Sobre essa misteriosa cantora e atriz do Teatro de Revista poucos registros restaram. Sequer sabemos o seu nome, naturalidade e dados biográficos e artísticos mais consistentes. Descobrimos, recentemente, sua voz em parceria com Francisco Alves, a partir do acervo do Instituto Moreira Salles. Essas gravações estão disponíveis aqui na página do Teatro de Revista.
A garimpada foi emocionante, mas queremos mais!
Lançamos o desafio a todos os membros da Comunidade para que nos ajudem a encontrar fotos, músicas e informações sobre a vida de Rosa Negra. Vamos escarafunchar na net, em sebos, bibliotecas, arquivos, lojas de antiguidades, entrevistar velhinhos(as), o escambau, atrás de pistas que nos contem essa estória perdida nos desvãos do tempo. Quanto mais gente ajudando, melhor. Mãos à obra!
Para esquentar os tamborins, eis o verbete sobre Rosa Negra que consta no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira:


ROSA NEGRA


Foi descoberta pelo revistógrafo Marques Porto no Bar Cosmopolita, um bar de chopp que existia no Passeio Público, onde apresentava-se cantando e dançando. Trabalhou também num "mafuá", como eram chamados alguns parques de diversão, no Méier.

Em março de 1926, estreou na revista "Pirão de areia", no Teatro São José, liderando um grupo de black-girls e cantando com uma "charleston jazz band". Apresentou com as Black Girls um número de revista chamado "Bahiana, n'aime tu?", que era bisado e trisado diariamente. Embora contracenasse com atrizes de renome, como Otília Amorim, foi a atriz mais aplaudida na revista do São José. Em agosto do mesmo ano estreou na Companhia Negra de Revista, primeira tentativa de criar no Brasil uma companhia teatral apenas com atores e atrizes negros. A revista de estréia da Companhia Negra foi "Tudo preto", de autoria de De Chocolat, com música do maestro Sebastião Cirino e com Pixinguinha regendo a orquestra. Apresentada no Teatro Rialto, a revista foi um estrondoso sucesso. Foi uma das atrizes que mais se destacou, tendo interpretado "Ludovina cançonette", um número charlestônico, "Pérolas negras", outro número de sucesso, "Jaboticaba afrancesada" e "Banhistas", onde contracena com a vedete Dalva Espíndola.

Foi chamada por alguns críticos de "Mistinguette brasileira", numa referência a uma famosa vedete francesa que atuou na Companhia Bataclan. Estreou logo depois na revista "Preto e branco". A Companhia Negra partiu em seguida para uma excursão que percorreu os Estados de Minas Gerais e São Paulo. Em 1927, retornou ao Rio de Janeiro e estreou no Teatro República com a Companhia Negra a revista "Carvão Nacional". Na nova revista, interpretou "Tentação", "O mundo da lua", "Tudo preto", "Flor de amor", "A procura de uma estrela", "Beijar", "Broxura" e "Tudo o que é nosso".

No mesmo ano, gravou com Francisco Alves o samba "Não quero saber mais dela", de Sinhô. Em 1928, ainda com Francisco Alves, gravou o foxtrote "Moleque namorador", de Heckel Tavares e o fox "Que pequena levada", de J. Francisco de Freitas. Gravou ainda "Rosa preta" e "Quem quer casar comigo?".

Em 1930, atuou no Teatro Cassino Antarctica, em São Paulo, na revista "Chora menino", de Marques Porto e Luiz Peixoto, com a Companhia Brasileira de Revistas. Na ocasião o jornal "O Estado de São Paulo" publicou a seguinte nota: "Entre os 34 quadros serão apresentados 2 caracteristicamente brasileiros: "Meu Senhor do Bonfim" e "Morro da Mangueira" para os quais a empresa especialmente contratou a atriz Rosa Negra". Em 1931, estrelou no Teatro República com a Companhia Mulata Índia do Brasil a revista "Com que roupa?" , de Luís Peixoto com músicas de Ary Barroso, Freire Jr e Vadico. Em 1932, atuou no Teatro Margarida Marx, na Piedade, e fez parte da troupe de variedades do Moinho Vermelho que se exibiu no Teatro República. Fez sucesso num determinado período, chegando a ser citada por Manuel Bandeira como estrela numa crônica em que o poeta modernista fala do enterro do compositor Sinhô. Apesar disso, há poucos registros sobre ela, inclusive qual foi o desenrolar de sua carreira, quando e onde nasceu e como e onde morreu.

Em 2003, o selo Revivendo no CD "Sinhô - O pé de anjo" relançou sua interpretação do samba "Não quero saber mais dela", de Sinhô gravado em dueto com Francisco Alves.


DISCOGRAFIA:
• Não quero saber mais dela (1927) Odeon 78
• Moleque namorador (1928) Odeon 78
• Que pequena levada (1928) Odeon 78
• Rosa preta/Quem quer casar comigo? ( S/D) Brasilphone 78


BIBLIOGRAFIA CRíTICA:
• AZEVEDO, M. A . de (NIREZ) et al. Discografia brasileira em 78 rpm. Rio de Janeiro: Funarte, 1982.



http://www.dicionariompb.com.br/verbete.asp?nome=Rosa+Negra&tabela=T_FORM_A

+ :

O Instituto Moreira Salles dispõe, também, em sua biblioteca, de partituras das cancões Rosa Preta e Rosa Negra que pertenciam ao acervo de Pixinguinha. Teriam sido feitas para homenagear a nossa enigmática artista?

Coleção: Pixinguinha Localização física: PIX, RTM-RJ, Caixas 29, 333 Tipo de documento: PARTITURA MANUSCRITA Tombo: 00092492 Autoria: Rosa, Mário Garcia (Compositor) Título: Preta rosa. Idioma: por Assunto: Partitura
Gênero musical: Valsa canção Instrumento - partitura: Piano


Coleção: Pixinguinha Localização física: PIX, RTM-RJ, Avulsa 03, 533 Tipo de documento: PARTITURA MANUSCRITA Tombo: 00092946 Autoria: Ramos, José Ferreira (Compositor) Título: Rosa negra. Idioma: por Assunto: Partitura
Gênero musical: Choro Instrumento - partitura: Melodia


Por Cafu

Exibições: 564

Comentário de Teatro de Revista em 31 maio 2009 às 16:26
Cafu,
Ótimo artigo! Já tinha pensado em escrever um e garanto que não faria melhor. Essa mulher pioneira precisa ser resgatada e me espanta que os movimentos negros não se interessem muito por ela. Já pesquisei em vários sites, inclusive naqueles que tratam da participação das mulheres negras na cultura e na política. Nada sobre ela. No máximo uma menção simples.
Acho que o único jeito de encontrar alguma foto dela com outras informações será pesquisando os jornais da época. São fontes riquíssimas e seguras. É bastante divertido pesquisar jornais antigos. O verbete do Dicionário Cravo Albin dá algumas pistas que facilitam a pesquisa. Listo abaixo.
1) Março de 1926. Estréia na revista "Pirão de Areia" - Teatro São José (Marques Porto- o parceiro esqueci). Consultar jornais do Rio. Acervos de "O Globo" e "O Jornal" estão bastante completos neste período.
2) Agosto de 1926. Rio de Janeiro. Estréia da Companhia Negra de Revistas. Ver edições de setembro e outubro também (pelo menos).
3) 4 últimos meses de 1926. Excursão da Companhia Negra a São Paulo e Minas Gerais. O Estadão publicou matéria que destaca a atuação da Rosa Negra. Consultar também edições de Janeiro de 1927.
4) 1931. Rio de Janeiro. Revista "Com que Roupa", de Luiz Peixoto no Teatro República. Tentar descobrir o mês da estréia para facilitar a consulta.
5) 1932. Rio de Janeiro. Teatro Margarida Max na Piedade.
6) Localizar crônica do Manuel Bandeira. É possível que esteja na internet.
Obs.
As edições antigas dos jornais estão agrupadas por mês, o que agiliza a pesquisa. A Seção de Periódicos da Biblioteca Nacional no Rio é bastante completo e o acervo já foi microfilmado. A BN fornece cópias de parte da página e até da página inteira. Paga-se uma taxa dependendo do pedido. Página inteira deve estar custando em torno de dez reais.

beijão
Henrique Marques Porto
Comentário de Cafu em 1 junho 2009 às 13:00
Henrique,
Vamos ter que reinventar o tempo, para dar conta de tanto trabalho. E ainda tem o material das duas revistas que a Helô descobriu! Completíssimas.
Estou cruzando os dedinhos para que o Marques Porto da autobiografia seja mesmo o tio Agostinho. Se não for, é provável que seja algum antepassado seu que poderá vir a continuar bagunçando o coreto de seu livro!
Os caminhos do resgate de memórias são assim mesmo: labirínticos. Mas parece que temos o fio da meada para nos guiar.

Beijos.
Comentário de Helô em 1 junho 2009 às 14:00
Cafu
Estou achando que o Henrique terá de começar do zero o livro da família! :) Quem mandou se meter com as garimpeiras do portal? hahaha.
Beijos aos dois.
Comentário de Teatro de Revista em 2 junho 2009 às 0:54
E vocês ainda brincam...Vou ter que revisar umas 100 páginas que dava como terminadas. Ô, trabalheira...Já fiz filho e plantei árvore. O livro que falta para terminar o dever de casa nunca fica pronto! :)
beijão
Henrique
Comentário de Helô em 2 junho 2009 às 1:27
Henrique
Depois da descoberta da "Para Todos", acho que você vai ter de escrever mais 100, hahaha. Vou colocar o documento e a foto no próprio post.
Beijos.

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