Uma das grandes aspirações das reformas liberais do mercado elétrico nos anos 1990s era afastar as influências políticas das decisões do setor elétrico. Na avaliação dos reformadores, essa intromissão do Estado nesse setor era deletéria e deveria ser expurgada.
Nesse sentido, tanto a intervenção direta do Estado, através da atuação de empresas estatais, quanto a indireta, através da regulação de caráter administrativo, deveriam ser eliminadas. No primeiro caso, a solução proposta era a privatização, e, no segundo, a introdução da competição. Desse modo, garantia-se a liberalização da atuação das forças de mercado e afastava-se a má influência do Estado, no limite da política, nessa atividade econômica.
É dessa concepção reformista, que nasce a idéia da blindagem dos reguladores e dos marcos regulatórios, como recurso definitivo às mudanças imprevisíveis geradas pelos intempestivos ventos da política. Impossibilitados de evitar as alternâncias de poder, naturais do jogo democrático, os reformadores partem para a suspensão dos seus efeitos, colocando o setor elétrico no interior de uma cápsula à prova das corriqueiras e pedestres mudanças criadas pelos voláteis humores dos cidadãos.
Contudo, há um problema essencial com essa proposta de suspensão da dimensão política do setor elétrico, que não diz respeito apenas ao seu forte caráter ideológico, mas à abstração de um traço definidor, e, portanto, impossível de ser desconsiderado, do próprio objeto em questão: a natureza intrinsecamente política das decisões finais sobre as regras, as normas e as organizações que garantem a operação e a expansão do setor elétrico.
Em termos físicos, a característica fundamental de um sistema elétrico é a dramática interdependência que existe entre as partes que o compõem. Essa interdependência radical nasce de dois atributos básicos da eletricidade e dos processos associados a ela.
1) Como a eletricidade não pode ser, economicamente, estocada, os processos de geração, transmissão/distribuição e utilização devem ocorrer simultaneamente.
2) Como todos esses processos, no limite, estão no mesmo campo elétrico, o que acontece em qualquer um deles tem impacto instantâneo sobre os outros, e vice-versa.
Assim, em função da não-estocabilidade do seu produto e do caráter sistêmico dos seus processos, o setor elétrico apresenta uma interdependência entre os seus processos – geração, transmissão, distribuição e utilização -, que não será encontrada em outros setores da economia.
Essa interdependência física entre os processos se estende aos agentes econômicos que detêm o controle sobre eles – geradores, transportadores, distribuidores e consumidores. Dessa forma, à interdependência física entre os processos corresponde uma interdependência econômica entre os agentes.
Mas, e daí? Diria um impaciente leitor.
O problema, meus amigos, é que sistemas que apresentam graus de interdependência como aqueles encontrados no setor elétrico adquirem um atributo difícil de se lidar: a complexidade.
Complexidade, nesse caso, implica na dificuldade de se prever os efeitos de um evento que ocorre em uma parte do sistema sobre o sistema como um todo. Na medida em que o resultado final desse evento vai ser fruto da sua interação com todos os outros eventos que estão ocorrendo no sistema, qualquer previsão baseada na linearidade dos efeitos perde a serventia.
Desse modo, a previsibilidade sobre os resultados de uma ação física ou econômica, resultante de uma decisão técnica ou econômica, torna-se tão difícil que acaba impedindo a própria ação ou decisão.
Diante disso, a redução da imprevisibilidade se colocou desde os primórdios como uma questão-chave para o desenvolvimento do setor elétrico. Sem trazer essa imprevisibilidade/complexidade para níveis manejáveis pelos agentes, não seria possível desenvolver esse setor.
A solução encontrada foi a coordenação. A compatibilização prévia das ações e decisões dos agentes foi o mecanismo utilizado para viabilizar, historicamente, a operação e a expansão do setor elétrico. Enfim, como diriam os mineiros, se não dá para cada um fazer o que quer, senão esse trem não anda, vamos acertar antes o que pode e o que não pode ser feito, quem pode e quem não pode fazer as coisas, quais são as penalidades para quem descumprir o trato e quem as aplica. Feito isso, a incerteza se reduz e dá para a gente tocar a vida.
Em função dessa “solução mineira”, o setor elétrico é uma atividade econômica em que um gerador não produz eletricidade exclusivamente a partir da sua decisão individual, mas depende da decisão de um agente especial, que representa os interesses acordados entre todos os elementos que compõem o sistema, de colocá-lo para gerar no sistema; ou seja, de despachá-lo. Graças a isto, a entrada desse gerador é compatível com o conjunto de ações/decisões dos outros agentes que estão presentes no sistema – outros geradores, transmissores, distribuidores e usuários -, e, portanto, não coloca em risco a integridade desse imenso condomínio que é o setor elétrico.
Note que essa coordenação já é necessária para as decisões de curto prazo – as decisões de produzir. Quando as decisões envolvem o longo prazo – decisões de investir –, a demanda por coordenação aumenta significativamente.
Dessa forma, não há operação e expansão de setor elétrico sem coordenação. E não é apenas coordenação técnica; é coordenação técnica e econômica. No contexto do setor elétrico, elas são indissociáveis.
Se a coordenação é imprescindível, a pergunta que fica é quem define qual vai ser a sua natureza e quem ficará responsável pela sua implantação e operação. Afinal, nesse condomínio, quem define o seu estatuto e quem fica responsável pela sua aplicação?
Um leitor mais afoito responderia: os condôminos. Assim, caberia aos agentes presentes no setor definirem as regras e as normas que, ao fim e ao cabo, regeriam as relações entre eles. Enfim, algum tipo de auto-regulação caberia bem nesse mercado.
No entanto, isto é um ledo engano e não foi por aí que o setor elétrico se desenvolveu.
A razão pela qual a auto-regulação não colou no setor elétrico é histórica e reside na associação, desde os primeiros passos desse setor, entre eletricidade e desenvolvimento econômico e bem-estar social. Em função do reconhecimento dessa essencialidade econômica e social da eletricidade, a definição das regras e normas de operação e expansão desse setor foi assumida pelo Estado.
A partir dessa percepção da sociedade de que a eletricidade era essencial para o seu desenvolvimento e para o seu bem-estar, a natureza pública prevaleceu sobre a natureza privada da atividade elétrica, e o objetivo, o espaço e os agentes da coordenação passaram a ter um caráter público, portanto, sujeitos ao interesse público.
Nesse sentido, coube, e ainda cabe, ao Estado o papel de definidor em última instância da coordenação técnica e econômica que vai prevalecer no setor elétrico, incorporando, de forma inescapável, a dimensão política à atividade elétrica.
Face a isto, todo o esforço voltado para a eliminação dessa dimensão política das discussões sobre os rumos do setor elétrico constitui uma simplificação analítica indevida que gera propostas normativas insustentáveis no longo prazo. Simplesmente pelo singelo fato de que tal abstração cria um setor elétrico que nunca existiu e nunca existirá.
Em suma, a política foi, é, e sempre será importante no setor elétrico. Dessa forma, a proposta de subtrair a política das decisões do setor, e a conseqüente ênfase exclusiva no mercado, não é uma negação da política, mas, acima de tudo, a afirmação, por vias tortas, de uma dada política que, sendo política, cabe, sim, ser discutida politicamente, e não como se estivesse acima de qualquer política, como gostariam os reformistas liberais.
Trocando-se em miúdos, propostas de supressão de instâncias políticas em setores como o setor elétrico não são uma ode ao liberalismo ou ao predomínio da racionalidade técnica sobre os mais baixos e vis instintos da política, são, na verdade, belíssimos contos do vigário. Ou, como diriam na minha terra, um grandíssimo amanhã-passo-lá-ontem.
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