Conheci Clemência (Quelemença, segundo a própria) em Belo Horizonte. Era arrumadeira. Diarista de quase todos os apartamentos do sétimo andar. Veio de Almenara, no Vale do Jequitinhonha, para tentar a vida na capital, primeiro, quando era jovem, como prostituta, e, depois, quando não mais servia para vender sexo, como empregada doméstica.
Os meninos do apartamento da frente sempre caçoavam dela por causa da falta de dentes. "Nojenta da boca suja" era como se referiam a ela. E a humilhavam perto de outras pessoas, em casa, no hall, onde fosse. Clemência não gostava daquilo, mas não reagia. Perto do que já tinha passado na vida, aquilo era uma coceirinha de nada.

Certa feita, fui reclamar à mãe dos meninos sobre aquele comportamento pouco respeitoso e ela, depois de desculpar-se atrás da sobrecarga de trabalho, fez-me saber que daria um corretivo nos mal-educados. E assim fez. No dia, convidou-me para ser testemunha. Lá estavam, na sala, Clemência e os meninos sentados frente a frente. A mãe ordenou-lhes que pedissem desculpas e prometessem não mais atormentar a arrumadeira.

- Desculpe, Dona Clemência! A gente promete que não vai mais mexer com a senhora.

- Tá desculpado, meninos. E eu prometo que não vou mais escovar a gengiva com as escovas de vocês.

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