foi brincadeira de um amigo.
Pola define “As Teorias Selvagens” como uma “comédia sobre os jogos tecnológicos e sexuais da juventude contemporânea”.
O escritor Ricardo Piglia a saudou como “o grande acontecimento da nova narrativa argentina”.
Para a ensaísta Beatriz Sarlo –que Pola abordou num hotel em Salvador em meio a um temporal e lhe pediu para ler o livro– é um “tratado de microetnografia cultural”.
Em sua resenha do livro, Sarlo usou adjetivos como “inteligente” e “exuberante”, mas também fez reparos à intertextualidade forjada em tempos de Google, que no livro se reflete no acúmulo de citações e referências.
Pelas páginas desfilam Montaigne (a gatinha da narradora), Hobbes (seu mentor filosófico), Kant, Clausewitz, Plutarco, Platão, Leibniz (seriam necessários parágrafos para citar todos).
É um dos motivos que fez do livro muito falado entre escritores e intelectuais, mas pouco vendido na Argentina. Pola informa que foram 3.000 cópias, um crítico diz que não chegou a 2.000.
“As Teorias…” evocam o francês Michel Houellebecq, de quem Pola admite influência. Mas ela diz que gosta mesmo é do alemão Peter Sloterdijk e que as maiores influências foram “Fogo Pálido” e “Lolita”, de Nabokov.
Pola começou a escrever o livro em 2005, estimulada pela escritora americana Maxine Swann, sua melhor amiga, que a fez ver que “o mundo das ideias não está separado do mundo da diversão”.

Fábio Victor é jornalista da Folha.com.
Picinez: Pola tem um gato de estimação chamado Gmail!
Caricatura: João de Deus Netto - Picinez

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