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  Eu estava com 32 anos e me encontrava quase na merda.Dois anos antes Pellegrini,pegando a todos nós de surpresa,resolveu fechar o Brasília News e o A Luta.Na verdade não era uma surpresa.Os dois jornais vinham definhando há quase 3 anos;as vendas avulsas caíram vertiginosamente,as assinaturas idem e depois de transformá-los em digitais ( mais uma tentativa de salvá-los,além de vendermos o semanário A Luta em bares,restaurantes,universidades e até em puteiros sem o sucesso de antes ),sem contar os inúmeros processos na justiça, que fizeram Pellegrini torrar dois dos seus 4 apartamentos na Asa sul.Era um falecimento previsível.

 Pellegrini quando avisou a todos da pequena redação - e com os cheques em suas mãos para nos pagar - ,sem rodeios,que iria fechar a redação e  se mudar para Búzios e montar um bar eu,inconformado,voei no seu pescoço e fui contido pelos colegas de de 5 anos de labuta jornalística independente.

  Bom,na verdade o A LUTA era anarco-trotisquista ( entendam vocês ) e o Brasília News,que circulava de segunda a sexta,era mais versátil nas sua matérias,sem uma linha editorial específica.Todaviaos meus contos ,considerados indecentes,e os ensaios fotográficos de Sueli Brandão,com mulheres nuas e homens nus em várias posições e as entrevistas ,caríssimas por sinal,de Júlio Lima com atores famosos de telenovelas,que as vezes soltavam o verbo,faziam do News um jornal diferente,abusado.

  Naquela época do fechamento da redação eu morava num bom quarto e sala na 206 bloco F e  nessa mesma época os meus pais se aposentaram e se mandaram com meus dois irmãos de volta para o Rio de Janeiro.Eu não fui convidado para esta festa.Era mal visto pelo meus pais,já escrevi sobre isso.Ademais ,eu ainda tinha um ano de contrato pela frente no apê onde morava.

  Antes de ir meu pai me respondeu ,após eu lhe pedi uma grana do grande apê que ele vendeu : _ Você não nos disse que era o novo gênio da literatura,o novo gênio do jornalismo,o verdadeiro representante do New jornalism( há décadas sepultado pelo jornalismo empresarial ),que cagava para a nossa vida pequeno-burguesa,que cagava para o nosso dinheiro ? Agora se vire,ó grande gênio !

  E ainda acrescentou : -E se quiser voltar para o Rio terá que parar de berber,fumar,e usar tóxico.

  Eu ponderei : - Mas maconha não é tóxico,é remédio.

  Ele virou as costas para mim e me falou,antes de entrar no seu carro,aquele Fique COM DEUS.

   Com dinheiro da chamada indenização( nós não tínhamos carteira assinada,exceto a amante de Pellegrini,a secretária de redação ) eu paguei um ano de aluguel e ainda me sobrou alguma grana para pagar condomínio ,IPTU,cerveja,cigarro,luz,comida,maconha e outras necessidades básicas que todo indivíduo deveria ter direito.

   Eu estava andando pelas entre-quadras e comecei a me sentir um sujeito anormal em uma sociedade em que todo o indivíduo,me refiro a classe média,classe da qual eu surgi para o mundo,deveria formar-se numa universidade federal ou estadual,arrumar um bom emprego,preferencialmente no funcionalismo público,ou numa grande multinacional,e fazer uma grande carreira;casar-se,ter dois filhos,comprar um bom imóvel,pagar regiamente seus impostos e consumir muito,isto é ser um consumista voraz de todos os tipos de mercadorias da modinha.Eu não era assim .

  Aos 32 anos,prestes a não ter mais dinheiro para continuar pagando aluguel,luz,IPTU,condomínio e etc e tal,eu era um cara fora do eixo. Eu era um escritor inovador( e renegado pelo mercado),me recusei a fazer mestrado de jornalismo,nunca pretendi ser funcionário público,nunca quis casar-me nos moldes convencionais ( morei apenas com duas mulheres,sendo que as duas relações não duraram nem um ano cada uma ),muito menos constituir uma família e amava morar só e encher as caras todos os dias depois de cumprir com os meus compromissos.

  Neste espaço de tempo em total inércia ainda tentei me inserir no esquemão do jornalismo por pura sobrevivência ,mas as investidas no mercado empresarial jornalístico foram infrutíferas.Eu era um cara marcado,não tive a mesma intenção que meus colegas de redação do News e do A Luta , que  se tornaram funcionários públicos federais,sendo que Sueli Brandão,a fotógrafa ousada e libidinosa ,passou no concurso para a TV Senado e casou-se com um senador do PSDB.Traidora ! Foda-se ela.

  Nada dava certo.Vendi o velho gol de 2008,fiquei com algum capital.Mas até quando ?

  Um dia estava bebendo uma cerveja barata e asquerosa sozinho na pracinha da 205 e comecei a pensar em suicídio.Sim,em suicídio.O dinheiro só daria para pagar mais 3 meses de aluguel,depois iria me recusar a usar o meu dinheiro da bebida,do cigarro,da comida e do remedinho para pagar filha da puta de imobiliária nenhuma.Iria morar na rua ,na sarjeta ! "FIque COM DEUS !" Não foi a frase proferida pelo meu pai.Pois bem,o DEUS DELE ESTAVA ME FODENDO !

 Estava com um pequeno isopor na pracinha com 10 latinhas daquela cerveja barata,queria ficar só,era a noite,umas 21 horas,todos os meus colegas e amigos deveriam estar em casa ou nos bares da comercial ou se entorpecendo em algum lugar.

 Inesperadamente ( não era hora deles aparecerem) dois Anús pretos apareceram no banco ao lado.Os dois falaram ao mesmo tempo :-Quem mandou sonhar demais,seu bundão!Temque se matar mesmo ." Depois se foram,nem quiseram me ouvir meus argumentos,os meus desabafos.

 No dia seguinte,resoluto em dar cabo a minha vida,fui até o Hospital Santa Luia e procurei um amigo de velha data,mais velho que eu 3 anos,que se tornara médico,clínico-geral,Raul.Entrei em seu consultório depois de esperar 1 hora e fui logo pedindo-lhe : "Raul,quero uma receita de Rivotril de 2 mg .Pode ser ? "

  Raul era um babaca quando estava naquela porra daquele hospital.Ele me corrigiu :" Raul não,Dr.Raul.Não estamos no bar e além disso você nem irá pagar a consulta." 

  Ele foi pegando a receitaazul sem pestanejar ,sem indagar,pois sabia da minha situação  e,ainda por cima,me deu uma nota de cem reais.

  Comprei a porra do remédio,deixei-o em casa,fui para um boteco da 311 sul,lá ninguém me conhecia,e comecei os trabalhos na cerva.Por lá fiquei até às 17 hs,voltei para o apê,recomecei os trabalhos com as latinhas da cerva barata;escrevi um bilhete de 7 linhas para a minha família,um bilhete para Maria Clara com 6 linhas e um bilhete para todos os amigos 20 linhas.Ufa,que merda era ficar escrevendo bilhetes com papel e caneta ! Acostumara há anos com o computador.Porém,bilhetes escritos a mão era mais charmosos.

 Depois fumei um bag enorme,bebi mais cerveja , ingeri 4 comprimidos de Rivotril ,coloquei um CD velho do Slade e deitei-me na cama.Era o fim. ! Adeus vida !

  No dia seguinte ,era junho,estávamos na seca, abri os olhos,grogue,e vi que chovia.Morrera de fato,estava chovendo no final de junho em Brasília.Não,não morri,meus caros.Estava vivíssimo ! Vivo e completamente grogue da bebida ,da maconha e do Rivotra.

  O suicídio malogrou.Quando nada dá mais certo,até quando se quer morrer a coisa desanda.

  Leitores,desculpem-me pelo erros de digitação,já estou farto de explicar-lhes os motivos.

  

  

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