José Cleves
O torcedor mineiro está pagando caro pelo péssimo comportamento da imprensa local no episódio do fechamento de seus dois únicos estádios – o Mineirão, em reforma para a Copa 2014, e o Independência, também interditado para reforma. Faltou senso critico para impedir que o então governador da época e hoje senador, Aécio Neves (PSDB), permitisse esta burrice de deixar a capital sem estádio.
Aliás, falta de senso critico e burrice, neste caso, é eufemismo. Houve na verdade uma venda em atacado e no varejo da opinião para o governador em troca de verbas públicas. Teve de tudo: controle da redação, censura, autocensura, covardia, enfim, a imprensa comprada mais uma vez traiu o povo e deixou a conta para o torcedor e os jogadores pagarem. Sem estádios, todos os jogos do Brasileirão foram fora de casa para os três times mineiros Cruzeiro, Atlético e América. Foi um erro brutal do governo que a imprensa cega e conveniente deixou passar batido. Dirão alguns que a medida era inevitável, devido à necessidade das reformas. Mas cadê a competência do governo que não previu isso? Outros, dirão que o governo buscou alternativas, reformando a Arena do Jacaré, em Sete Lagoas. Uai, porque arrumar um campo longe da capital, se tínhamos alternativas na Grande BH. Em Nova Lima, a menos de 20km, tem um terreno disponível do centenário Vila Nova, o time mais tradicional do interior mineiro, várias vezes campeão do Estado. Porque não se construiu o estádio neste terreno, se havia projeto para isso, inclusive uma emenda ao orçamento federal para esse fim? Chegou-se, até, a ser elaborado um projeto do estádio que seria a terceira via para jogos de até 30 mil espectadores.
Eu participei da apresentação desse projeto, com emenda ao orçamento federal proposta pelo então deputado federal, Virgílio Guimarães (PT).
Ranço político
A verdade tem que ser dita. O governo levou o projeto para Sete Lagoas porque Nova Lima é administrada pelo PT. O mesmo ocorre com as vizinhas Betim e Contagem, duas das maiores economias do Estado. Ou seja, o ranço político falou mais alto, obrigando torcedores e jogadores a enfrentarem uma rodovia federal (BH-Brasilia) para os jogos “em casa”. Ficaram outras duas alternativas: o Parque do Sabiá, em Uberlândia, a 556 km da capital, ou o Ipatingão, no Vale do Aço, a 230 km pela BR 381,no trecho mais perigoso do País.
A pergunta é simples: onde estava a imprensa nessa hora que não deu o grito? Enfiaram o rabo entre as pernas e deixaram a coisa rolar, porque havia à época a expectativa de Aécio ser candidato à Presidência da República. Os racionais comprados pelo governo, mesmo sabendo das conseqüências dessa aventura, ficaram calados. E os omissos por ofício, idem. Os poucos que chiaram não tiveram vez, porque o sistema é cruel. A imprensa é controlada por empresários que somente visam dinheiro. Quando o cara presta, ainda dá para equilibrar a situação, como ocorreu em alguns poucos veículos de comunicação onde um ou outro repórter botou a boca no trombone, mas foi “engolido” pela maioria.
Cartola vira senador
Não estou afirmando que o Cruzeiro, tido como favorito da competição, virou esse lixo somente por causa disso. O mesmo falo do Atlético, que tinha condição de disputar o título, mas voltou a brigar pelo não rebaixamento. E do América, que privatizou a lanterna desde o início do campeonato. Os times erraram também, claro. Mas o fator campo foi o que mais pesou. Fui domingo a Sete Lagoas ver o jogo Cruzeiro e Corintians somente para sentir na pele a dor do torcedor. Uma tortura. Muitos perderam a viagem, por falta de ingresso, e depois tiveram que enfrentar engarrafamento na volta. A revolta aumenta quando vemos o jogo sujo que motivou toda essa peleja. Veja o caso do Cruzeiro. O seu presidente Zezé Perrela foi candidato a senador na chapa de Itamar Franco pelas mãos de Aécio. Imaginem se ele iria reclamar das decisões do então governador de levar os jogos para Sete Lagoas.
Mas a minha queixa maior é contra a imprensa, da qual faço parte, como jornalista. Uma vergonha o que vem ocorrendo em Minas. Qualquer pesquisa de opinião feita para avaliar a credibilidade da imprensa mineira vai ser uma tragédia para os jornalistas. O jornal Estado de Minas, o chamado Jornal dos Mineiros, já vendeu a alma para o diabo há muito tempo. As páginas de política são do Palácio da Liberdade desde quando Aécio foi eleito governador. Virou chapa branca e objeto de chacota dos leitores.
A Rádio Itatiaia, uma das maiores do País e líder de audiência em Minas, também mandou mal nessa, embora alguns de seus profissionais continuem mantendo a sua linha de independência, como é o caso do meu amigo Eduardo Costa, o Carlos Viana e o próprio Laudivio Carvalho, que não poupam o Estado errado. Mas o pessoal do esporte, comandado por Emanuel Carneiro, que conheço pouco e ouço muito, todo dia, foi outro que bobeou, não por maldade, mas por descuido. Eu diria que até essa emissora, de língua afiada e extremado senso critico, falhou.
A verdade é que a imprensa deixou o mal acontecer e agora corre o risco de cobrir a série B no ano que vem, a menos que o Boa Esporte, mesmo expatriado de sua cidade natal, Ituiutaba – e agora de Varginha, a terra dos Ets, suba para a elite do nosso futebol..
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