Porque o mistério sempre há de pintar por aí...

 Mulheres de Oiá no templo de Pobé e na Praça do Pelourinho (uma das fotos com sobreposição involuntária) # Benin- Bahia por  Patrizia Giancotti

 


As correrias de fim de ano adiaram por algumas semanas o meu propósito de divulgar este relato. É uma história de arrepiar. Merece ser contada e conhecida, pois cutuca certezas, instiga a imaginação e nos faz recordar que “o mistério sempre há de pintar por aí”. Basta ter olhos, coração e mente abertos – livres e desobstruídos – para captar os sinais e mensagens que a vida e o imprevisto emitem a todo momento.


Tomara que Patrizia consiga ótimos espaços pelo Brasil afora para expor suas belíssimas fotos. Para além de sua competência como fotógrafa, antropóloga, artista e produtora, esse trabalho representa um acervo precioso e fidedigno de aspectos identitários fundamentais da Bahia e de Benin e atesta os laços históricos, religiosos e culturais que atam de uma forma profunda e indelével a alma dos dois povos. Que se cumpra o vaticínio do sacerdote de Sango e a mensagem seja entregue aos brasileiros: Como a gente viu a Bahia nas suas fotos, queremos que o Brasil nos veja: as raízes do ritual.


Patrizia Giancotti em suas próprias palavras (retiradas do folder da exposição na Câmara dos Deputados em Brasília, mas também ouvidas pessoalmente num encontro repleto de afeto, empatia e sincronicidades):


“Uma noite entrei no Pelourinho com a Nikon no pescoço e tripé nas costas. Pouca iluminação, pouquíssimas pessoas. Quase ninguém, naquela época, arriscava-se a passar ali sem a proteção do sol: a praça estava vazia. Depois de ter fixado a Nikon, coloquei o tripé em cima das pedras em forma de cruz que indicavam discretamente o lugar onde estava plantado o tronco de suplício dos escravos rebeldes. Eu queria fotografar a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos daquele ponto, como se o tripé fosse o Pelourinho. A igreja dos escravos brilhava na pouca luz. Quatro ‘cliques’ tirados com um filme Kodacrone asa 400. Filme bom para pouca iluminação, que no dia seguinte não era adequado para tirar fotos embaixo do sol da Bahia. Eu só tinha uma máquina, então rebobinei o filme, deixando o começo para fora. Encima do filme escrevi ‘+ 4’, para poder usá-lo em outra ocasião e joguei na bolsa junto com os outros. Perguntei-me várias vezes que fim teriam levado aquelas fotos noturnas. Mas no meio de tantos, aquele filme acabou perdido, a escrita cancelada.


Passaram dois anos. Eu estava em Benim para o Primeiro festival de Arte e Cultura Vudun Retrouvailles Amerique Afrique. Pela primeira vez, a África convidava artistas e representantes ilustres das religiões da diáspora negra que, do Haiti, Tobago, Cuba, Trinidad e da Bahia voltavam à terra de origem. Foi o Jorge Amado quem me avisou com telefonema de Paris: ‘Vai lá. A festa vai ser em Ouidah, o porto de saída dos navios negreiros. Você não pode perder!’ Fiz uma proposta de exposição fotográfica e o presidente do Benin, Dr. Soglò convidou-me: eu era a única européia a expor. A instalação fotográfica ‘As Senhoras da Bahia’, com textos que o próprio Jorge Amado escolheu, foi montada no quintal da iniciação do Palácio do Rei de Oyo, em Porto Novo. Na abertura, chegou o Mestre Pierre Verger.


Acolhido por uma meia dúzia de mulheres griots com cabeça raspada e varas rituais, Verger abençoava como um rei generoso as cantoras iniciadas que percutiam ritmicamente a terra. Inesperadamente carinhoso, abençoou também meu trabalho. Logo depois, diretamente do aeroporto, chegou Mãe Estela de Oxóssi, do Terreiro Axé Opo Afonjá da Bahia. Ela me conhecia por ter me atendido numa consulta e pela minha participação nas festas do terreiro. Surpreendeu-se por me ver no Benin e, por ser a primeira pessoa conhecida a ter encontrado, falou com ênfase: “Menina, você me recebeu na África!”

O público era muito numeroso. Alunos das escolas, mulheres com filhos ligados nas costas, muita gente que não sabia dos traços comuns entre a Bahia e o Benin. Numa tarde entrou no Palácio uma mulher de vermelho que parecia procurar alguém. Viu-me e se aproximou. ‘Oià, Oià’...falou, indicando a conta vermelho escuro embaixo da minha camisa. Ela, Odjubé, mulher de Oià Iansã, espírito feminino dos ventos e das tempestades, tinha igual e mostrava com orgulho: sinal de reconhecimento, de irmandade, além da língua, país, cor. Recebi a minha guia das mãos da mãe de santo Guiomar da Bahia e agora ela falava de mim na África. Foi a conta que chamou a atenção e foi por causa dela que Odjubé me convidou para participar das cerimônias religiosas na casa de Orikpalo Arobatan, sacerdote de Sango. Ele, neto de um escravo fugitivo, jogou as nozes de cola para mim. ‘Você foi chamada’ disse, vendo a incomum posição da noz que ficou em pé, ‘tem algo para fazer aqui...vai ser mensageira’. ‘Como a gente viu a Bahia nas suas fotos’ – explicou Odjubé – ‘queremos que o Brasil nos veja: as raízes do ritual’.

A partir daquele momento todas as mulheres de Oià que estavam presentes fizeram questão que eu fotografasse os detalhes do ritual: pessoas, ingredientes, oferendas, danças, peji. Elas olhavam na minha lente objetiva para comunicar com ‘povo de lá’, de lá do oceano, me usando como uma ponte.

Num momento muito intenso, acabou o filme e rapidamente botei a mão na bolsa para pegar outro. Foi ali que, sem saber, enfiei na máquina o filme que dois anos antes já tinha recolhido as imagens noturnas do Pelourinho. Só reveladas as fotos, já longe da África, me deparei com aquelas mulheres poderosas pisando no chão da Bahia. Presenças fluidas do passado-presente, emanando das paredes antigas, das pedras. Assim como o olhar de Odjubé. Se ela estivesse com o seu próprio corpo na praça os pés dela estariam pisando a pedra cruz, marca do pilar do suplício, enquanto os olhos de brasa saem do papel para furar os nossos. Mas os pés dela naquele ‘clique’ pisavam o chão da casa de Sango em Pobé, no Benin, enquanto as estrelas do tecido sagrado pendurado na parede do templo ficaram do céu da Bahia, como Zumbi dos Palmares. Acidente, sobreposição involuntária, mágica, não sei. Sinal, ligação, reunificação de mundos separados que, através de uma mensageira, se reencontraram numa imagem símbolo.”

 

 


 

 

 

Bahia (Angélique Kidjo - Jean Hebrail ) # Angélique Kidjo

 

 

Baba Alapalá (Gilberto Gil) # Gilberto Gil

 

 

 

 

 

Patrizia Giancotti

 

 

 



“Na Itália, Patrizia Giancotti festeja a cada trinta e um de dezembro sua Yemanjá vinda da Bahia num saveiro”.

Jorge Amado em Navegação de Cabotagem

 

 

 

 


 

 

Mistério do Planeta (Galvão - Moraes Moreira) # Novos Baianos

 

 

 

Algumas fotos da exposição:

 


http://entretenimento.uol.com.br/album/beninbahia_df2010_album.jhtm...

Site:


http://www.patriziagiancotti.com/

Exibições: 203

Comentário de BLOG DAS IGUARIAS - em 11 janeiro 2011 às 20:47

Muito nos honra vc ter lembrado de nós( eu e mamãe que é de Oyá) , com essa postagem mais que linda e mais que terrena. Super espiritual.

   Agora, quem te fala é Yá Carmen Sidan, do Asé Loroquê, Naçao Efon:

Que Oyá te ilumine, te faça vitoriosa, e com certeza melhor todos os dias. 

Apesar de não nos conhecermos pessoalmente, tenho a certeza de que Ela , senhora dos ventos e dona dos meus passos, colocou-nos aqui no portal LN, não foi por acaso

Obrigadissimo peo presente.

Te envio a imagem, pra que Ela, sempre abra teus bons caminhos

                                                                                    . Beijos emocionados e felizes. 

Comentário de Cafu em 11 janeiro 2011 às 22:47
Eparrei! Me senti comovida e abençoada. Gracias.

Em retribuição envio para vocês, com muito carinho, este Oriki de Iansã traduzido pelo Antônio Risério (poeta dos bons, lá da Bahia).
Beijos.

ORIKI DE OIÁ-IANSÃ 1

Leopardo que come pimenta crua.
Mulher de vestes vistosas.
Cabaça rara, diante do marido.
Eparrei!
O que Xangô disser
Oiá logo saberá.
Ela entende oque Xangô
Nem chegou a falar,
O que ele quiser dizer
Oiá dirá.
Ê ê ê-par-rei!
Oiá, árvores desarvora.
Adeus, morte.
Minha mãe da roupa de fogo.
Nada de mentiras para ti
Nada de mentiras para ti.
As marcas na tua pele calam o alabé.
Oiá ô
Mulher neblina no ar.
Oiá, leopardo que come pimenta crua.
Comentário de Cafu em 11 janeiro 2011 às 23:00
Tem mais! Veja outra linda foto da Patrizia Giancotti misturando o Pelourinho com Benin. Ela está publicada no convite da exposição feita na Câmara. Não entrou no post porque minha máquina foi roubada e eu fiquei sem os meios de reproduzí-la. Pedi ajuda à Maythe e ela fotografou a imagem para mim.

Valeu, Maythe! Puxa, como eu abuso de sua boa vontade. Hahaha. Muitíssimo obrigada.

Carmem, presente para sua mãe que é de Oiá.

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