Política & Economia NA REAL n° 83


por
Francisco Petros e José Marcio Mendonça
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Terça-feira, 22 de dezembro de 2009 - nº 83

Obama : totalmente condicionado

Não foi apenas o belicoso discurso quando da entrega do Nobel da Paz deste ano. Não foi o papelão protagonizado em Copenhague na conferência da ONU sobre o clima. Também não foram as propostas para a solução final dos riscos geopolíticos do Afeganistão. A verdade é que quase todas as iniciativas de Obama demonstram a sua incapacidade de manobrar politicamente na política externa em função dos condicionamentos domésticos. As pressões do Congresso norte-americano no que tange as reformas no sistema de saúde, bem como os condicionamentos fiscais (inclusive de sua bancada), tornaram o ex-ícone Obama em refém para exercer o papel de príncipe do mundo. Este é um risco substantivo para o império. Como se sabe, qualquer império tem de ter dois poderes básicos : liderança e coercitibilidade. Obama está a perder os dois.

Federal Reserve: a nova onda de especulação

Não resta dúvida nenhuma, a nosso ver, que o banco central dos EUA está sendo transparente em relação a sua política. Todavia, a cada ata divulgada, a cada pronunciamento dos membros do comitê de política monetária e a cada ação dos outros principais bancos centrais há uma onda de notícias sobre a saída do BC dos EUA da sua política monetária de taxa negativa de juros. Isto não tem relação apenas com o que o Fed está a fazer. O que acontece é que são gigantescas as posições contra o dólar. Os investidores tomaram dinheiro em dólares e investiram em outras moedas, inclusive em moedas de países emergentes. A reversão deste processo tem de ser lenta. Todavia, os melhores fundamentos da maior economia do mundo podem estar a indicar que o pior já passou e o dólar pode voltar a subir. Se isto ocorrer, a velocidade de reversão das posições pode proporcionar grandes variações nas moedas, fato este que é risco muito perigoso. É aí que reside o problema : na especulação contra o dólar norte-americano.

Real forte ?

Há quase uma unanimidade em torno da ideia de que a moeda brasileira se manterá forte no próximo ano. Como já falamos em diversas colunas, não há nenhum modelo confiável para se fazer previsões em relação às moedas. Nossa opinião - não é profecia, como muitos estão a fazer no mercado - é que não é razoável acreditar em substancial valorização do Real frente ao dólar nos próximos meses. Ao contrário : recomendamos neutralidade em relação a esta possibilidade. A economia norte-americana pode continuar mais frágil relativamente ao resto do mundo, mas esta não é uma possibilidade dominante como era no início de 2009. Portanto, muita cautela.

Bolsas dos EUA

Se a economia dos EUA mostrar sinais de fortaleza, há razões fundamentais para acreditarmos que o mercado acionário norte-americano deve ser um dos destaques no ano que vem. Tal qual o segmento dos emergentes foi neste ano.

Radar NA REAL

O cenário do mercado financeiro mundial está dado até o final do ano. Um balanço objetivo mostra que a recuperação do preço dos ativos foi espetacular. Os efeitos das políticas de estímulos monetários e fiscais surtiram efeitos e uma recessão profunda foi descartada. Daqui pra frente os investidores se importarão com as duas questões básicas para decidirem sobre seus investimentos : (i) qual a taxa de crescimento sustentável das economias, sobretudo as economias desenvolvidas ?; (ii) como os governos e bancos centrais sairão das políticas de estímulos ? Se a resposta para a primeira questão for "uma taxa baixa de crescimento", haverá decepção generalizada nos mercados. Quanto a segunda questão a preocupação precípua dos investidores é se haverá inflação em função dos déficits fiscais e da taxa de juros negativas em todo o mundo. De nossa parte, acreditamos que os diversos segmentos do mercado mundial mantêm-se saudáveis. Não há razão objetiva, até o momento, que possa justificar previsões pessimistas. O cenário é de moderado otimismo. Se há uma "bolha" no mercado mundial, esta é a do ouro. A especulação domina este mercado. Não há uma hiperinflação a caminho como sugerem alguns. O ouro não é hoje uma reserva de valor. Trata-se de uma especulação sem limites. No que se refere aos mercados emergentes, em geral, e ao Brasil, em particular, o cenário é positivo, muito embora os investidores tenham antecipado em larga medida o cenário saudável para o Brasil, a Índia e a China. Não esperamos grandes desvalorizações do mercado. Todavia, não acreditamos em excepcionais valorizações. Seja das ações, das moedas ou dos ativos de renda fixa.

(...)

Aécio e a sucessão : mudar para não mudar

A melhor definição para a estratégia do governador de MG, não sua renúncia à candidatura à presidência da República pela coligação comandada pelo PSDB, foi dada por um grande conhecedor da alma política do governador e de MG : "O jogo ainda não acabou." Na realidade, Aécio fez o seu lance para continuar em campo e com trunfos decisivos. Primeiro, põe em xeque o governador José Serra, obrigado a começar a atuar como candidato, mesmo sem querer. Complica a situação de Serra a ascensão de Dilma na pesquisa DataFolha. Isso aumenta suas dúvidas sobre se vai concorrer ou não ao cargo maior de Brasília em 2010. Segundo, põe em alerta o governo. Embora tenha tentado vender que temia mais a disputa com Aécio do que com Serra, a verdade é o contrário. O governo só teme mais Serra se ele vier numa chapa junto com Aécio. E Aécio não descartou nenhuma hipótese - nem o Senado, nem a presidência, nem a vice-presidência. Como se diz em MG, depois do lance de quinta-feira ele está onde sempre esteve. Somente para se ter uma ideia, já começaram a pipocar no Estado cartazes com os seguintes dizeres : "Agora ou mais na frente, Aécio presidente". Em MG, como se sabe, em matéria de política nada nasce espontaneamente, nem cafezinho é de graça.

Aécio e o espírito de Minas

Para entender o lance de Aécio é preciso conhecer a história do folclore de dois políticos mineiros, também atribuída a outras culturas políticas, exemplo máximo de dissimulação que é própria dos políticos e, segundo as más línguas nacionais, mais ainda de MG. Vamos a ela :

Dois políticos das Alterosas, do mesmo partido, amigos, porém disputando os mesmos espaços, teriam se encontrado no aeroporto da Pampulha, em BH. Um chegando e o outro partindo. Depois dos cumprimentos de praxe, perguntas sobre a vida e a família, a comadre, o afilhado e comentários sobre o quadro político, o que estava desembarcando perguntou ao outro, assim meio desinteressado :

- Fulano, para onde você está indo ?

- Vou para o RJ.

Lembrete : era a situação de crise e Brasília ainda não havia se fixado como capital política do país. Era apenas a capital administrativa. O RJ era a política. Despediram-se e o que chegara a BH comentou com um assessor enquanto pegavam o carro :

- Sabidinho o fulano. Ele me disse que ia para o RJ para eu pensar que ele estava indo para Brasília. Mas ele está indo mesmo é para o RJ, para conspirar.

O coração de Minas

Caso se confirme a desistência de Aécio, o legado eleitoral de Serra como candidato tucano à sucessão de Lula vai depender de como os mineiros lerão a saída de seu governador da disputa. Se MG sentir - não precisa ser o fato, mas apenas sentir - que Aécio foi prejudicado por Serra e pelos tucanos paulistas que lideram o PSDB, vão faltar votos para o governador paulista em MG.

Triângulo das bermudas

Com mais de 35% dos votos nacionais, SP, MG e RJ podem acabar com uma candidatura presidencial. Por mais que as outras regiões dêem vantagem a este ou aquele, quem vacilar nesse triângulo terá muitos dissabores.

Quem vai para Minas

Depois da desistência de Aécio, os marqueteiros de Dilma vão correr com o projeto de identificar mais a candidata de Lula com o Estado natal dela. Embora tenha feito carreira política no RS, Dilma nasceu em BH e foi mocinha de festas na capital mineira. Está surgindo a "candidata uai".

Um atropelo

No governo cresce a preocupação com o comportamento do deputado Ciro Gomes e de seu partido o PSB. Ciro está cada vez mais agressivo contra a aliança PT e PMDB. E o PSB está incomodado em ser deixado em segundo plano. A pesquisa DataFolha traz um dado que fortalece as teses de Ciro : sem ele na disputa (Serra contra Marina e Dilma apenas) o governador paulista pode levar a eleição em primeiro turno.

As imagens de Dilma

Os marqueteiros do governo perceberam que será mais difícil do que imaginam domar a ministra Dilma : os dois escorregões que ela cometeu em Copenhague - dizer que um bilhão não faz nem cócegas e omissão de um não em uma declaração essencial sobre meio ambiente - demonstram que ela precisa de uma vigilância constante e treinamentos permanentes.

Excesso de sabujismo

Dilma subiu na pesquisa DataFolha e boa parte dessa ascensão pode ser creditada às suas duas aparições na TV, em propagandas do PT e ao lado de Lula. Ele é o primeiro sinal de que uma transferência de votos está se dando, em que tamanho ainda não dá para saber. Porém, alguns especialistas em marketing político acham que da forma como esta identificação tem sido posta pode se virar contra a ministra. Nos dois programas ela mostrou uma subserviência, quase uma sabujice em relação a Lula, que, se repetida demais pode passar a ideia de falta de personalidade própria. Numa, quando ela insistia com o refrão "O presidente Lula nos ensinou o caminho". Noutra, quando repetiu depois da falas do presidente "concordo com o senhor, presidente".

Plataforma para vice

Pessoas do governo se irritam quando alguns apontam para o perigo de um "fator Dilma" (alguns falam também em "fator Serra") conturbar um pouco a economia nacional no ano eleitoral de 2010. Algumas posições a respeito de política econômica da ministra assustariam o mercado - também as de Serra. O governo sob o terrorismo tipo efeito Lula de 2002. No entanto, mesmo na seara oficial há quem diga que o "fator Dilma" é uma possibilidade. Veja-se o que disse, resumidamente, o presidente do BC, Henrique Meirelles, na semana passada : "Após avaliar que o país cresce em bases sólidas e sustentáveis, o presidente do BC, Henrique Meirelles, disse que o principal fator de tensão e preocupação na economia não será externo, como nos últimos 15 meses de crise global, mas as eleições de 2010." Numa análise fria e realista, afirma que os temores de mudanças nos rumos da política econômica provocarão incertezas. São remotas, no entanto, as chances de o Brasil viver um novo 2002, quando Lula foi eleito para o primeiro mandato e o país mergulhou numa crise. Para ele, o Brasil está mais sólido, mas, diante da inquietação que está por vir com as eleições, avisa que o BC não hesitará e dispõe de um arsenal para combater distorções. Não é à toa que Meirelles entrou no campo eleitoral para jogar em várias posições e que Lula faz força para o PMDB incluir o presidente do BC entre os presidenciáveis do partido. Meirelles seria para Dilma o que foi para Lula a Carta ao Brasileiros, somada ao vice José Alencar.

O poder de Eduardo Cunha

Não há quem na política brasileira não estranhe o extraordinário poder do deputado Eduardo Cunha, do PMDB, RJ, no Congresso e junto às lideranças governistas. Ele acaba de ser indicado relator do PL 29, dos mais importantes em tramitação no Legislativo, que trata das telecomunicações no Brasil e trata, entre outras coisas, das regras de serviço de TV a cabo, produção de audiovisual, diferenciações entre conteúdo nacional e estrangeiro, a permissão para que as teles entrem na área de televisão, etc. Bombas a granel e exigem grandes negociações e acordos. Pelas mãos de Cunha, diretamente ou indiretamente por meio de seus asseclas, alguns dos mais decisivos projetos no Congresso têm passado. O curioso é que o governo tem Cunha como um dos responsáveis pela derrota da CPMF em 2007. Ele segurou tanto o projeto de prorrogação do imposto do cheque na Câmara que deixou pouco tempo para alguma negociação no Senado. E veio a derrota. Cunha só liberou o projeto quando conseguiu que o governo nomeasse um apadrinhado seu para a presidência de Furnas. Ainda assim se impõe. Esquisito, mas esquisito mesmo.

Liberdade de informação

Quem disse tudo sobre as sugestões apresentadas pela 1ª Conferência Nacional de Comunicações, realizada na semana passada em Brasília, foi o Estadão em editorial : "O governo agiria mais sensatamente se mandasse todas elas [as sugestões] para a lata de lixo". Nas 600 e tantas propostas há até algumas sensatas. Mas se aplicadas 10% apenas daquelas que desejam, de uma forma ou de outra, estabelecer o controle social da imprensa, a liberdade de expressão no Brasil, na imprensa e na cultura ficarão amplamente prejudicadas.

Eles e a concorrência

A ANATEL colocou em consulta pública, na semana passada, o texto com as novas regras para a licitação da chamada Banda H, a terceira geração da telefonia celular. A agência, para ampliar a concorrência, pretende impedir que as atuais teles - celular comprem novos espaços no espectro. É duvidoso o efeito desse tipo de proibição para os propósitos visados. Mas a reação das teles, totalmente contrárias a novas companhias nesta área, mostra como elas temem a concorrência. A ANATEL, que merece ser criticada porque não atua eficientemente para ampliar a disputa pela telefonia no Brasil, vai apanhar agora porque está agindo nesse caminho.


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A coluna Política & Economia NA REAL, integrante do portal Migalhas (www.migalhas.com.br), é assinada por José Marcio Mendonça e Francisco Petros.

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Francisco Petros

Economista e pós-graduado em finanças (IBMEC). Trabalha há vinte anos na área de mercado de capitais, especialmente no segmento de administração de fundos e carteiras, corporate finance e consultoria financeira.

Foi Presidente da APIMEC- Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).



José Marcio Mendonça

Jornalista profissional, analista de riscos. Foi diretor da Rádio Eldorado, de São Paulo, e chefe de redação da Sucursal Brasília dos jornais "O Estado de S. Paulo" e "Jornal da Tarde".

Editou o "Caderno de Sábado", suplemento de cultura o JT. É editor do blog "A política como ela é" e colunista do jornal "Diário do Comércio" (SP)

Publicado em: http://www.migalhas.com.br/mig_eco_politica.aspx?cod=99580

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Comentário de severino carvalho filho em 22 dezembro 2009 às 13:49
sobre o subtítulo "Liberdade de informação" quero contrapor com este trecho de José Carlos Ruy: " Um dos saldos da Confecom foi explicitar a alienação profunda dos monopolistas brasileiros da mídia em relação ao Brasil e a seu povo, cuja imagem real não é aquela que seus meios de comunicação noticiam. Os delegados presentes à Confecom (não só da sociedade civil, mas também muitos empresários pequenos e médios) reiteraram a exigência de democratização profunda deste chamado "quarto poder" constituído pela mídia. Ele é um dos únicos "poderes", ou uma das únicas "instituições", que não viveram as mudanças democráticas do quarto de século desde o final da ditadura militar de 1964, e que vivem ainda num mundo onde impera a lógica coronelística anterior mesmo à revolução liberal de 1930. O Brasil está mudando e precisa de uma comunicação atualizada com suas novas exigências de aprofundamento da democracia, salvaguarda dos interesses populares e nacionais, e defesa da nação. O que se assistiu em Brasília, durante 14 a 17 de dezembro, foi a manifestação de que a mídia dominante não serve para isso, e precisa ser mudada. Desse ponto de vista, a 1ª Confecom foi vitoriosa, principalmente pela aprovação de medidas capazes de subordinar o caráter empresarial da mídia à sua função constitucional de informar livre, ampla e multilateralmente." ver http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=121683&id_sec...

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