Portal Luis Nassif

Qual o impacto da queda do preço do petróleo?

Daniel Yergin é um importante analista do mercado de energia, chairman da Cambridge Energy Research Associates (CERA) e ganhador de um prêmio Pulitzer pelo seu livro The Prize: the Epic Quest for Oil, Money, and Power.

Em um artigo publicado recentemente no Financial Times, Yergin aborda questões relevantes sobre as conseqüências econômicas e políticas da queda do preço do petróleo.

1 - Os preços do petróleo são um barômetro da economia mundial. O aumento dos preços entre 2003 e 2007 refletiu o maior crescimento econômico global em uma geração. Este elevado crescimento econômico chegou ao fim não só pela subavaliação de risco, excesso de liquidez e excesso de confiança, mas também por um insustentável boom de commodities, do qual o petróleo era uma parte crucial. Agora, como o mundo caiu em recessão, os preços do petróleo caíram em mais da metade.

2- Evidentemente, um "colapso" de preço para o intervalo de U $ 60 - $ 70 é apenas um colapso quando se esquece que a média dos preços do petróleo em 2007 foi de US $ 72 o barril (e de US $ 66 em 2006). O estreito equilíbrio entre a oferta e a demanda não foi o único fator a impulsionar a subida dos preços do petróleo. A última explosão nos preços do petróleo e de outras commodities começou no fim do Verão de 2007, com o enfraquecimento do dólar que gerou uma "fuga para as commodities".

3 - Os preços do petróleo continuaram crescendo ao longo de 2008 por um fator psicológico, que pode ser descrito como um "entusiasmo contagiante sobre as perspectivas do investimento", que se auto-reforçava e criava a sua própria realidade. Para que isto ocorresse era necessário assumir duas hipóteses equivocadas: 1) a crença no "descolamento"- que o resto do mundo estava imune a uma desaceleração econômica dos Estados Unidos -; b) que o preço não importava - que a oferta e a demanda não seriam afetadas pela elevação dos preços.

4 - O que era mais estranho quanto a este "entusiasmo contagiante" é que, enquanto os preços subiam, os “fundamentos energéticos” declinavam, juntamente com a economia global. O consumo de gasolina nos Estados Unidos atingiu o seu "pico de demanda" em 2007 e estava começando a declinar. Em bases globais, as estimativas para o crescimento da demanda para 2008 caíram de 2.1m barris por dia, no início do ano, para 200.000 barris por dia, agora. E talvez chegue a zero.

5 - O mercado mundial de petróleo está agarrado no que a Cambridge Energy Research Associates, há dois anos, descreveu como um cenário de recessão chamado "fissura global". A demanda de petróleo total nos Estados Unidos durante 2008 caiu 1m barris por dia em comparação com o ano passado. A última vez que a demanda caiu tanto foi em 1981, na véspera da recessão que era até agora conhecida como a "pior recessão desde a Grande Depressão".

6 - O que acontecerá com os preços do petróleo no cenário de “fissura global”? Um dos fatores determinantes mais importantes, tal como nos os aumentos de 2003-2007, é o ritmo do crescimento econômico global. Mas, desta vez, a questão é quão longa e profunda será a recessão e quão grande será o impacto sobre o gasto do consumidor. A outra questão crucial é o próprio abastecimento de petróleo. Quão grande será o fluxo de novas reservas de petróleo que foram estimuladas pelo aumento dos preços e estavam em desenvolvimento, mas foram adiadas pela falta de pessoal e equipamentos?

7 - A Baixa dos preços está forçando as empresas de energia a reduzir seus orçamentos e segurar a partida de alguns novos projetos. Isso irá fazer-se sentir em uma nova virada do ciclo, após uma recuperação econômica.

8 – Em contrapartida, as políticas energéticas da nova administração americana, tal como em outros países, darão uma ênfase maior à eficiência energética e às energias renováveis. Um “programa de estímulo verde” já está no topo da agenda de transição. Mas a questão mais preocupante que ronda Washington é: em que grau a redução dos preços irá impactar negativamente o investimento em energias renováveis e em eficiência.

9 - A resposta não será dada apenas pelo preço da energia, por mais importante que ele seja. O maior impacto virá a partir da saúde da economia, da situação fiscal do país e da disponibilidade de capital e de crédito. Com os custos de duas guerras e um grande resgate financeiro a ser feito, e com um sistema de crédito comprometido, os recursos para outros fins, são susceptíveis de serem restringidos.

10 - Em tais circunstâncias, algum tipo de cobrança ou de leilão para licenças de carbono pode de repente adquirir novos atrativos, não só para combater as alterações climáticas, mas como uma medida de aumento de receita de um governo federal que certamente precisa de dinheiro.

Exibições: 131

Comentário de Oswaldo Conti-Bosso em 30 novembro 2008 às 15:08
Caro Ronaldo Bicalho,

Como você muito bem elencou, o impacto da queda do preço do petróleo nos leva a refletir sobre outras evidências com essa queda de mais de 60% com relação ao pico de $147 dolares o barril; foi, ou era também a bolha especulativa que existia em torno dessa commodity, forçando a questão de falta de dados científicos sobre o peak de produção do óleo e da quantidade de reservas.

Acredito que a descoberta brilhante da Petrobrás com novo salto de tecnologia pela segunda vez em 3 décadas, deve ter impacto, análise essa que deveria e precisa ser melhor estudada. O século XX consumiu por volta de 1 trilhão de barris do óleo e estima-se que ainda existe por volta de 2 trilhões, dados do Aldo Sauer em uma palestra na AEPET se não me falha a memória. Saiu inúmeros livros explorando o assunto e alguns filmes, como A Crude Awakening - The Oil Crash: http://www.youtube.com/watch?v=NlVNyJFBCxc&feature=related , claro que o assunto é sério, mas em décadas e não em anos como se vinha especulando.

O Obama reafirmou esses dias que a queda do preço de petróleo é mais um motivo para reforçar a importância de uma política alternativa na área de energia, a ver entre o discurso e a realidade dos fatos, particurmente não acredito que ele ira falicitar uma política de redução da quota na taxa de importação de etanol do Brasil nos primeiros anos (muito menos eliminação das tarifas sobre as importações de etanol, como sugere o NYT hoje pelo Estadão), sua equipe e ele já deram vários sinais nesse sentido.

Precisa ser analisado que embora eles tenham uma produção menos competitiva com o etanol do milho, o fato é que em uma década eles aumentaram a produção de ethanol vertiginosamente e ainda estamos atrás no total dos números, embora tenhamos começado a mais de três décados, o que devemos ultrapassar em mais alguns anos e temos potencial de duplicar e triplicar, mas nessa década eles viraram o jogo, fato e ponto, mas outro ponto a ser observar.

interessante observar os primeiros passos do novo governo americano, pela pessoas da equipe, está deixando claro que a prioridade americana é o fortalecimento do dólar como moeda mundial, não vão entregar esse osso tão cedo, como vem prevendo as análises do José Luis Fiori, outro ponto aqui a ser observado, como diz o historiador conservador de Harvard, Neil ferguson, o casamento da "AMERICHINA" deve continuar.

Precisamos ser capacitados para criar espaço de um "amante profissional' nessa relação global, veremos,

Sds,
Comentário de JPOX em 30 novembro 2008 às 19:08
Ainda não calculei, mas a correlação entre crescimento do PIB mundial e aumento de demanda/preço do petróleo me parece evidente.

É claro que a descoberta de novas reservas, economia no consumo, produtos substitutos (etanol) e efeitos climáticos atuam em sentido contrário.

Mas utilizando um jargão do mercadores de ações, o gráfico desconta tudo. Alguém sabe onde posso encontrar uma série do PIB mundial, se possível longa, em valores monetários (dólares) ou em variação percentual?
Comentário de Oswaldo Conti-Bosso em 5 dezembro 2008 às 4:49
Caros Debatedores,

Dois pontos:
1- Estava navegando no ciber espaço e achei um cara que esta matando a pau as previsões de
Daniel Yergin e a CERA,

The Sad Record of Daniel Yergin and Cambridge Energy Research Associates
http://home.entouch.net/dmd/cera.htm
ele mostra, no último gráfico, que de Jan. 2002 a Julho de 2008 Cera fez 7 previsões erradas.

Bom pelo visto, depois de julho ele parou de alimentar as críticas nas previsões, mas pegou um período considerável, quase 7 anos de previsões erradas, sendo que a última ele diz que ela previu que iria subir. A CERA pode até ter visão de long prazo, mas quem seguiu ela nesses últimos anos, já está morto. Mas gostaria de ressaltar novamente a questão da visão de longo prazo, mas como disse Keynes, "no longo prazo estaremos todos mortos".

2- Também assisti um vídeo dos gringos debatendo sobre sort-term e long-term das vantagens e desvantagens de exploração de petróleo em agua profundas da costa americano e as alternativas de energia.
Quase no final, aos 55 minutos (Item 14- Where to Invest), o exemplo de sucesso que o cara do governo Bush pega para seu argumentos: a experiência do Brasil, sita o sucesso do caso de biocombustível e também o caso da Petrobrás com o novo sucesso de óleo em águas profundas.
http://fora.tv/2008/11/13/Offshore_Oil_Panel

Porque não podemos ter nosso ufanismo, o melhor do brasil é o brasileiro e as estratégias energeticas do Brasil das últimas décadas. Bom demais e tem que ser ressaltado.

Sds,

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2017   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço