Vida e aventuras do ‘animal que logo sou’

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Muda-se o ser, muda-se a confiança. Todo mundo é feito de mudança na busca de novas qualidades”, Luis de Camões.

“Morre e transforma-te, Goethe. 

“Desde a Gênese. Gostaria de eleger palavras que sejam, para começar, nuas, simplesmente, palavras do coração”, Jacques Derrida.

 

 

 

"A mente é um caos de deleite", assim o jovem anotou em seus escritos a cena que desfrutava do alto do navio, olhando a floresta tropical, o ano era 1832, o local, a floresta brasileira da Bahia, o nome do navio, Beagle ship, o jovem, Charles Darwin.

A cena de Darwin e a minha, a vida e as aventuras prosaicas e poéticas do “animal que logo sou”. O acaso, um olhar tranqüilo, ‘am passam’ na foto datada da Carteira de Trabalho, nela a imagem do menino que fui. Em frações de segundos, da calmaria a ebulições e insights na memória. O olhar passou a ver e a reparar, mudou o olhar mudou o ser. As lembranças da infância que tive, as reflexões do ser e do ser-menino, as dimensões da história e do entorno da vida na sociedade do interior onde nasci e cresci – apenas um rapaz vindo do interior – vivências, sentimentos, sonhos, mitos, mistérios, virtudes e valores que germinam e afloram, "cenas de escavar para cima", inestimáveis, como a luz própria da semente, que brota de dentro para fora. “A vida não para..., A vida é tão rara...”, passaram-se quase quarenta anos, tinha apenas doze anos em 15/02/1973.

 As primeiras lembranças, o menino comendo açúcar mascavo quente num pedaço de papel, tirado da esteira antes de ser ensacado, na Usina Açucareira de Penápolis, ouvindo as conversas de meu pai, saboreando e se lambuzando no doce mais doce que mel, uma delícia do céu.

Meu pai tinha açougue em casa, fim de ano era esforço coletivo para toda família, preparar inúmeros leitões para as festas de fim de ano, tinha sete para oito anos e já estava na lida, aprendendo a matar leitão, e com um “espírito de porco” peculiar, de assustar os outros, pois antes mesmo que o leitão estivesse totalmente morto, coloquei-o no tacho de água fervendo por fração de minutos, era uma “extrema-unção” as avessas do menino abusado. Minha mãe desesperada gritava, “wardinho, não faça isso meu filho, é pecado, você vai ser castigado e vai para o inferno”, meu pai amenizava, “deixa ele, está ajudando e aprendendo”. O fato é que, começava bem cedo na vida da família o “ser aprendiz”, o “ser produtivo”, o "ser abusado", o "ser responsável", o "ser".    

Aos oito anos, mudei de horário na escola, fui estudar de manhã com Dona Maria Amélia, professora escolhida a dedo por meu pai, tinha sido professora dele quando menino no sítio (anos 30’s), com autorização expressa para colocar-me de castigo, e se necessário, autorizada a bater; era arteiro e repetente, fiz o primeiro ano novamente. Descobri na pele, a professora tinha o hábito de puxar os cabelos da nuca atrás da orelha, e como doía. Quase no fim do ano, à bela surpresa, ganhei uma maratona de matemática e fui condecorado com uma medalha dourada, que tinha cravado um livro aberto na frente e grafado atrás: “Honra ao mérito, Maratona de Matemática, 1968”, foi o máximo para mim, e motivo de orgulho para meus pais.

Aos nove anos com a estima em alta, a nova professora do segundo ano, Dona Flora, era espírita, elogiou minha conquista, gostava de falar sobre a ciência e a aventura do homem tentando conquistar a lua. Férias de julho, 1969, o assunto era a chegada do homem a lua, eu novamente se deliciando com açúcar mascavo quente no papel, ouvindo as conversas de meus pais, tios e tias, críticas sobre a história do homem na lua, os perigos e castigos, pois estavam mexendo no domínio sagrado de Deus no céu. Para mim 20/07, ainda era só o aniversário de minha avó Rosa, que tinha as maças do rosto rosinhas, rosinhas, como sua mãe, a nona, a italiana da gema, rumo aos noventa.

Mês de agosto, de volta as aulas, Dona Fora conversa com a classe sobre as férias e o dia que entrou para a história, 20/07/1969, a chegada do homem a lua, dizendo que agora a engenharia eletrônica era a profissão do futuro, e olhando para mim, disse: “principalmente para quem gosta de matemática, Oswaldo”, e perguntou: “Quem gostaria de ser engenheiro eletrônico?” Respondi de imediato: - Eu, professora.

Nascia ali, nas palavras e na influência de Dona Flora, o sonho do menino, ser engenheiro - “somos feitos da mesma matéria de nossos sonhos” -, sonho sendo revivido ao longo de jornadas, primeiro com o namorado da irmã, que fazia engenharia, depois, numa excursão para o Rio de Janeiro e Petrópolis, ao visitar a casa de Alberto Santos Dumont, onde vi e li a frase que o engenheiro e construtor de ferrovias de Dom Pedro II no Segundo Reinado , pai do futuro cientista, escreveu aconselhando o filho no final do século XIX: “meu filho, não se esqueça, a mecânica será a profissão do futuro no século XX”. A minha crença nesta hora já era maior que a fé de minha mãe.

Aprendi a nadar pelas crenças e simpatias de minha mãe, engolir um peixinho vivo, o garoto hesitou um pouquinho, mas engoli uma pequena piquira viva. De um aprender a nadar místico e rapidinho, para a natação e as competições.

Como todo Domingo, missa na igreja matriz com minha mãe, senti vontade de ser um ajudante do padre na missa, um ‘coroinha’, disse a minha mãe. De volta pra casa, minha mãe e sua fé no ‘DOM SUPREMO’, contou o fato para meu pai, dizendo, “pode ser um sinal de Deus para ele ser padre” - a cena remete-me hoje a promessa da mãe de Bentinho, esse já apaixonado por Capitu, na obra de Machado de Assis, Dom Casmurro-, meu pai, que já tinha um primo padre e uma prima freira, e sem muita instrução e formação como o pai de Anísio Teixeira, por exemplo, mas também salvou-me: “esse menino não vai ser padre não, a igreja já tem muitos padres, não precisa dele”; daí por diante, aumentou minha freqüência ao lado de meu pai. Como já se disse, “ o saber (ciência) não nos torna melhores nem mais felizes”.

No ano de 1972, matriculado na quinta série noturna, estudar a noite para trabalhar de dia, trabalhei com meu pai na campanha eleitoral para prefeito da cidade, disputa entre um comerciante e descendente libanês, apelidado pelo sociedade de “alfaiate”, e  um engenheiro civil, apelidado pelo povão de “arrogante”. Ambos já tinham sido prefeito da cidade, disputavam pelo partido da ARENA, MDB sem representante no pleito eleitoral. Na apuração da eleição, a surpresa para os do alto, o povo elegeu o “alfaiate”, o engenheiro nunca mais ganhou para prefeito.

Início do ano seguinte, meu pai deu a ordem, “vai ao fotógrafo tirar foto ¾ para a carteira de trabalho”, lá fui eu, sozinho, o fotógrafo preparou-me antes, colocou-me gravata, paletó e penteou os meus cabelos; no dia seguinte, ansioso, fui buscar as fotos, olhei-me na foto com paletó e gravata, vi também outro detalhe, a ansiedade do menino no momento do clique do fotógrafo, fiquei com os lábios mordidos entre os dentes, o menino ficou incomodado com o incomodo na foto, percebi que o fotógrafo também percebeu o fato, não reclamei, o fotografo se omitiu diante do garoto, calado fiquei, calado paguei, calado peguei as fotos e voltei para casa e calado ouvi a bronca de meu pai: “Por que você não reclamou e pediu para tirar outro retrato? Agora vamos tirar a sua carteira de trabalho assim mesmo, você precisa aprender a viver”.

A emissão da carteira era numa sala no Paço Municipal, o representante, filho de japonês, olhou minha certidão de nascimento e se recusou a emitir a carteira, era menor de 14 anos, meu pai insistiu, mas não obteve sucesso. Lá vai meu pai foi falar com "seu" prefeito eleito e já empossado; contou que apesar da idade, já estudava à noite, cursando o ginasial e trabalhava de dia, mas precisava ter carteira de trabalho assinada. O prefeito autorizou a emissão da minha carteira de trabalho, saímos com a carteira na mão, datada, 16/02/1973. Estava presenciando ali, uma das formas do jeitinho político brasileiro, ou como diria Raymundo Faoro, o patronato político brasileiro”, “o patrimonialismo”, “desde a dinastia de Avis e Bragança”. Como lembra Faoro (Os Donos do Poder), "o poder é o poder”.

Do alto dos meus doze anos, foi notável a experiência ímpar que vivi, as histórias da da vida e da vida política, sem consciência dos anos de chumbo da ditadura, o calor do debate na realidade política; o espírito da época continuaria pela vida afora, como bem disse Jorge Amado, o global é o local sem muros”, análise e síntese numa vivessênciaprendiz.

Década depois do sonho, a realidade, primeiro ano cursando engenharia eletrônica; na classe debate entre nós “bichos”, sobre a queda de um avião da Boing, alguém falou, com a certeza e o peito estufado do orgulhoso futuro engenheiro, que a fabricante de avião BOING nunca admitiu erro mecânico nas quedas de aviões da empresa. Senti ali, nas entrelinhas, o mito da ‘tecnologia infalível’, como se sabe, até mesmo o barbudo, Karl Marx, tropeçou nela. Daí para mais leituras de literaturas e histórias das humanidades foi um salto fácil.

Machado de Assis e sua genialidade, o retratista do Segundo Reinado do século XIX, a obra-prima literária de complexidade, a mimesis (a verdade na arte e na história) do criador da literatura brasileira; a psicologia de Nietzsche e Freud desvendando o espírito humano; os pensamentos de Descartes, que não era essencialmente cartesiano, “duvide de tudo”; Pascal e a complexidade, “Considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tanto quanto conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes..., o todo é mais do que a soma das partes”; Nietzsche, extravagâncias, lucidez e loucura, “a ciência mente mas não admite que mente, a arte mente mas admite que mente, a arte é superior a ciência”; a física quântica e o colapso do Universo mecânico de Laplace e "eterna" queda do dogma determinista desde Henri poincaré, o espírito da nova ciência com Popper, Khun, Lakatos, Bachelard, mas a vida, a música, a literatura, a poesia na linha de frente. 

O passado está sempre presente. No ensaio, “Tradição e Talento Individual”, T. S. Eliot não achava absurdo “que o passado seja alterado pelo presente tanto quanto o presente é dirigido pelo passado”.

O poeta português fingidor, dizia, “navegar é preciso, viver não é preciso” (preciso no sentido de precisão, de medida precisa). O poeta tem razão, numa intuição perspicaz além da lógica da razão, viver não é medida precisa, a vida é imprecisa, é incerta, viver é uma aventura. Dona Iraci, minha mãe, do alto de suas quase oito décadas de aventuras, continua com sua fé inabalável, firme e forte.

Nessa “sociedade do risco” da “modernidade líquida”, e do ócio-criativo, de Macunaíma a Manuel de Barros, vivi de perto as chamadas revoluções tecnológicas - “tecnologias do estado da arte” -, mas a consciência do ser-menino, do profissional engenheiro, sempre esteve ligado a engenharia das idéias e dos laços sociais.

CONTI-BOSSO, 11/02/2011.

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