Do Terra, 01/04/10.

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

Vivemos num mundo de narrativas. Até mesmo a idéia de 'mundo' só faz sentido dentro de alguma narrativa que lhe dê sentido.

É verdade que as grandes narrativas da modernidade - igualdade entre os humanos, progresso, e domínio da natureza - perderam a luz do iluminismo, e agora, o que enxergamos diante de nós é mais da ordem do paradoxo: um planeta devastado em pleno capitalismo acelerado.

Ora, além de acelerado, o capitalismo de hoje é cultural, prioriza o mercado da informação, a indústria da imagem, ou seja, é um capitalismo das narrativas.

Sendo assim, não deveria ser pouco freqüente a expressão e o conceito de 'capital narrativo'. Porém, ao colocar numa ferramenta de busca, deparei com resultado zero em português.

Essa metáfora econômica tem importância especial nos dias de hoje, e faz referência não apenas ao acúmulo de narrativas marcantes em um sujeito, grupo ou sociedade. Como a narrativa é basicamente algo que se desenrola, o capital narrativo também alude ao potencial de desenrolamento das narrativas contidas em alguém.

O conceito fica bastante claro na hora de votar, quando o eleitor se relaciona de forma intensa com o 'capital narrativo' do candidato, ou seja, o conjunto de possibilidades de indexação imaginária daquele personagem que se apresenta para avaliação pública. Especialmente seus traços mais fortes.

Assim como os lugares de visitação - Paris e romantismo, Rio e Samba, Roma e religiosidade - as pessoas, em nossos dias, também são 'atrativos'. No caso das eleições, poderíamos dizer que o eleitor deseja, de alguma forma, participar de uma narrativa projetada no candidato.

O que seria de Lula, se não existisse em nossa trajetória como sociedade o sonho por algo que fosse o avesso da ditadura, o avesso da elite que a engendrou, o avesso da injustiça social? E, de forma mais recente, o fastio com relação ao discurso de uma certa elite universitária que se julgava mais esclarecida?

O que seria de Lula se não tivesse nascido no Nordeste e palmilhado seu caminho para São Paulo, virando operário, perdendo um dedo, organizando sindicato, partido, campanhas?

Ele, literalmente, traz as marcas desse percurso, de onde retira sua habilidade em modular o discurso e o diálogo com os segmentos sociais brasileiros - independentemente dos resultados dessa estratégia, ou da eficácia do governo.

Mas o nosso assunto não é Lula, foi apenas um exemplo. Nosso assunto é a próxima narrativa. Quais os próximos enredos que serão apresentados à sociedade brasileira? Quais as teclas narrativas que serão necessárias para mobilizá-la? E, mais importante, em que direção? É uma pergunta fascinante.

Neste momento, vários laboratórios devem estar trabalhando para desenvolver, ou simplesmente encontrar, a fórmula narrativa ideal. Só que não é fácil. É preciso tocar fundo na trajetória da coletividade, naquilo que mais convence como sua 'alma'. Algo que não acontece todo dia, e que não segue uma lógica linear.

Há algumas décadas atrás, isso não seria um problema. Tínhamos dois conceitos operadores que balizavam o caminho desejável: direita ou esquerda? Rapidamente conseguíamos interpretar 'qual era' a da narrativa apresentada. Hoje, não é bem assim. A pergunta 'de que lado estamos?' ficou bem mais complicada.

Uma vez ultrapassada a era Lula, e com ela, a solução narrativa de um operário no poder - e mais, levando em conta as crises e contradições acalentadas no próprio período, os altos e baixos -, qual o próximo enredo?

A consciência de que a oposição cristalina entre esquerda e direita turvou-se, não impede de reconhecer algumas bifurcações-desafios que permanecem inteiras: Lutar para dividir o poder ou para concentrá-lo? Para transformar a sociedade ou aceitá-la assim mesmo?

Fazer crescer a economia e diminuir a desigualdade ou estagnar e concentrar?

Garantir a presença do Estado nos grotões ou ceder espaço para o partido da transgressão?

Proceder com seriedade extrema na relação com a coisa pública, inclusive no que tange a sua eficácia, ou alimentar perversões de ordem diversa? Lutar para construir liderança internacional econômica (e ética), ou aceitar uma irrelevância crônica?

Essas perguntas são eixos inquestionáveis para o Brasil. As narrativas propostas tem que ser avaliadas de acordo com a relação que mantenham com as mesmas, embora se saiba que o imaginário é coisa fluida, que a mídia pode funcionar como caixa de ilusões, que o efeito manada existe... Se o objetivo de um determinado grupo fosse lutar para manter a concentração de poder, qual seria a solução narrativa mais adequada, certamente fingindo ser 'coisa nossa'? E se o objetivo de um grupo fosse garantir o crime organizado e o poder paralelo, que efeito narrativo buscaria, como esconderia essas intenções sob uma aparência outra?

A crônica se encerra com esse jogo 'didático' para o eleitor e para o país. Veremos...

Comentário (wposnik)

Tenho estudado a questão do desenvolvimento da narrativa, na educação infantil. Bem antes, da alfabetização. Sua importância fica claramente demonstrada, nas diferenças de rendimento no processo educativo como um todo, em crianças cujos pais têm um nível satisfatório de escolaridade. Achei 'seminal', como se dizia antigamente, este texto deste professor e musicólogo baiano - a construção de discursos os mais diversos, numa sociedade mediática, como a que vivemos hoje. O 'velho' M. MacLuhan, talvez não tenha articulado, com tanta objetividade e clareza, um discurso sobre o discurso e sua importância, nos variados processos, do campo político ao econômico, nas sociedades atuaiis.

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