População não relaciona saneamento à saúde

LILIAN MILENA
Da Redação - ADV


Saneamento não é prioridade nem para a população, nem para políticos. Um levantamento realizado em 79 cidades brasileiras, com mais de 300 mil habitantes, revelou que 31% dos entrevistados desconhecem o que é saneamento básico e, ainda, que boa parte dos afetados pela falta do serviço público não sabe relacioná-lo diretamente a problemas de saúde.

A pesquisa foi realizada pelo Instituto Trata Brasil (ITB) em parceria com o IBOPE Inteligência. Segundo dados do governo federal, a cada R$ 1,00 investido em saneamento básico, economizam-se R$ 4,00 com gastos na área de saúde – estima-se que 60% das internações hospitalares têm como origem problemas causados por deficiência em saneamento.

“Todos os meses morre no Brasil 200 crianças vítimas de doenças provocadas pelo contato com água contaminada – são 2.500 por ano – ou seja, mais do que a gripe [Influenza A – H1N1] está matando”, completa o presidente do ITB, Raul Pinho.

Para a maioria da população saneamento é sinônimo de serviços de água, esgoto, coleta de lixo e limpeza pública. Os problemas relacionados a esgotamento são os mais citados entre os moradores da favela (17%), aqueles que vivem em residências não ligadas a rede pública de coleta (22%), na população de cidades de médio porte (16%), da periferia (14%) e de cidades nordestinas (14%).

Cerca de 14 milhões dos domicílios analisados não estão ligados à rede pública coletora, ou seja, 20% dos entrevistados – sendo 42% desses de cidades do Nordeste e 29% em cidades de pequeno porte. “Nota-se que quanto menor é a renda, a escolaridade e a classe social do entrevistado, menor é o percentual dos que estão ligados à rede”, completa o relatório.

Campanha eleitoral

Segundo a maioria dos pesquisados, os serviços de esgoto não foram percebidos como uma preocupação dos candidatos a prefeito em 2008 – para 31% dos entrevistados houve preocupação dos candidatos, para 61% os candidatos não demonstraram interesse pelo tema e 9% não souberam responder. Por outro lado, a pesquisa também constatou que o tema não é apontado como item decisivo na escolha dos governantes: 19% levou em consideração propostas para a saúde, nas últimas eleições, enquanto apenas 2% disseram ter avaliado propostas de esgotamento sanitário.

Mobilização

Ao mesmo tempo, 84% dos pesquisados nunca realizaram reivindicações ou cobranças pela falta de serviços. “As taxas são mais expressivas entre os moradores de cidades de menor porte (88%)”, completam.

Além de 31% afirmarem que desconhecem o que é saneamento básico, 28% não têm ideia da destinação do esgoto e 26% não souberam explicar porque a qualidade de vida tende a melhorar a partir da forma como os resíduos e efluentes são coletados e tratados.

Nos estados mais ricos, 87% dos entrevistados reconheceram a importância do saneamento. Em contrapartida, entre as populações sem ligação a rede de esgotamento, 71% entendem que o setor é uma importante política pública, a aceitação também cai entre os moradores das periferias (70%), de cidades do Nordeste (69%) e de favelas (64%).

“Os mais afetados pela ausência de saneamento são justamente os que lhe dão menos importância possivelmente por uma condição de vida tão precária que os leva a outras prioridades”, consideram os pesquisadores. Temas como violência, saúde e educação estão a frente em relação ao saneamento, e grande parte dos entrevistados não soube relacionar a importância de um tema ao outro. Por exemplo, enquanto 19% consideram que ambas (saúde e saneamento) são importantes e devem receber o mesmo grau de atenção, 76% têm a saúde como prioridade, e 5% o saneamento.

Qualidade de vida


A maioria dos entrevistados apontou conseqüências negativas em função da falta de coleta e tratamento – cerca de 70% – mas essa proporção também foi menor no quesito Doenças/Problemas de saúde entre aqueles que vivem em residências não ligadas à rede (66%) e moradores de favela (64%). Segundo o presidente do ITB, isso se dá porque “embora a população saiba que não ter saneamento signifique ter mais casos de dor de barriga, doença do rato [leptospirose] e hepatite”, ao ter problemas de saúde, preocupasse diretamente com a qualidade em hospitais, por ainda não entender que medidas preventivas então ligadas à eficiência dos serviços sanitários.

“Está provado que o investimento em saneamento dá muito retorno ao município que deixa de gastar quatro vezes mais em tratamento de doenças. Só no ano passado o Brasil gastou 1 bilhão de dólares com o tratamento da dengue. A doença não está ligada diretamente a questão do esgoto, mas sim a qualidade do saneamento ambiental, portanto isso poderia ser evitado se não tivéssemos problemas com lixões nas cidades”, ressalta.

O ITB juntamente com o IBOPE considera que para que esse panorama mude é preciso tornar a causa da universalização dos serviços sanitários visível a partir da conscientização da população sobre o tema mostrando que existem áreas diretamente ligadas ao saneamento (em especial saúde). A mídia tem papel fundamental nessa ação, já que 89% dos entrevistados disseram ter a televisão como a fonte que mais utilizam para se informar.

Clique aqui para acessar o estudo na íntegra.

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