Regulador californiano enquadra o consumo de energia das TVs planas

"Se a tecnologia aumenta o consumo de energia mediante a ampliação das necessidades que ela própria gera através dos novos equipamentos, essa mesma tecnologia terá que melhorar o rendimento desses equipamentos, para atender a essas novas necessidades com um menor consumo de energia"

Meus amigos, na postagem da semana passada sobre cadeia energética: tecnologia e instituições, nós chamávamos a atenção de vocês para o fato de que a tecnologia não só viabiliza a satisfação das nossas necessidades energéticas, mas, principalmente, gera novas necessidades, que, ao final, acabam aumentando o consumo de energia.

Dessa maneira, se, por um lado, ganhamos mais conforto, por outro, temos que lidar com os impactos negativos do aumento do consumo de energia. A questão que se coloca é como podemos lidar com esse trade-off entre o conforto propiciado pelo aumento do uso da energia e o “desconforto” representado pelas conseqüências econômicas e ambientais advindas justamente desse aumento.

As decisões do órgão regulador californiano no mês passado representam uma tentativa de dar uma resposta à questão acima e constituem um bom exemplo da forte interdependência existente entre tecnologia e instituições na configuração das especificidades temporais e locais das relações entre a satisfação das necessidades e a exploração dos recursos energéticos.

As novas regras adotadas por unanimidade pela Comissão de Energia da Califórnia exigem que os fabricantes de televisores de tela plana cortem 1/3 do consumo desses aparelhos nos próximos dois anos e metade em 2013.

Graças a essas regras poupadoras de energia, os consumidores irão economizar 8,1 bilhões de dólares em suas contas de energia ao longo dos próximos dez anos, em função da eletricidade que deixará de ser consumida, e 3 milhões de toneladas de gases de efeito estufa deixarão de ser lançados anualmente na atmosfera, em função da eletricidade que deixará de ser gerada.

Segundo o cientista Noé Horowitz, do Natural Resources Defense Council, a energia gasta pelos equipamentos eletrônicos constitui o componente do consumo de energia elétrica que cresce mais rápido – essas engenhocas podem representar 20 % do consumo total de um domicílio. No caso das TVs planas temos três tendências que aumentam o consumo de forma significativa: elas são cada vez maiores; apresentam resoluções cada vez melhores; e, finalmente, ficam cada vez mais tempo ligadas. Dadas essas tendências, é fundamental estabelecer padrões mínimos de eficiência para esses aparelhos.

A regulamentação é válida somente para TVs com telas menores do que 58 polegadas e terá efeito em duas etapas. Por exemplo, todos os novos aparelhos de TV de 42 polegadas deverão usar menos de 183 watts até 2011 e menos de 115 watts até 2013.

Para se ter uma idéia, uma TV de plasma Hitachi de 42 polegadas vendida em 2007 usa 313 watts, e uma TV 42-polegadas Sharp-liquid crystal display, ou LCD, TV, usa 232 watts, segundo a Comissão da Energia.

Por outro lado, segundo os representantes dos fabricantes, reunidos em torno da Consumer Electronics Association, que congrega mais de 2.000 empresas do ramo, as regras aprovadas pelo regulador são desnecessárias, injustificadas e restringem a inovação e a escolha do consumidor.

De acordo com os seus estudos, a regulamentação custará à Califórnia mais de 4.000 postos de trabalho no varejo e US$ 46 milhões em impostos perdidos anualmente.

Os fabricantes não descartam um questionamento legal e denunciam que a decisão foi baseada em informações imprecisas e desatualizadas.

Em contraposição, a Comissão de Energia responde que já ouviu esses argumentos e, como no passado, não vai levá-los em conta. Afinal, a Califórnia foi um estado pioneiro no campo da energia durante as últimas três décadas e não há razão para deixar de sê-lo.

Enfim, meus amigos, rapadura é doce, mas não é mole não. Se a tecnologia aumenta o consumo de energia mediante a ampliação das necessidades que ela própria gera através dos novos equipamentos, essa mesma tecnologia terá que melhorar o rendimento desses equipamentos, para atender a essas novas necessidades com um menor consumo de energia.

Colocando a questão em termos da nossa série sobre a cadeia energética: se o consumo de energia útil aumentou em função do aumento das necessidades energéticas associado à introdução de novos equipamentos, o rendimento desses equipamentos terá que melhorar para que o consumo de energia final não aumente proporcionalmente ao consumo de energia útil.

Cabendo lembrar que é o aumento do consumo de energia final que pressiona, de fato, toda a cadeia energética e acaba pressionando os recursos naturais e o meio ambiente.

O caso californiano demonstra de forma pedagógica que para se contrapor a esse movimento, não basta a tecnologia. São necessários os incentivos e as penalidades geradas pelas instituições.

(*) Postagens relacionadas:

Cadeia energética III: tecnologia e instituições

Cadeia energética II: a produção e a transformação da energia.

Cadeia energética I: a utilização da energia.

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