17 de setembro de 2012 - 15h06
POR QUE A REELEIÇÃO DE FHC NUNCA CHEGOU AO STF?
A campanha à reeleição de Fernando Henrique Cardoso é
considerada por especialistas a mais cara da história do país e
nasceu contaminada. Segundo denúncia publicada na época pela Folha
de São Paulo, a aprovação da emenda que possibilitou a reeleição
contou com a compra do voto de vários parlamentares na Câmara dos
Deputados, por R$200 mil cada um.
- Por Laurez Cerqueira (*) -
Quem não sabe como são feitas as salsichas, as leis e as
eleições? A novidade é que parte do Ministério Público e parte do
Supremo Tribunal Federal resolveram julgar o “caixa dois”, feito
para as eleições municipais de 2004, curvando-se à versão sobre o
“mensalão” criada por Roberto Jefferson, pela oposição e por parte
da imprensa que sempre tratou o PT como um intruso na política
brasileira. Um precedente perigoso que coloca o STF acima dos
demais poderes da República. O alvo é o PT. Destruir o PT.
Afinal, a elite não acreditava que os de baixo fossem capazes de
se organizar num partido politico de massa para fazer a luta
social e eleitoral no país das desigualdades. Naquela eleição, em
2004, apesar de tudo, a esquerda cresceu eleitoralmente e em
seguida reelegeu Lula.
Agora, como num delírio narcísico diante do espelho (câmeras de
TV, internet) ministros do STF, enrolados nas suas capas pretas,
parecem fazer o jogo de setores da imprensa, que querem fazer
valer a todo custo a versão do “Mensalão” e patrocinam um triste
espetáculo. A hipocrisia, o cinismo aparecem reluzentes nas faces
de alguns inquisidores como se o financiamento de campanhas
eleitorais por meio de “caixa dois” fosse uma invenção do PT. As
câmeras têm revelado com riqueza de detalhes aspectos sombrios do
caráter de personagens centrais do julgamento no STF.
As investigações foram cirúrgicas e não foram além da superfície
do sereno mar que encobre o financiamento das campanhas eleitorais
de todos os partidos políticos. Não há nenhum questionamento sobre
os demais partidos, como se os de oposição (PSDB, DEM, PPS)
tivessem financiado as eleições de 2004 na mais perfeita ordem.
Especialistas da Universidade de São Paulo (USP) calcularam que
nas eleições municipais de 2004 cerca de 400 mil políticos
empregaram algo em torno de 12 milhões a 16 milhões de
trabalhadores, para disputar 55 mil vagas de vereador e 5.600
cargos de prefeito no país.
A infraestrutura das campanhas eleitorais municipais de 2004 -
propaganda dos candidatos veiculada pelos mais variados meios de
comunicação - comícios, shows, alugueis, equipamentos de comitês
eleitorais, assessores, enfim, custou cerca de 5 bilhões de reais.
O total gasto atingiu a cifra de 41 reais por eleitor.
Especialistas estimam que, por baixo, mais da metade do dinheiro
envolvido em campanhas não aparece nas prestações de contas.
Cerca de 70% a 80% das despesas dos candidatos não foram
registradas como manda a lei. O que daria em média geral 1 real
para o caixa oficial e 3 reais para o caixa dois. Quem adota o
caixa dois costuma dizer que as contribuições sem registro são
feitas a pedido dos contribuintes que não querem se expor como se
o problema fosse a Lei Eleitoral.
O professor David Samuels, da Universidade de Minnesota,
pesquisador do processo eleitoral no Brasil, analisou o perfil de
doadores oficiais a partir dos registros do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) e chegou a conclusão que as candidaturas a
presidência da República são financiadas com maior volume de
recursos do setor financeiro e da indústria pesada, como a de aço
e a petroquímica. Isso porque a Presidência da República é quem
responde pela macroeconomia (juros, tarifas, câmbio e política de
exportação). Além disso, lida com marco regulatório e concessão de
subsídios. Os setores financiadores das campanhas à presidência da
República costumam ser os mesmos das candidaturas ao Senado
Federal e à Câmara dos Deputados porque os assuntos tratados no
Senado e na Câmara são também do âmbito da União; já as
candidaturas a governador recebem mais recursos de empreiteiras,
isso porque as grandes obras estão mais concentradas nos Estados;
os candidatos a prefeito e vereador recebem mais recursos das
empresas de transporte e de coleta de lixo.
A campanha à reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
é considerada por especialistas a mais cara da história do país e
nasceu contaminada. Segundo denúncia publicada na época pelo
jornal Folha de São Paulo, assinada pelo repórter Fernando
Rodrigues, a aprovação da emenda que possibilitou a reeleição
contou com a compra do voto de vários parlamentares na Câmara dos
Deputados, por R$ 200 mil cada um.
Naquele momento, Sérgio Motta, ministro das Comunicações havia
declarado que o projeto dos tucanos era permanecer no poder por no
mínimo 20 anos. Disse isso depois das privatizações dentre outras
áreas, a de telecomunicações.
No início da campanha presidencial de 1998, o comitê eleitoral
responsável pelas articulações da reeleição do presidente Fernando
Henrique Cardoso elaborou um orçamento minucioso de gastos e
concluiu que, para cobrir todas as despesas do pleito, seria
necessário R$ 73 milhões. Esse orçamento prévio foi comunicado ao
Tribunal Superior Eleitoral.
Passadas as eleições o comitê fez as contas e encaminhou a
declaração oficial de doações ao TSE, informando que o total
arrecadado e gasto na campanha foi de R$ 43,022 milhões. A revista
Época, de 30 de novembro de 1998, informou que a equipe que cuidou
das finanças, coordenada pelo ex-ministro Bresser Pereira, dias
depois do envio da lista ao Tribunal, refez as contas e concluiu
que os gastos foram R$ 45,931 milhões, uma quantia muito superior
ao total declarado ao TSE.
Esse desencontro de valores, entre o que se arrecadou, o que se
gastou e o que se declarou ao TSE jamais foi explicado pelos
coordenadores. Paira sobre esse assunto uma nuvem de mistério.
Curioso é que na campanha de 1998 o candidato Fernando Henrique
Cardoso viajou menos, fez menos comícios do que em 1994, mas
gastou R$ 10 milhões a mais. Bresser Pereira conta que, diante do
volume das dívidas deixadas pelo comitê, ele foi obrigado a reunir
a equipe financeira e colocá-la de novo em campo para arrecadar
mais dinheiro dos empresários para cobrir o rombo.
A revista Época informou ainda que as solicitações foram
deliberadamente concentradas nos grupos empresariais que compraram
as estatais. Na segunda quinzena de outubro daquele ano (período
proibido pela lei) foram arrecadados R$ 8,2 milhões. Essa decisão
foi absolutamente ilegal e contrariou a legislação eleitoral, mas
mesmo assim a arrecadação de recurso foi feita.
Dentre as empresas que doaram recursos após o pleito, constam a
Vale do Rio Doce, Companhia Petroquímica do Sul (Copesul) e
Telebras. As subsidiárias da Vale do Rio Doce doaram R$ 1,5
milhão. Os donos da Copesul, R$ 1 milhão e os grupos La
Fonte/Jereissati/Andrade Gutierrez e Inepar, que haviam comprado
as empresas do sistema Telebras, doaram R$ 2,5 milhões. No final
da ofensiva dos coletores, os dirigentes do comitê disseram que
ficou faltando R$ 2,9 milhões para liquidar as contas.
Na mesma matéria, a Época destacou o setor financeiro como o que
mais contribuiu para a campanha à reeleição de Fernando Henrique
Cardoso. Em 1994, os banqueiros deram R$ 7,1 milhões. De cada R$
10,00 que entraram no caixa da campanha, R$ 4,30 originaram do
setor financeiro. Em 1998, a aposta do setor no candidato à
reeleição atingiu 43% (R$ 18,6 milhões) mais que o dobro da
campanha anterior. Apenas cinco conglomerados financeiros
contribuíram com quase R$ 10 milhões. Somados, responderam por
66,1% das doações feitas pelo setor financeiro e 28,6% do total de
contribuições declaradas na campanha presidencial, informou a
revista.
As controvérsias sobre o financiamento da milionária campanha à
reeleição de Fernando Henrique Cardoso não pararam por aí. Para
complicar ainda mais a vida do tucanato a Folha de São Paulo, de
12 de novembro de 2000, publicou uma vasta matéria com informações
comprometedoras, obtidas de planilhas eletrônicas datadas de 30 de
setembro de 1998, vazadas do comitê eleitoral do candidato tucano.
Essas planilhas revelam a existência de uma contabilidade paralela
de arrecadações e gastos da campanha. O jornal informou que pelo
menos R$ 10,120 milhões deixaram de ser declarados ao TSE e que,
de cada R$ 5,00 arrecadados R$ 1,00 era desviado para uma
contabilidade particular desconhecida.
Além dos R$ 10,120 milhões não declarados oficialmente ao
Tribunal, feitos os cálculos, tomando por base a planilha
completa, ficou de fora R$ 4,726 milhões, doados por empresas que
constam da lista do TSE, com valores menores do que os da
planilha, que aparecem sob a rubrica de uma associação de classe
de empreiteiros. O dinheiro arrecadado pelo comitê financeiro,
descrito em 34 registros na planilha principal obtida pelo jornal,
totalizara R$ 53,120 milhões. Vale lembrar que na data constante
da planilha, a qual os repórteres tiveram acesso, o comitê ainda
não havia registrado todas as contribuições o que leva a crer que
o volume de recursos não declarados devia ser muito maior, levando
em consideração que o orçamento estimado inicialmente pelo comitê
para os gastos, e comunicado ao TSE, era de R$ 73 milhões.
Nota-se que havia margem suficiente para declarar os recursos
constantes na contabilidade paralela em questão e a equipe
financeira não o fez. As razões não foram esclarecidas à imprensa,
que insistentemente tentou sem sucesso obter explicações dos
responsáveis pelas contas. Toda essa história acabou envolta num
manto de mistério.
A imprensa, na época da divulgação das planilhas pelo jornal,
andou escarafunchando a lista de contribuintes da campanha da
reeleição e trouxe à baila informações preciosas. Os colaboradores
ao ver seus nomes e os nomes de suas empresas publicados nos
jornais não conseguiram esconder o constrangimento. Muitos deles
acabaram dando informações contraditórias. A lista mais parecia um
condomínio de interesses escusos. A maior doação constante na
planilha publicada foi de R$ 3 milhões e não está registrada no
TSE.
O jornal atribuiu à época essa contribuição ao então ministro da
Secretaria de Comunicação da Presidência, Andrea Matarazzo. Ele
negou dizendo que não participou do grupo de arrecadadores e que
apenas realizou alguns jantares com empresários. Mas, membros da
equipe financeira como Bresser Pereira e o publicitário Luiz
Fernando Furquim afirmam que Andrea Matarazzo fazia parte sim do
grupo de coletores. Um detalhe: na planilha não consta registro da
procedência do dinheiro.
O publicitário Roberto Duailibi, dono da agência DPZ, em
entrevista à Folha de São Paulo, disse no primeiro momento que
havia contribuído com R$7.500 mil. Quando ficou sabendo que a sua
doação não estava registrada no TSE ligou para o jornal e disse
que a empresa dele não havia contribuído com a campanha. Porém,
consta na planilha que a DPZ contribuiu com R$200 mil. Outro
publicitário, Geraldo Alonso, da agência Publicis Norton disse ao
jornal que contribuiu para a campanha com serviços de publicidade.
O valor do trabalho prestado pela agência dele registrado na
planilha foi de R$ 50 mil. Em seguida ele negou que havia prestado
serviços.
A empresa Atlântica Empreendimentos Imobiliários, da banqueira
Kátia Almeida Braga, (Grupo Icatu), uma das coletoras de recursos,
disse que contribuiu com R$ 100 mil e que tinha recibo emitido
pelo PSDB. Esse valor aparece na planilha e não foi registrado na
contabilidade oficial. Numa investida no Rio de Janeiro, Kátia
Almeida Braga procurou dezoito empresários. Uma das empresa da
lista era a Sacre, de Salvatore Cacciola, aquele banqueiro do caso
Marka e FonteCindan, que fugiu para a Itália depois do escândalo
financeiro. Kátia Braga conseguiu que a empresa dele doasse R$ 50
mil para a campanha.
Outra empresa que chamou atenção na lista de contribuintes da
campanha de Fernando Henrique Cardoso foi a Vasp, de Wagner
Canhedo, um dos acusados de integrar o esquema PC no governo
Collor e que responde até hoje vários processos na justiça. A
empresa de Canhedo era devedora na época de mais de R$ 3 bilhões
ao governo. Canhedo doou R$ 150 mil e não consta na declaração do
TSE. No caso da Vasp a lei proíbe doações, mas a direção da
empresa confirmou a doação à Folha de São Paulo.
Além desses casos existem muitas outras irregularidades reveladas
pela imprensa, como por exemplo, doações feitas por universidades
e escolas privadas. A legislação proíbe instituições de ensino de
participar financeiramente de campanhas eleitorais, mas o
presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino
Superior (ABMES), Edson Franco, confirmou a jornalistas que
diversas instituições foram procuradas pelo ex-ministro Bresser
Pereira e que várias delas fizeram doações. Ele citou a Unip, de
João Carlos Di Gênio e a Faculdade Anhembi-Morumbi. Todos esses
casos nunca foram investigados, o Ministério Público e o STF não
se interessam por esse assunto.”
A diferença do caixa dois da reeleição do ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso do caixa dois das eleições municipais de 2004 é
que o PT dançou, foi investigado e está sendo julgado, enquanto os
tucanos e o PFL flanam na desgraça do PT. “O deputado José Dirceu,
em seu depoimento no Conselho de Ética, lembrou que o
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse certa vez que não
admitiu a instalação de CPIs durante seu governo porque sabia que
uma CPI o derrubaria.”
Portanto, o financiamento de campanhas eleitorais por meio de
caixa-dois é uma prática conhecida e só veio a público porque
parte da cúpula do PT resolveu participar da festa e se deu mal.
Agora o partido está sendo ridicularizado como se fosse um
penetra. “Financiamento público já!”
*Jornalista e escritor, autor, entre outros trabalhos de Florestan
Fernandes – vida e obra, Florestan Fernandes – um mestre radical e
O Outro Lado do Real, em parceria com o deputado Henrique Fontana.
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