Texto extraído do livro One Long Argument: Charles Darwin and The Genesis of Modern Evolutionary Thought de Ernst Mayr. Harvard University Press.

Os períodos históricos são dominados por conjuntos distintos de idéias que quando agrupados formam o Zietgeist daquele período. A filosofia Grega, o Cristianismo, a Renascença a revolução Científica e o Iluminismo, são exemplos de conjuntos de idéias que dominaram determinado período histórico. As mudanças de um período para outro normalmente ocorrem de maneira gradual. Existem outras mudanças, entretanto, que podem ocorrer de uma forma mais abrupta. Estas são freqüentemente referidas como revoluções. De todas essas revoluções intelectuais, foi a revolução Darwiniana que trouxe as maiores conseqüências. A visão de mundo do homem ocidental, depois de 1859, quando A Origem das Espécies foi publicada, era completamente diferente da visão de mundo formada antes daquela data. É quase impossível para uma pessoa moderna imaginar-se no início do século dezenove e reconstruir o pensamento desse período pré-Darwiniano, tão grande foi o impacto do Darwinismo sobre nossas concepções.

A revolução intelectual gerada por Darwin foi muito além da biologia, causando a subversão de algumas das crenças mais fundamentais. Por exemplo, Darwin refutou a crença da criação individual de cada espécie, estabelecendo o conceito de que todas formas de vida descendem de um ancestral comum. Por extensão, ele introduziu a idéia de que os humanos não são produtos especiais da criação, mas evoluíram segundo os mesmos princípios que atuam no mundo vivente. Darwin perturbou as noções correntes de um mundo benigno e perfeitamente projetado, colocando no seu lugar o conceito da luta pela sobrevivência.

As noções Vitorianas de progresso e perfeição foram seriamente abaladas pela demonstração de Darwin de que a evolução causa mudança e adaptação, mas não necessariamente leva ao progresso, e nunca a perfeição. Além disso, Darwin estabeleceu as bases para um tratamento totalmente novo da filosofia. Naquela época quando a filosofia era dominada por metodologias baseadas em princípios matemáticos, leis físicas e determinismo, Darwin introduziu os conceitos de probabilidade, acaso, e singularidade, no discurso científico. Seu trabalho incorporou o princípio de que a observação e a geração de hipóteses são tão importantes para o avanço do conhecimento quanto a experimentação.

Darwin seria lembrado como um excelente cientista mesmo se nunca tivesse escrito uma palavra sobre evolução. Segundo o evolucionista J.B.S. Haldane, a contribuição mais original de Darwin para a biologia, não foi a teoria da evolução, mas sim a série de livros sobre botânica experimental publicada quase no final de sua vida (Haldane 1959:358). Tal realização é pouco conhecida entre os não biólogos, e o mesmo é verdade para o excelente trabalho sobre a adaptação das flores e sobre a psicologia animal, bem como seu competente trabalho sobre cirripédios e seu criativo trabalho sobre minhocas. Em todas essas áreas Darwin foi um pioneiro, atacando importantes problemas com extraordinária originalidade, tornando-se o fundador de diversas disciplinas, agora bem reconhecidas (Ghiselin 1969). Apesar disso, demorou mais de meio século para que outros autores desenvolvessem seus trabalhos a partir dos fundamentos deixados por Darwin. Fica claro, portanto, que ele foi o primeiro a elaborar uma sólida teoria da classificação, ainda adotada pela maioria dos taxonomistas. O seu tratamento à biogeografia, enfatizando o comportamento e a ecologia dos organismos como fatores da distribuição, está muito mais próximo da biogeografia moderna, do que o tratamento geográfico-descritivo que dominou aquela disciplina por mais de meio século após a morte de Darwin.

Quem foi este extraordinário homem, e como surgiram suas idéias? Seu sucesso deve-se a sua instrução, personalidade, diligência ou ao seu gênio? De fato, como veremos mais adiante, tudo estava envolvido.


O Homem e Seu Trabalho

Charles Darwin nasceu em 12 de fevereiro de 1809, em Shrewsbury, Inglaterra, o quinto dos seis filhos e o segundo menino do Dr. Robert Darwin, médico eminentemente bem-sucedido. Seu avô foi Erasmus Darwin, autor de Zoonomia, trabalho que antecipou os interesses de seu neto pela evolução, e que tentava explicar a vida orgânica de acordo com os princípios evolutivos. Sua mãe, filha de Josiah Wedgwood, celebrado oleiro, morreu quando Charles tinha apenas oito anos. Suas irmãs mais velhas tentaram, então, ocupar o lugar da mãe.

Desde cedo Darwim era apaixonado pela natureza. Como ele mesmo disse, “Eu nasci naturalista.” Todo aspecto da natureza o intrigava. Ele amava colecionar, pescar, caçar e ler livros sobre a natureza. Shrewsbury era uma cidade de 20.000 habitantes — lugar perfeito para o desenvolvimento de um naturalista, bem melhor que a cidade grande ou uma área estritamente rural.

A escola, voltada basicamente ao estudo dos clássicos, entediava muito o jovem naturalista. Antes de completar dezessete anos seu pai mandou-o a Universidade de Edinburgo para estudar medicina, como seu irmão mais velho. Mas a medicina intimidava Charles, e ele continuou a se dedicar ao estudo da natureza. Quando ficou claro que ele não queria mais ser médico, seu pai, então, mandou-o à Cambridge, em 1828, para estudar teologia. Pareceu uma escolha razoável já que naquele tempo, todos os naturalistas da Inglaterra eram ordenados ministros, como os professores de botânica (J.S.Henslow) e geologia (Adam Sedgwick), da Universidade de Cambridge. As cartas e as notas biográficas de Darwin davam a entender que em Cambridge, ele se dedicava mais a colecionar besouros, discutir botânica e geologia com seus professores, caçar e cavalgar com seus colegas, do que aos estudos. Ainda assim ele prosperava nos exames, e quando obteve seu B.A.(bacharel em humanidades) em 1831 ficou em décimo lugar na lista dos estudantes sem distinção. O mais importante é que ao completar seus anos de Cambridge, Darwin já era um naturalista talentoso.

Imediatamente ao final de seus estudos, Darwin recebeu um convite para embarcar no H.M.S. Beagle como naturalista e companheiro de viagem do Capitão Robert FitzRoy. FitzRoy havia sido comissionado para inspecionar as costas da Patagônia, Terra do Fogo, Chile e Peru, fornecendo informações para elaboração de novos mapas. A viagem estava programada para dois ou três anos, mas durou cinco. O Beagle deixou Plymouth em 27 de Dezembro de 1831, quando Darwin tinha vinte e dois anos, e retornou à Inglaterra em 2 de Outubro de 1836. Darwin aproveitou ao máximo esses cinco anos de viagem. Numa agradável palestra (Journal of Researches) ele conta sobre todos os locais que visitou — ilhas vulcânicas e coralígenas, florestas tropicais do Brasil, os vastos pampas da Patagônia, uma travessia dos Andes, do Chile a Tucuman, na Argentina, e muito mais. Todos os dias lhe traziam novas e inesquecíveis experiências, o que foi muito importante para o seu trabalho. Ele coletou espécimes de diferentes grupos de organismos, descobriu fósseis importantes na Patagônia e devotou muito do seu tempo a geologia. Mas acima de tudo ele observou muitos aspectos da natureza, indagando-se sobre os processos naturais. Levantava questões não somente sobre aspectos geológicos e da vida animal, mas também sobre situações políticas e sociais. Foi a sua habilidade para levantar questões mais profundas, e a sua perseverança para tentar respônde-las, que fez de Darwin um grande cientista.

Apesar de ficar desesperadamente enjoado quando o navio encontrava águas turbulentas, Darwin administrava muito bem toda a literatura científica que trouxe consigo. Nenhum trabalho foi mais crucial para suas novas idéias do que os dois primeiros volumes do Principle of Geology de Charles Lyell (1832). Essa leitura foi, para Darwin, um curso avançado em geologia uniformitarista — a teoria de que as mudanças na superfície da terra teriam ocorrido gradualmente, durante longos períodos de tempo. A partir daí, Darwin também ficou ciente dos argumentos de Jean Baptiste Lamarck, a favor da evolução, bem como dos argumentos de Lyell, contrários a este pensamento.

Quando Darwin embarcou no Beagle, ainda acreditava na estabilidade das espécies, assim como Lyell e todos os professores da Cambridge. Mesmo durante a fase Sul-americana de sua viagem, Darwin fez muitas observações que o deixaram embaraçado e que abalaram sua crença na estabilidade das espécies. Mas foi sua visita às Galápagos, em setembro e outubro de 1835, que lhe deram as evidências mais cruciais; ainda que a princípio ele não imaginava essa possibilidade, pois estava mais preocupado com as pesquisas geológicas. No entanto, nove meses depois, em julho de 1836, escreveu essas palavras em seu diário: “Quando vi essas ilhas uma em frente à outra, com uma fauna escassa, habitadas por esses pássaros que pouco diferiam quanto a sua estrutura e que ocupavam o mesmo lugar na natureza, suspeitei que seriam variedades. Se há pouco fundamento para essas observações, então a zoologia do arquipélago precisaria ser examinada com mais rigor, pois tais fatos poderiam abalar a questão da estabilidade das espécies” (Barlow 1963).

Após sua chegada à Inglaterra em outubro de 1836, Darwin organizou suas coleções e mandou-as a vários especialistas para serem descritas no relato oficial da expedição. Em março de 1837, o celebrado ornitologista John Gould insistiu que os tordos-dos-remédios (Mimus) coletados por Darwin nas três diferentes ilhas, em Galápagos, eram três espécies distintas, em vez de três variedades como ele achava. Darwin, desta maneira, começou a compreender o processo de especiação geográfica (Sulloway 1982; 1984): uma nova espécie pode surgir, quando uma população se torna geograficamente isolada de sua espécie parental. Além disso, se os primeiros colonizadores, derivados de um único ancestral Sul-americano, originaram três espécies nas Galápagos, então todas as espécies de tordos-dos-remédios do continente talvez derivassem de uma única espécie ancestral. Desta maneira poderiam ser espécies de gêneros relacionados e assim por diante. Numerosas declarações nos escritos de Darwin confirmam que desde a primavera de 1837 ele já acreditava firmemente na origem gradual de novas espécies pela especiação geográfica, e na teoria da evolução pela ascendência comum (ver Capítulo 2). Demoraria mais um ano e meio, todavia, para que Darwin concebesse o mecanismo da evolução, ou seja, o princípio da seleção natural. Isto aconteceu em 28 de Setembro de 1838, quando ele leu o Essay on the Principle of Populations de Thomas Malthus (ver Capítulo 6).

Em Janeiro de 1839 Darwin casou-se com Emma Wedgwood, e em Setembro de 1842 o jovem casal saiu de Londres para uma casa de campo, no pequeno vilarejo de Down (Kent), dezesseis milhas ao sul de Londres, onde Darwin viveu até sua morte em 19 de Abril de 1882. A saúde de Darwin exigiu a mudança para um local mais tranqüilo, no campo. Com apenas trinta e poucos anos de idade Darwin já não conseguia trabalhar por mais que duas ou três horas seguidas, por dia — no final de sua vida, ele estava completamente debilitado. A natureza exata de sua doença, ainda é controversa, mas todos os sintomas indicam um mal funcionamento do sistema nervoso autônomo.



"A Origem das Espécies"

Darwin demorou mais vinte anos para publicar suas teorias sobre a evolução. Mesmo assim, durante este período, escreveu alguns manuscritos preliminares em 1842 e 1844. Ele devotou todo este tempo aos seus livros e artigos sobre geologia, bem como a sua monumental monografia de dois volumes sobre os cirripédios. Porque Darwin gastou oito anos neste trabalho de taxonomia, em vez de investir na publicação de sua importante descoberta sobre a evolução por ascendência comum por meio da seleção natural? Pesquisas históricas modernas feitas por Ghiselin (1969) e outros, mostram claramente que os estudos sobre cirripédios, feitos por Darwin, foram um curso em taxonomia, morfologia e pesquisa ontogenética, e não um desperdício de tempo. A experiência que ele ganhou nestas pesquisas foi de inestimável valor para sua obra, As Origens das Espécies.

Finalmente em Abril de 1836, Darwin começou a compor o que ele considerava como o seu “grande livro das espécies”. Dois anos mais tarde, depois que terminou os primeiros nove ou dez capítulos, recebeu uma carta do naturalista Alfred Russel Wallace, que naquela época estava coletando espécimes nas Moluccas. Esta carta que Darwin recebeu em junho de 1858, veio acompanhada por um manuscrito. Wallace solicitava à Darwin que lê-se o manuscrito e, se o aprovasse, pedia para submete-lo a algum jornal. Ao ler o manuscrito, Darwin ficou atordoado. Wallace, essencialmente, havia chegado a mesma teoria da evolução por ascendência comum por meio da seleção natural. Em 1 de Julho de 1858, os amigos de Darwin, Charles Lyell e o botânico Joseph Hooker apresentaram os manuscritos de Wallace juntamente com os excertos dos manuscritos e cartas de Darwin, no encontro da Sociedade Linneana de Londres. Esta apresentação culminou com a publicação simultânea das descobertas de Darwin e Wallace. Darwin rapidamente abandonou a idéia de terminar seu monumental trabalho sobre as espécies e escreveu aquilo que chamou de “resumo”, o seu famoso trabalho, A Origem das Espécies, publicado em 24 de Novembro de 1859.

O impacto da Origem foi enorme. Esta obra foi referida, de maneira correta, como “o livro que abalou o mundo”. No primeiro ano foram feitas 3.800 cópias, e durante a vida de Darwin só na Grã-Bretanha foram feitas mais que 27.000 cópias. Diversas impressões americanas, bem como inumeráveis traduções, também apareceram. Todavia, somente na nossa época é que os historiadores compreenderam quão fundamental foi a influência deste trabalho. Toda discussão moderna sobre o futuro do homem, a explosão populacional, a luta pela existência, o propósito do homem e do universo, bem como o lugar do homem na natureza, permanece em Darwin.

Nos trinta e três anos restantes de sua vida, Darwin trabalhou arduamente com outros aspectos da evolução que não conseguiu tratar adequadamente na Origem. Num trabalho de dois volumes, The Variation of Animals and Plants under Domestication (1868), ele enfrentou o problema da origem da variação genética. Em The Descent of Man and Selection in Relation to Sex (1871), tratou da evolução da espécie humana e expandiu sua teoria da seleção sexual. The Expression of the Emotions in Man and Animals (1872) deixou os fundamentos para o estudo do comportamento animal. Sua obra, Insectivorous Plants (1875) descrevia a notável adaptação da drósera e de outras plantas carnívoras. Em The Effects of Cross-and Self-fertilization in The Vegetable Kingdom (1876), em The Different Forms of Flowers on Plants of the Same Species (1877), e no The Power of Movement in Plants (1880), Darwin discutiu aspectos do crescimento e da fisiologia das plantas, como indicado nos títulos das referidas obras. E finalmente em The Formation of Vegetable Mold, through the Action of Worms, with Observations on Their Habits (1881), ele descreveu o importante papel das minhocas na formação da camada superior do solo.

Como pôde um único homem realizar tanto durante a sua vida, considerando as restrições impostas por sua doença? Isso somente foi possível porque Darwin se isolou num lugar tranqüilo, onde vivia das rendas herdadas do pai. Ele recusava muitos convites para assumir cargos em repartições, ou para ser membro de associações em comitês. Mesmo assim, Darwin não era um recluso. Ele mantinha contato com o mundo científico por correspondências e visitas ocasionais à Londres. Quanto a sua vida familiar, Darwin era um marido devotado e um dedicado pai de dez crianças.

Darwin foi descrito por seus contemporâneos como sendo uma pessoa extraordinariamente modesta e gentil, que muitas vezes abdicava de suas maneiras para não ferir os sentimentos alheios. Trabalhou duramente porque tinha uma insaciável sede de aprender, mas não no sentido de se promover ou receber honrarias. Em suas publicações ele era o cientista dos cientistas. Ele não escrevia para o público em geral; quando algum de seus trabalhos alcançava sucesso entre o público leigo, ficava sempre maravilhado.

Darwin, todavia, lutava pelo reconhecimento de suas descobertas perante a comunidade científica, sendo amparado por um pequeno grupo de leais amigos — entre eles Lyell, Hooker e o morfologista T.H. Huxley. Este último era freqüentemente referido como o buldogue de Darwin, pela razão de sempre defender a teoria de seu amigo nos debates públicos. Os mais ardorosos admiradores de Darwin eram os naturalistas. Entre eles estava o codescobridor da evolução pela seleção natural, A.R. Wallace, o entomologista Henry Walter Bates, e o naturalista Fritz Müller.

Ter um grupo leal de defensores foi muito importante para Darwin, pois frequentemente ele era atacado com uma ferocidade incomum. Em 1860 o zoologista da Universidade de Harvard, Louis Agassiz escreveu que a teoria de Darwin era um “equívoco científico, falsa com relação aos fatos, não-científica em relação aos métodos, e danosa quanto a suas tendências”. A “Origem” foi extensivamente revisada nos periódicos pelos principais filósofos, teólogos, escritores e cientistas daquela época. A maioria das revisões foram negativas, senão, extremamente hostis (Hull 1973). Curiosamente, esta recepção negativa continuou após a morte de Darwin em 1882, e, ainda hoje, permanece em alguns círculos.



O Método Científico de Darwin

O período em que Darwin trabalhou no manuscrito do seu grande livro das espécies, foi o mesmo período em que surgiu a filosofia da ciência na Inglaterra. Ainda enquanto estudante, Darwin havia lido com entusiasmo o Preliminary Discourse on the Study of Natural Philosophy (1830) de John Herschel, um de seus trabalhos favoritos. Ele também havia lido os livros de William Whewell e John Stuart Mill, tentando conscientemente seguir as prescrições desses dois autores, para o estudo da história natural (Ruse 1975b; Hodge 1982). Isso foi um tanto difícil, já que as recomendações de outros autores eram freqüentemente contraditórias; como resultado, as próprias declarações de Darwin foram subjulgadas. Para satisfazer alguns de seus leitores, Darwin declarava que seguia “o verdadeiro método Baconiano” (Darwin 1958:119), isto é, a indução pura. Na realidade ele “especulava” sobre algum fenômeno que encontrava. Darwin achava que antes de fazermos quaisquer observações sobre determinado fenômeno, deveríamos propor hipóteses que fundamentassem tais observações. Darwin dizia: "eu não tenho dúvidas de que o homem especulativo, com certa moderação, é decididamente um grande observador” (Darwin 1988:317). Ele coloca esta visão de maneira mais clara numa carta à Henry Fawcett. “Há trinta anos atrás, falava-se que os geólogos deveriam apenas observar, e não teorizar; e eu me lembro muito bem de alguém dizendo que, somente pela observação um geólogo seria capaz de contar todos os seixos de uma jazida de cascalhos e descrever todas as suas cores. Acho isso muito estranho. Deveríamos ter em mente que todas observações devem ser a favor ou contra alguma idéia, quando for o caso!” (Darwin&Seward 1903).

O método de Darwin era o método preferido pelos maiores naturalistas. Ele observava numerosos fenômenos, sempre tentando compreende-los. Quando alguma coisa não se encaixava de imediato, fazia uma conjetura e testava isso por observações adicionais, levando a refutação ou ao fortalecimento da suposição original. Esse procedimento não se adaptava muito bem para as prescrições clássicas da filosofia da ciência, porque consistia num vai-e-vem contínuo entre fazer observações, levantar questões, estabelecer hipóteses e testá-las, fazendo observações adicionais. A especulação de Darwin era um processo bem disciplinado, usado por ele e por todo cientista moderno; um processo que direcionava o planejamento dos experimentos e a coleta de observações adicionais. Não conheço nenhum precursor de Darwin que tenha usado este método consistentemente e com tanto sucesso.

O fato de Darwin ter sido um gênio dificilmente pode ser questionado, não obstante alguns de seus antigos detratores. Mas certamente haviam outros biólogos de igual inteligência que fracassaram na tentativa de se igualarem à Darwin. O que distinguia Darwin dos outros cientistas? Talvez podemos responder a esta questão, investigando que tipo de cientista era Darwin. Como ele havia dito, era antes de mais nada um naturalista. Ele foi um grande observador; e como outros naturalistas, interessado na diversidade orgânica e na adaptação. Os naturalistas, geralmente, são descritivos e detalhistas, mas Darwin era também um grande teórico. Deste modo, ele se assemelhava muito com alguns dos principais físicos da época, mas diferia dos naturalistas comuns sob outros aspectos. Além de observador, Darwin era um experimentador talentoso e persistente, principalmente quando lidava com problemas cuja solução poderia ser antecipada por um experimento. Isso talvez nos leve a origem da grandeza de Darwin. A universalidade de seus talentos e de seus interesses, prepararam-no para que construi-se as pontes entre os diversos campos de pesquisa. Isso, também, habilitou-o a usar toda a sua experiência de naturalista para teorizar sobre alguns dos mais desafiadores problemas que instigavam sua curiosidade. Contrário a certas crenças disseminadas, Darwin era muito corajoso nas suas teorizações. Uma mente brilhante, uma grande coragem intelectual, e uma habilidade para combinar as melhores qualidades de um naturalista observador, de um filósofo teórico e de um experimentalista. Esta maravilhosa combinação, única até aquele momento, estava presente no grande homem que foi Charles Darwin.

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