Quanto custa o seguro contra a falta de energia elétrica: um desafio para o setor elétrico brasileiro

As discussões sobre o setor elétrico se concentraram no último mês nos custos e benefícios dos procedimentos adotados pelas instituições setoriais para aumentar a segurança do suprimento de energia elétrica no país.

O Instituto Acende Brasil, na sétima edição do seu relatório Programa Energia Transparente, fez duras críticas aos novos procedimentos, alegando que os seus custos eram muito maiores do que os seus benefícios.

O Operador Nacional do Sistema (ONS), através do seu diretor geral, Hermes Chipp, refutou as afirmações do Instituto Acende Brasil, argumentando que a metodologia utilizada no relatório não era adequada, sob o ponto de vista técnico, para análise da tomada de decisão sobre a garantia do atendimento no ano corrente.

Por traz dessa discussão, que tem lá suas conotações políticas, face ao claro posicionamento político assumido pelo Instituto de oposição ao atual Governo, e ao fato do ONS representar as posições deste mesmo Governo, coloca-se uma questão de essencial importância para a evolução do setor elétrico brasileiro.

Essa questão diz respeito às radicais transformações em curso nas condições de oferta da energia elétrica no Brasil, que estão associadas à perda da capacidade de regularização dos grandes reservatórios das hidrelétricas brasileiras; em função das dificuldades do licenciamento ambiental, que implica menor quantidade de novos projetos hidráulicos, e da redução do tamanho dos reservatórios destes novos projetos, que implica menor capacidade de regularização de seus reservatórios.

Adicione-se a isso a contratação de térmicas com custos de geração mais elevados, que dificultam o seu despacho pela ordem de mérito (mérito = custo de geração menor) e faz com que, no curto prazo, a preferência recaia sobre o maior despacho das hidráulicas (custo de geração mais baixo), portanto, sobre a maior utilização da água que se encontra nos reservatórios, e temos a seguinte situação:

a) Maior dependência dos períodos chuvosos
b) Necessidade de uso mais intenso de geração térmica

Em suma, os nossos reservatórios que tinham uma capacidade de armazenar energia por vários anos foram perdendo essa capacidade e hoje conseguem armazenar água por um tempo muito menor. Em outras palavras, a margem de segurança, representada pela água armazenada nos reservatórios, reduziu-se sensivelmente. Face a isto, passamos a depender, cada vez mais, das chuvas, por um lado, e das térmicas, por outro.

É aquela velha história, você tinha uma casa na praia que tinha uma boa caixa-d´água que permitia atravessar um mês sem preocupação. Quando calhava de não entrar água da rua, a água armazenada na caixa segurava a barra, e se fosse preciso você comprava umas garrafas de água mineral e dava para levar numa boa. A família cresceu, vieram os filhos, as noras, os agregados e o consumo de água foi crescendo, a capacidade da caixa não aumentou. Hoje, aquela caixa que dava para um mês de consumo só dá para um fim-de-semana. Face a isto, você passou a depender, cada vez mais, da água que entra da rua e das compras de água mineral, que, por sua vez, ficou bem mais cara. Enfim, a situação, que era confortável, deixou de sê-lo.

Em linhas gerais, isto é o que aconteceu com o setor elétrico brasileiro. A situação de segurança do suprimento que era confortável deixou de sê-lo.

O racionamento ocorrido no início desta década e as tensões geradas a partir da baixa pluviosidade do início do ano passado deixaram claro essa mudança nas condições de operação do sistema elétrico brasileiro. A questão agora é como nós vamos lidar com essas novas condições.

A resposta não é simples porque envolve escolhas que não são óbvias. A primeira delas diz respeito ao nível de segurança que desejamos ter, a segunda, ao quanto estamos dispostos a pagar por isto, e, a terceira, a quem vai pagar a conta.

As discussões do mês passado constituem apenas o início de um longo processo que teremos de enfrentar até encontrar o melhor equilíbrio entre os benefícios da segurança e os seus custos.

Dadas as especificidades do sistema hidráulico brasileiro não existem modelos sobre os quais nós podemos nos apoiar. Por isso, não adianta olhar a experiência dos outros países, dado que o nosso sistema é único, tampouco a nossa própria experiência pretérita, dado que as mudanças que estão ocorrendo alteram completamente o próprio sistema, de tal forma que o passado não é mais uma boa referência sobre o que pode acontecer no futuro.

Enfim, estamos, mais uma vez, condenados a ter que encontrar nossas próprias soluções para os problemas que nos são próprios.

E antes que alguém venha com aquela velha história de que se só tem no Brasil e não é jabuticaba... Esqueça. No caso do setor elétrico isto é uma idiotice.

Meus amigos, o setor elétrico no mundo é uma plantação de jabuticabas. A questão fundamental aqui é cada um saber plantar e colher as suas. Enfim, tem a jabuticaba americana, a jabuticaba inglesa, a jabuticaba escandinava, a jabuticaba chinesa, a brasileira, a chilena, e assim por diante.

Agora, se tem gente que não gosta disso, ou que só domina uma abordagem conceitual que não dá conta dessa diversidade, sugiro tratar de outros setores que não sejam o setor elétrico.

Dessa forma, estamos diante de uma pauta difícil em termos técnicos, econômicos e políticos. Por isso, as simplificações não ajudam em nada no seu equacionamento; tampouco as tradicionais marcações de posição. Bons para discussões retóricas, esses recursos têm pouca valia em discussões complexas. Por isso, uma boa baixada de bola sempre é bem-vinda.

Por último, um lembrete aos meus valorosos colegas do setor elétrico que adoram um modelo. Como me disse um colega que bate um bolão nessa área, em um raro momento de lucidez e humildade: modelos nos ajudam a tomar decisão; modelos não tomam decisão por nós; estas são de única e exclusiva responsabilidade nossa, para o bem ou para o mal.

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Comentário de André Luís da Silva Leite em 7 julho 2009 às 1:41
Oi, Ronaldo, excelente texto. Convém apenas lembrar que na época pré-reforma, os custos da capacidade adicional (MW) do sistema estavam incorporados às tarifas, de forma indiscriminada. om as reformas, várias formas de precificar a capacidade vieram à tona. E, concordo com vc, esse é um problema doméstico que demanda uma solução doméstica. Não será nada trivial. Abraços,
Comentário de RatusNatus em 15 julho 2009 às 17:41
Aaaa ronaldo, assim não dá.

Me parece óbvio que a solução ideal para nós seria complementar nossa base com plantas eólicas.
Por que isso não é óbvio pra mais ninguém? Isso eu não consigo entender. Cansei!
Parece que o MME vai fazer seu leilão de eólicas apenas para satisfazer o MMA quando isso deveria ser a prioridade máxima do MME.

Deixa eu ver se entendi o problema. Não querem mais girar as térmicas porque é caro. Humm, acho que eu já tinha dito isso por aqui a uns 6 meses atrás.

Então, porque não gerar eólica, MUITO mais barata que a térmica. Tenho certeza que você sabe disso.
No inverno, nosso Calcanhar de Aquiles, a geração eólica é fortalecida.

Me parece tão ridiculamente óbvio que o que me impressiona é que ninguém mais discuta isso por aqui.
Não querem se dar por vencidos pelo MMA por birra mesmo. Enquanto isso, vamos pagando a conta, e os aumentos vem aí. E não devem parar...

abraço

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