"o elemento fundamental na estruturação da indústria de petróleo no Brasil foi e continua sendo a Petrobras. Mais do que as possíveis grandes reservas presentes no pré-sal, este foi e continuará sendo o nosso grande patrimônio"

O professor Ildo Sauer, em um artigo publicado na revista Carta Capital de 2 de Setembro, afirma que o grande patrimônio da Petrobras “não é o petróleo encontrado, mas a capacidade de encontrar petróleo, desenvolver petróleo, desenvolver gás natural, desenvolver soluções para a inevitável transição energética, da era pós-petróleo, incluindo os biocombustíveis e outras fontes renováveis.”

Concordo com o professor e considero que é essa capacidade, desenvolvida ao longo de mais de cinqüenta anos e nucleada pela Petrobras, é que faz a diferença quando comparamos o desempenho do Brasil com outros países como o México, a Venezuela e a Argentina.

Quando olhamos as trajetórias petrolíferas desses países, constatamos que o fato decisivo do sucesso brasileiro não está na posse de grandes reservas, mas na construção de uma empresa de petróleo sui generis em termos de países em desenvolvimento, que se diferencia totalmente das suas análogas mexicana (PEMEX), venezuelana (PDVSA) e argentina (YPF).

Nesse sentido, o grande trunfo brasileiro não se resume à possibilidade de determos grandes reservas de petróleo no pré-sal, mas de termos construído uma grande empresa que teve não só a capacidade de chegar a essas grandes reservas, como tem a capacidade de criar as condições para explorá-las. Na verdade, é a empresa de petróleo líder mundial em águas profundas e, portanto, a mais qualificada para enfrentar esse desafio.

E essa empresa é genuinamente brasileira.

Cabe chamar a atenção que esse desempenho ultrapassa a discussão do regime escolhido para a exploração do petróleo, porque, mesmo quando se contempla o sucesso do regime de concessão e a quebra do monopólio adotados na década passada, encontra-se, por trás deste sucesso, o desempenho da Petrobras.

A professora Carmen Alveal, em um artigo de 2003 transcrito em uma postagem na semana passada neste blog, afirmava que “a abertura petrolífera do país reafirmou o franco predomínio da Petrobras; o razoável porte das barreiras econômicas a ser enfrentadas pelos investidores interessados, especialmente no upstream (exploração/produção), conduziu a estratégia das operadoras internacionais a se associar com a estatal, que detém o conhecimento das bacias sedimentares brasileiras e do ambiente sistêmico e empresarial do país.

(...) O engajamento da Petrobras, fundamental para o sucesso da abertura do upstream brasileiro, tornou o Brasil uma das promissoras regiões de atração de investimentos e, no limite, um país exportador de petróleo, disputando com novas regiões “tradicionais”, tais como o Golfo do México, a Rússia, a Ásia e a Costa Oeste Africana.”


Nesse sentido, o gradualismo da implantação da agenda das reformas estruturais orientadas para o mercado dos anos 90 não se deve apenas à resistência dos setores nacionalistas à destruição da Petrobras, mas ao reconhecimento de que a preservação da Petrobras, mesmo que reduzida a função de estímulo ao ingresso e à parceria com agentes privados, era fundamental, e mais do que isso incontornável, para a abertura do upstream brasileiro.

Em suma, o elemento fundamental na estruturação da indústria de petróleo no Brasil foi e continua sendo a Petrobras. Mais do que as possíveis grandes reservas presentes no pré-sal, este foi e continuará sendo o nosso grande patrimônio. A Petrobras é maior do que a simples afirmação de que o petróleo é nosso; porque o petróleo também foi de outros países e eles não foram capazes de desenvolver a trajetória de sucesso que nós desenvolvemos. A Petrobras também é maior do que o monopólio; porque ela foi capaz não só de sobreviver à quebra desse monopólio, como também de seguir o seu crescimento fora dele. A Petrobras não é um dinossauro, como acha a direita brasileira, que nunca a entendeu ou a aceitou por preconceito e ignorância. Em contrapartida, a Petrobras também não é a síntese dos dogmas intervencionistas do Estado; porque a empresa sempre foi capaz de definir estratégias empresariais que se demonstraram efetivas e bem-sucedidas, ultrapassando os estreitos limites da estatização.

A Petrobras é muito mais do que tudo aquilo que a esquerda e a direita brasileira pensam dela. A Petrobras, como diria a minha velha amiga Carmen Alveal, em seu artigo aqui citado, é o triunfo real do potencial brasileiro. É a prova concreta de que nós podemos, sim, construir um grande futuro para este país.

Por isso, querendo-se ou não, a questão central da discussão sobre o pré-sal é, assim como sempre foi, o papel que a Petrobras irá desempenhar nessa nova etapa da indústria do petróleo no Brasil. O resto, apesar de toda a sua relevância, dependerá, fundamentalmente, do encaminhamento que iremos dar a essa questão crucial para o desenvolvimento da Petrobras, da indústria do petróleo e do nosso país.

Exibições: 151

Comentário de RatusNatus em 12 novembro 2009 às 19:54
Eu também estou curioso. Curioso para saber como faremos para recuperar os 60% do capital da Petrobrás que foram vendidos para investidores dos EUA.

Isso é o que eu quero saber!

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço