Por trás do Golpe de 1964
Por Débora Motta

O golpe militar de 1964, que deu início a longos 21 anos de ditadura no Brasil, foi um reflexo da política externa intervencionista dos Estados Unidos, que tentavam a todo custo manter seu campo de influência na América Latina, no contexto da disputa bipolar por hegemonia durante a Guerra Fria. O papel dos vizinhos norte-americanos para o estabelecimento do regime ditatorial no país foi objeto de três anos de estudo do historiador Carlos Fico, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ), entre 2003 e 2006. Com apoio da Fundação, por meio do edital Cientistas do Nosso Estado, Fico mergulhou em documentos até então secretos, guardados no Arquivo Nacional dos Estados Unidos. Em entrevista por e-mail ao Boletim da FAPERJ, ele revela suas descobertas, fala do apoio militar americano à ditadura, concretizado na Operação Brother Sam, e sobre o processo de pesquisa que culminou no lançamento do livro O grande irmão – da Operação Brother Sam aos anos de chumbo (ed. Civilização Brasileira, 2008).

Boletim da FAPERJ – Como foi o envolvimento dos Estados Unidos no golpe de 1964? Como eles contribuíram para estabelecer a ditadura e como se beneficiaram disso?

A idéia de derrubar o presidente João Goulart consolidou-se, no final de 1963, em setores do governo dos Estados Unidos, em paralelo às conspirações que existiam no Brasil. Entretanto, havia já algum tempo que aquele país vinha tentando desestabilizar o governo brasileiro, financiando candidatos de oposição, emprestando dinheiro a governadores contrários a Goulart e patrocinando uma expressiva propaganda política que sugeria que o presidente conduziria o Brasil ao comunismo. Essas iniciativas norte-americanas, chocantes e inéditas, deviam-se à decisão que eles tinham tomado de impedir, a qualquer custo, que surgisse "outra Cuba" no continente americano.

A Operação Brother Sam foi a culminância dessa postura intervencionista. O governo norte-americano enviou às costas brasileiras uma força-tarefa naval com um porta-aviões, um porta-helicópteros, seis contratorpedeiros (dois equipados com mísseis teleguiados), 100 toneladas de armas e quatro navios-petroleiros que traziam combustível para o caso de um eventual boicote do abastecimento pelas forças legalistas. A idéia era apoiar o governador Magalhães Pinto, de Minas Gerais, onde o golpe de 1964 começou, com o qual os Estados Unidos haviam combinado a estratégia da declaração de um governo alternativo, plano que foi rascunhado ainda em 1963. Havia a previsão de desembarque de tropas, de armas, e os generais brasileiros estavam informados de tudo isso.

Boletim da FAPERJ – Como foi o posicionamento do Itamaraty?

A Operação Brother Sam não chegou às costas brasileiras e poucos ficaram sabendo dela até os anos 1970. Ao contrário de todas as previsões, João Goulart não resistiu, de modo que o golpe de 1964 concluiu-se rapidamente com a vitória dos conspiradores. O Itamaraty não teve nenhuma atuação mais expressiva durante o golpe e, institucionalmente, adequou-se rapidamente ao novo regime. Alguns embaixadores "playboys" – como o general-presidente Castelo Branco os designava – foram afastados, mas não houve nada de muito traumático. Durante o governo de Castelo Branco, o Brasil alinhou-se inteiramente aos Estados Unidos – em detrimento da postura mais independente que prevalecia antes e seria de algum modo retomada depois pelo Itamaraty.

Boletim da FAPERJ – O senhor teve acesso a documentos do Arquivo Nacional dos Estados Unidos que até então eram sigilosos. Quais são as principais informações que eles trazem e quais são as suas conclusões a respeito?

Há muitas novidades e documentos inéditos que divulgo no livro, como a instalação, no Brasil, pelos militares norte-americanos, de um equipamento de detecção de explosões nucleares, sem o conhecimento do governo do Brasil, em base militar operada secretamente, ou o nome do general brasileiro que era o contato com os americanos para a operacionalização da Operação Brother Sam. Uma das coisas que mais me impressionou na documentação foi a imagem muito negativa que os funcionários do Departamento de Estado e o governo dos Estados Unidos em geral tinham do Brasil e dos brasileiros. É claro que eu já sabia disso, mas sempre impressiona ver isso descrito com todas as letras.

Boletim da FAPERJ – O senhor publicou vários livros sobre a ditadura. Como o livro O grande irmão – da Operação Brother Sam aos anos de chumbo se situa dentro do conjunto da sua obra?

Eu queria ampliar minhas pesquisas, depois de tantos anos dedicados à ditadura militar brasileira, de modo que decidi estudar também as demais ditaduras latino-americanas e, ainda, o papel dos Estados Unidos em relação à América Latina durante a Guerra Fria. Por isso precisei pesquisar nos arquivos norte-americanos, o que só foi possível quando fui contemplado com o programa Cientistas do Nosso Estado, da FAPERJ. O grande irmão... é o primeiro resultado dessas pesquisas. Sempre trabalhei com grandes massas documentais, mas nunca com o número de documentos que embasam esse livro (dos milhares de documentos que consultei, fotografei cerca de 5.000 páginas). Além disso, tive de apropriar-me do universo cultural e político dos diplomatas norte-americanos naquela época, além de seu jargão particular, tudo isso em inglês.

Boletim da FAPERJ – A tortura de presos políticos no país foi incentivada, na prática, pelos Estados Unidos?

Não encontrei nenhuma evidência nesse sentido. Muitos militares latino-americanos foram treinados em unidades militares nos Estados Unidos ou na Escola das Américas, na Zona do Canal do Panamá. Vários analistas associam esses treinamentos à prática de tortura. A partir de 1968, entretanto, quando a tortura se tornou sistemática no Brasil, o Departamento de Estado e a Casa Branca enfrentaram problemas com a opinião pública e o Congresso dos Estados Unidos: como o país podia apoiar uma ditadura que torturava seus cidadãos? O Conselho de Segurança Nacional norte-americano chegou a sugerir, em 1969, um afastamento relativo do Brasil, mas o presidente Nixon e seu conselheiro, Henry Kissinger, optaram por uma atitude pragmática, pois não podiam abrir mão do apoio do Brasil.

Boletim da FAPERJ – Alguns historiadores consideram que as mesmas forças que deram o golpe de 1964 já tinham tentado tomar o poder em 1954, mas o suicídio de Vargas teria adiado esse golpe. O senhor concorda com essa visão?

Isso é de algum modo verdadeiro. As forças políticas conservadoras no Brasil, após 1945, foram eleitoralmente muito malsucedidas e o golpismo, talvez por isso, tornou-se uma constante. Mas é claro que a conjuntura do golpe de 1964 é muito específica: havia manifestações sociais muito expressivas, a favor e contra Goulart; entidades civis faziam intensa propaganda anticomunista, como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD); houve a participação dos Estados Unidos, enfim, uma situação muito diferente de 1954.

Boletim da FAPERJ – É comum ouvir falar que o golpe de 1964 ocorreu com o objetivo de combater o comunismo no Brasil. Existia concretamente a possibilidade do país se tornar comunista ou havia outro projeto político que incomodava parte das classes dominantes?

O golpe se deu porque a elite brasileira teve medo de que Goulart "radicalizasse", implantasse algumas reformas que pareciam despropositadas para aquela elite. Ele poderia fazer seu sucessor e o Brasil poderia situar-se cada vez mais distante do capitalismo, isso é verdade. Mas a propaganda contra Goulart afirmava que ele planejava dar um golpe e, vitorioso, acabaria perdendo o controle para os comunistas – mesmo que ele próprio não o fosse. Nunca encontrei evidências empíricas sobre isso.

Boletim da FAPERJ – O grau de participação dos EUA aqui no Brasil foi o mesmo do que em outras ditaduras na América Latina, como a chilena?

A decisão do governo norte-americano de impedir, a qualquer custo, que surgisse "outra Cuba" na América Latina era para valer. Por exemplo, eles invadiram a República Dominicana, em 1965 (e o governo de Castelo Branco enviou soldados brasileiros em apoio) e, quando precisou conter a esquerda, o presidente Nixon apelou para métodos clandestinos e violentos, como no caso do Chile após a posse do socialista Salvador Allende, em 1970. Esse padrão intervencionista aconteceu em diversos outros casos.

Boletim da FAPERJ – O senhor acredita que ainda existem muitos pontos a serem esclarecidos, à luz da história, sobre a ditadura militar no Brasil?

Os documentos sigilosos têm uma peculiaridade que nos obriga a constantemente renovarmos nossas pesquisas: eles são liberados de tempos em tempos, após um período em que permanecem classificados. Por exemplo, os documentos secretos, no Brasil, permanecem sigilosos por 30 anos. Isso também acontece nos EUA. Eu pude pesquisar documentos até o governo Nixon, que correspondeu, mais ou menos, ao governo do general Médici, no Brasil. Brevemente serão liberados documentos relativos aos governos de Jimmy Carter e do general Ernesto Geisel e novas pesquisas terão de ser feitas.

Publicado no Boletim da FAPERJ. Semana de 29 de janeiro a 4 de fevereiro de 2009. Ano 4. Nº 221

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Comentário de Raí Araujo em 30 janeiro 2009 às 12:08
Caro Theotonio de Paiva,talvez a maioria dos jovens,que hoje militam nos partidos políticos,e alguns até sejam do staff deste governo democrático,sejam descendentes daquela geração que aceitou a ingerencia nos nossos assuntos internos,por parte do governo norte-americano,que achavam-se(eventualmente ainda acham-se) a polícia do mundo,e estes jovens,não imaginam o quanto foi difícil a transição iniciada pela minha geração(que acredito seja a sua tambem)para esta nova realidade em que vivemos hoje,um pouco dependentes daquela e de outras nações desenvolvidas,porem com governos legitimamente eleitos,e que não mais aceitam a ingerencia destas nações em nossas questões internas,politicamente falando. As suas pesquisas vêm em boa hora,para aumentar o conhecimento daqueles que não conhecem a história da libertação dos países sulamericanos,do julgo imperialista,e que hoje podem pelo menos sonhar com uma independencia(senão economica,por terem aceito a integração capitalista)pelo menos política,a ponto de poder exercer sua liberdade de expressão,que naquele tempo,era uma utopia,concorda ?
Comentário de Theotonio de Paiva em 30 janeiro 2009 às 13:30
Perfeito, Raí. Somos da mesma geração, sim, um pouco, um pouco menos, não faz tanta diferença assim. Agora, penso que o mar de utopia é finito. No entanto, não há como imaginarmos a nação em atitude de servilismo. Isso está articulado à própria ideia de territoralidade, de soberania dos povos. E o problema se complica se observarmos que aquele mesmo golpe fora orquestrado pelos setores econômicos, políticos e militares dominantes à época, com o apoio incondicional da grande mídia. Os jornais, as rádios, os filmes produzidos pelo IBAD sedimentaram uma estratégia política imperial. Na verdade, estamos falando de um grande projeto político que se orienta a partir do término da II Grande Guerra, cujo eixo era o avanço do domínio anglo-saxão pelo mundo. Hoje os tempos são outros, mas vivemos a inconstância das relações internacionais.

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