Persistence of Memory - Salvador Dali (1931)

Caro Senhor Tempo,

Espero que esta lhe encontre passando bem, ou melhor, passando o mais devagar possível. Por aqui vai-se indo, como o Senhor quer e consente, meio rápido demais para o meu gosto, e quando vi já era dezembro. Foi-se mais um ano.
E com ele se foi uma quantidade incalculável de amores, cores, idades, alguns amigos, não sei quantos neurônios, memórias, remorsos, desvarios, cabelos, ilusões, alegrias, tristezas, várias certezas (se não me engano, treze), algumas verdades indiscutíveis, umas calças que não fecham mais e aquele vestido que eu gostava tanto.

Foi-se o meu gosto por vitrine.
Foi-se o meu vidro de perfume.
Foi-se meu costume de imaginar asneiras à noite.
Foi-se meu forte instinto de acreditar no que me dizem.
Foi-se o meu açucareiro de porcelana.
Que pena.
Foi-se o tempo em que uma simples farra não significava necessariamente uma condenação sumária do dia subsequente.
Foi-se a poupança.
O troquinho da gaveta.
Foi-se aquele antigo projeto.
Foram-se exatamente nove vírgula seis por cento de todas as minhas esperanças.

Será que o Senhor não se cansa, seu Tempo?
Não pensa em tirar umas férias, dar uma pausa, respirar um pouco? Não lhe agrada a idéia de mudar o andamento? Diminuir o ritmo? Em vez de tique-taque, inventar uma palavra mais comprida para compasso, mantra, ícone, diagrama?
Me diz sinceramente: para que tanta pressa?
Anda difícil acompanhar seus passos ultimamente.
Não precisa dar meia-volta, eu não espero tanto. Eternidade? Não. Só queria sua amizade.

Mas já é dezembro.
Foi-se mais um ano.
E o senhor passou voando, rebocou os meus momentos, foi desbotando minhas lembranças, carregou mais doze meses inteiros levando cada instante meu de carona.
Tentei voltar atrás em algumas decisões. Já era tarde.
Não deixei nada para amanhã. Mesmo assim, não fiz sequer metade do que pretendia. Imaginei várias maneiras de estancar os dias, segunda, terça, quarta, quando via já era quinta. Sexta. Sábado. Domingo. Pronto.

Pensei em fuga. Será que existe algum lugar deste mundo onde as horas não me encontrem? Fiquei meses trancada em casa. Foi inútil. Lá fora, o Senhor continua passando. E já passou mais um pouquinho.
Calma, Tempo! Espera só um minutinho para eu explicar melhor meu ponto de vista.
Nem todo mundo é pedra, concorda? Dito isso, imagine quantos pobres mortais sofrem da mesma agonia diária: giros e mais giros nos ponteiros, os cantos dos cucos, as denúncias das sombras, os grãos de areia escorrendo (parece até hemorragia crônica), tudo escapulindo, descendo, subindo, o frenesi dos dígitos, um, dois, três, quatro, cinco, cem, o Senhor vai tirar o pai da forca? Está fugindo de alguém? De quem? De mim? De ontem?

Eu conheço de cor suas obrigações. Estou convencida de suas utilidades.
Não fosse o Senhor, não existiria saudade, retrato, suvenir, antiguidade, história, época, período, calendário, outrora, passatempo, novidade, creme anti-rugas, disputa por pênaltis, antepassado, descendente, dia, noite, nada, não existiria sabedoria, eu sei disso. Não tome como queixas minhas palavras, por favor não tome.
Aqui vai apenas uma súplica.
Ah, se o Senhor fosse mais indulgente, mais piedoso, mais pensativo, se fosse baiano, menos estressado, mais manso, menos rigoroso, um bon vivant, e se distraísse aí pelo caminho, e se deixasse apreciar as paisagens, e sofresse um devaneio, e ficasse de bobeira, esquecido das horas, divagando.

Escute aqui, seu Tempo, que tal deixar passar o resto e parar quieto um pouco?


*******

Do livro "O Doido da Garrafa", de Adriana Falcão

Exibições: 241

Comentário de Sonja Faria Rosa em 20 dezembro 2009 às 19:10
Feliz Natal para vc tb menina. Vou ligar pra sua mae, talvez te encontre la.

Saudade sempre.

Gostei da cronica....
Comentário de Marise em 20 dezembro 2009 às 19:17
Helô, tenho certeza que por me conheceres,apesar de ser apenas virtual, que eu muito mais dos que aqui estão queria que o tempo passasse devagar.
O tempo que tenho é curto para aprender tantas coisas desde que estou aqui. E se o tempo corre, não vou poder aprender tudo o que quero. Por isso assino com prazer teu requerimento. E peço: um pouquinho mais devagar Tempo.
Beijão
Comentário de Cafu em 20 dezembro 2009 às 19:26

Dá um tempo, Tempo!
Beijos.
Comentário de Sérgio Troncoso em 20 dezembro 2009 às 20:09
Sensacional Helô! Que o tempo nosso aqui na comuna passe bem devagarinho, e os anos não nos escorram pelas mãos, mas sim pelos nossos corações. Beijo.
Comentário de Laura Macedo em 20 dezembro 2009 às 20:12


Parabéns, Adriana Falcão, pelo oportuno texto e a você, Helô, por socializá-lo conosco.
Beijos
Comentário de Cássio Tonsig em 20 dezembro 2009 às 21:06
Bela crônica. Deixa a gente do tamanho de um grão de areia diante de Cronos - e nos liga ao único tempo que temos: este instante.
Me lembrei de uma dura lição tolteca*:
"Por isso...o anjo da morte nos ensina. Ele vem até nós e diz: "Você viu que tudo o que existe aqui é meu, não é seu. Sua casa, sua esposa, seus filhos, seu carro, sua carteira, seu dinheiro - tudo é meu. Posso tirar quando eu quiser, mas por enquanto pode ir usando."

Então quero usar este instante para agradecer e desejar Paz para toda essa gente boa da Comunidade.

*"Os quatro compromissos" Don Miguel Ruiz.
Comentário de Anarquista Lúcida em 20 dezembro 2009 às 21:16
Lindo o texto, Helô. E tao verdadeiro! E o Tempo ainda por cima é injusto. Quando éramos crianças, e queríamos que ele passasse rápido para que chegasse logo as férias, ou o dia do aniversário, ele andava que nem uma tartaruga. Agora, que gostaríamos que ele passeasse lentamente, ele sai nessa corrreria toda. Francamente, Seu Tempo!
Comentário de Elianne Diz- Laura Diz em 20 dezembro 2009 às 21:37
Tks, querida e vamos ver se consigo ter mais tempo p postar aqui no Portal.
Bjs Elianne-Laura
Comentário de Oswaldo Conti-Bosso em 20 dezembro 2009 às 21:43
Querida Helô,
A densidade da reflexão do texto de Adriana Falcão, levou-me, nesse mundo de homens desbussolados, como eu e muitos, que fala Jorge Forbes, a densidade da imagem de Denise Stoklos em "Calendário da Pedra" (site), de uma deusa para outra.

Comentário de Gilberto Cruvinel em 20 dezembro 2009 às 22:49
Oi Helô, querida,

Cada vez mais os que me cercam chegaram depois de mim e os que chegaram junto comigo
já não estão por perto. Não tem mais tempo de me encontrar. É assim cruel o tempo.
Adorei a crônica e lamentei ter que concordar com cada palavra.

Beijo, Feliz Natal para você e sua família
Gilberto

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