Li agora ha pouco no jornal O Estado de São Paulo entrevista feita por Júlio Maria com o compositor/cantor Carlos Lyra onde ele nos revela, entre outras coisas, que foi cúmplice de Vinícius de Moraes no rapto da namorada; que casou-se, novamente, semana passada; que acaba de finalizar um CD com lundus, maxixes e outros sons característicos do início do século XIX, com o ineditismo da parceria com Aldir Blanc.


É difícil não respirar bossa nova ali no n.º 103 da Rua Nascimento Silva. Quatro quadras à esquerda e já se vê o restaurante Garota de Ipanema, com turistas tocando a mesa que sustentava os uísques e as inspirações em guardanapos de Tom Jobim. Alguns metros à direita e lá está a Vinicius de Moraes, rua das placas e esquinas mais fotografadas do Rio de Janeiro. Um dos pais do ritmo vive ali a pensar, com charutos e ideias nada comuns.

Carlos Lyra não se prende a datas. Só Minha Namorada, que fez com Vinicius de Moraes, tem 47 anos. Com pavor das correntes que a bossa pode se tornar em seus tornozelos, Lyra finaliza um CD com lundus, marchas, maxixes e outros sons do início do século 19 que fez para o musical Era no Tempo do Rei, baseado em livro de Ruy Castro, ainda sem previsão de estreia em São Paulo. O disco traz 19 inéditas, incluindo a sua primeira parceria com Aldir Blanc (letra abaixo).

Lyra recebeu o Estado em seu apartamento, na tal Rua Nascimento Silva que, simbolicamente, como seu morador, fica ali entre a Rua Vinicius de Moraes e os chopes do velho Garota de Ipanema.


Minha Namorada, a música que fez para a letra de Vinicius, logo terá 50 anos. Mas quem é a sua namorada?


Ela está sentada ali (aponta para a mulher Magda). E é tão ela que olha aqui (mostra a aliança de casamento). Isso aqui é novo, nos casamos semana passada.


E a namorada do Vinicius que virou a música, quem é?


A música era para a Nelita, uma moça que ele "raptou" e levou para Paris. Eu mesmo ajudei ele no "rapto", ele ia trazendo as coisas dela lá pra casa. Foi o Tom Jobim quem levou eles até o aeroporto.


Você foi cúmplice do "rapto"?


Sim, aliás fui eu quem deu a ideia. O Vinicius estava acabado (imita a voz do Vinicius triste): "Parceirinho, os pais da Nelita não querem deixar nossa relação ir pra frente." E eu virei pra ele e disse: "Mas você é um romântico, por que não rapta ela?" Ele parou assim na mesa, pegou a xícara de café e teve um ataque de risos. "Boa ideia parceirinho, raptar, boa ideia." E aí começou a trazer as coisas dela lá pra casa. Então um dia o Tom Jobim chegou lá em casa todo vestido de paletó - quando tinha coisa grave o Tom vestia paletó. Sem gravata, mas de paletó. Antes de levá-los ao aeroporto, ele me disse: "Lyra, aquele tiro que ia ser em você vai ser em mim." (risos) Mas deu certo. Logo em seguida os pais anunciaram o casamento, foi um negócio romântico, uma história fantástica.


É impressão ou aqui no Rio de Janeiro, cidade de Tom e Vinicius, não tem um lugar para se ouvir bossa nova?


Cansei de falar isso, falei até com o Sérgio Cabral (governador do Rio) e com o Eduardo Paes (prefeito). Não tem lugar no Rio para a bossa nova. O Eduardo disse que agora vai fazer o Parque Bossa Nova, Jaime Lerner fez o projeto. Mas hoje não há um lugar. Olha, eu tenho uma teoria, não sei se ela vai prestar para a posteridade, mas estou muito desconfiado de que estou certo. A bossa é uma música de classe média, feita pela classe média e para classe média. Conclusão: ela faz sucesso no exterior, onde as classes médias são mais poderosas, e baixa a bola no Brasil, onde a classe média é comprimida. Nem o presidente aqui gosta de classe média.


Mas houve uma época em que você rompeu com a bossa nova.


Assim como a bossa nova rompeu com Dorival Caymmi, com Custódio Mesquita, com Ary Barroso. A bossa tinha de romper e tem de romper consigo própria sempre para poder se atualizar. Se não romper com o antigo, você não existe.


Você paga um preço por isso.


Sempre, as pessoas resistem. Quando vou cantar em um show quero coisa nova, mas as pessoas querem ouvir Minha Namorada, Lobo Bobo, Primavera... Tenho que enfrentar isso.


Foi tanto rompimento que você foi parar na música erudita.


Fiz um prelúdio para piano que eu não sabia mais o que fazer com ele. Quem vai querer ouvir um prelúdio para piano chopiniano do Carlos Lyra? Coloquei no meu casamento, e todo mundo adorou. Prelúdio n.º1 e único.
Meus compositores prediletos são Villa-Lobos, Stravinski, Bach, Ravel e Debussy. Os impressionistas têm uma influência profunda na bossa nova. Ravel e Debussy têm muita influência na bossa. Chopin também, um romântico clássico. Tom bebeu muito em Villa-Lobos e Ravel.


Agora, tem um alemão que você não suporta.


Como você sabe? (risos) Olha, Stravinski eu ouço e chego até a chorar com Pássaro de Fogo, mas Beethoven não me diz isso. Respeito, mas não me diz.


Irrita você?


Se eu for obrigado a sentar e ouvir Beethoven, vou me irritar. Não tenho identificação com essa gente da escola romântica da música erudita, Brahms, Beethoven, Wagner, Mahler.


A gente não capitaliza pouco em cima da bossa nova? Em Buenos Aires, por exemplo, você anda pelas ruas e as pessoas vendem bonecos, camisetas, CDs, dançarinos ganham dinheiro com o tango. É uma indústria que deve movimentar muito dinheiro. Aqui no seu bairro você nem ouve bossa nas ruas.


Concordo, o Brasil não entende de oferta, não investe. Qualquer outro país já teria bairros reservados para a bossa nova.


Tom Jobim gostava de dizer que era da "direita festiva". A música toda acabou na direita festiva?


Olha, a classe artística, com honrosas exceções, não é muito de esquerda não. De esquerda éramos eu, o Vinicius e o Sérgio Ricardo. A classe não tem postura de esquerda não, que eu acho mais saudável até do que eu, que era comunista, do partido. O Tom Jobim nunca quis saber disso não.


Quando um país melhora, como fica sua esquerda?


Enfraquece. A esquerda socialista comunista praticamente acabou, só sobrou eu. Mas sou comunista de acreditar em Marx. Não acredito em Lenin nem em Stalin nem em Fidel Castro. É como religião, seja qual for a sua não pode desrespeitar a dos outros. Eu sou ateu convicto, como dizia o Tom, sou ateu meio místico. Minha posição é mais ou menos assim: politicamente eu sou proletário, economicamente eu sou burguês, mas esteticamente eu sou aristocrático. Isso dá uma confusão danada.


Cinema ainda é uma paixão?


Eu faço música, mas adoro mesmo é o cinema. Não paro para ouvir música, mas paro para ver filmes. Anos 40, Woody Allen, Almodóvar, adoro.


E futebol?


Não gosto de futebol porque não gosto de competição. Não gosto de ver a tristeza de quem perde. Por isso eu nunca competi em um daqueles festivais de música, nunca gostei daquilo. Em arte não aceito competição. Como vou competir com Tom Jobim, com Gilberto Gil, Caetano Veloso? Deus me livre disso.


Uma boa frase das pessoas que acreditam em Deus.


Acho que até acredito, só não estou muito de acordo com Ele. A eternidade é muito longa, vai dar para pensar muito em Deus. Não vou me preocupar com Deus agora.

É CARNAVAL (Carlos Lyra e Aldir Blanc)

Viva os Pedros-Leonardos
do monturo!
Que unam ouro e cinza
em suas mãos
Pra não sermos pra
sempre pré-futuro,
pré-livres, pré-país,
pré-cidadãos!
Os dois meninos, juntos,
se salvaram
de gente infame,
hipócrita e covarde
porque se uniram e não
malbarataram
o laço luso-brasileiro
da amizade.
Nesse país, que é puro e
depravado,
de morte e canto,
gozos e agonias,
A verdade é que Momo,
Rei safado, reina trezentos e
sessenta e cinco dias!
Bastardos, chalaças,
libertinos,
entoam vivas ao Brasil Real
Facínoras, ébrios,
fesceninos,
saúdam Pedro e Leonardo,
é carnaval!
É Carnaval!
É Carnaval!
É Carnaval!
É Carnaval!


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Comentário de Gilberto Cruvinel em 6 junho 2010 às 16:26
Oi Laura

Incrível a entrevista. Muito interessante a teoria dele de que a bossa nova é para classe média e, portanto, faz mais sucesso no exterior onde essa classe predomina. Faz todo sentido. Nosso problema educacional e cultural é algo que ainda leva muito tempo para consertar.

Obrigado Laura pelo belo post
Beijo
Gilberto
Comentário de Laura Macedo em 6 junho 2010 às 21:07
Gilberto,
Todo processo que envolve mudança de comportamento, principalmente, nas esferas educacional e cultural é lento mesmo.

Que a turma do "Estado Maior" das primeiras gerações da Bossa Nova: Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal e Carlos Lyra bem que tentaram.:))


Beijos.
Comentário de Gregório Macedo em 10 junho 2010 às 1:56
Excelente. Lirinha sempre foi singular em suas opiniões e sua arte. Dezenove inéditas, e dando uma geral na história da MPB... esse trabalho é imperdível!
Beijos.
Comentário de Cafu em 26 julho 2010 às 14:38
Adorei essa entrevista. Estou curiosa para ver esse CD com lundus, marchas e maxixes ( o ambiente musical do teatro de revista. Ôba!).
Beijos e parabéns.

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