PIXINGUINHA BRONQUEOU, MANDOU RECADO ABUSADO PRA MIM E GAÚCHO

 

 

 

 

 

 

 

 

Companheiro bom estava ali. Tão grande ma música como na amizade. Quando a gente procurava para colocar na pauta uma melodia nova, podia contar que não ia ter simplesmente uma parte e piano, sem o arranjo completo. Era só entregar a uma orquestra para tocar ou a uma fábrica para gravar. E nem falar em dinheiro, ele ficava injuriado, era uma ofensa. Mas tinha uma coisa, ninguém podia se levantar da mesa do boteco onde ele se sentava para escrever, enquanto não tivesse pronta a orquestração. E, curioso, ele não tinha pressa nenhuma. Às vezes, depois que estava tudo quase pronto, ele resolvia mudar a harmonia, rasgava tudo e começava de novo.

 

 

 

 

Uma vez eu e o Gilberto Alves tivemos dificuldade em relação a uma valsa, procuramos Pixinguinha e ficamos com ele  naquela coisa de mexe aqui, mexe ali e isso das 7 da noite às 2 da madrugada. Foram 7 horas diretas bebendo e sem comer, e sem poder dar o fora. Ninguém podia sair. Ele não admitia que se comesse enquanto bebia. E vinha com aquela conversa, “hora de comer”, comer; “hora de beber”, beber – e a gente agüentando a barra até que ele acabou o arranjo e falou: - Agora vamos jantar.

 

 

Eu e Gilberto estávamos caindo pelas tabelas, o estômago lá dentro colado e a fome minguando as nossas últimas energias. Para enfrentar o Pixinguinha nessas ocasiões o cara já devia ir preparado. Aquelas sessões de trabalho, pela madrugada afora, 6, 7, 8 horas bebendo sem comer era dose pra fakir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De outra feita, estávamos eu, Joel e Gaúcho (os dois da famosa dupla) escrevendo com ele uma marcha de carnaval. Acontece que nessa noite eu estava meio fracote, acho que menos preparado; o fato PE que lá pelas tantas cochichei pro Gaúcho: “Não tá dando, não agüento mais, vou dá no pé”; e ele respondeu: “eu também”. Falei: “Vamos disfarçar e fugir”. Na primeira oportunidade, quando Pixinguinha estava mergulhado, escrevendo pautas e mais pautas, sumimos. Deixamos o Joel agüentando as pontas e corremos. Não deu outra coisa. No dia seguinte lá veio a bronca, Joel transmitindo religiosamente o recado: “Pode dizer a eles que para fracos e covardes não escrevo mais uma nota sequer”.

 

 

 

 

 

 

A verdade é que tudo foi só para assustar, porque não demorou muitos dias e estávamos outra vez formando a mesma roda e ele burilando novas harmonias para uns versinhos que tínhamos feito. Era desse quilate a inconfundível figura do genial Pixinguinha.

 

 

 

Lembro tudo isto e me sinto envolvido por um misto de alegria e tristeza. A recordação do companheiro afável e tolerante, que em pago do muito que fazia por todos nós “cobrava” apenas a nossa presença, a “companhia indispensável” (recordo com alegria e tristeza também) pois é esta criatura que já não está mais por aqui. E até sua morte teve algo de coisa bonita. Maneira de morrer inusitada, no interior de uma igreja, na hora em que ajudava a batizar uma criança. Esse é o Pixinguinha que conheci...

 

 

 

 

Fonte:

 

 

 

 

 

- 54 Anos de Música Popular Brasileira - O que fiz, o que vi -, de Pedro Caetano; prefácio de José Ramos Tinhorão. - Rio de Janeiro: Ed. Pallas - 2ª edição ilustrada e aumentada, 1988.

 

 

 

 

 

 

 

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