Fundada por Estácio de Sá, no dia 1º de março de 1565, a cidade do Rio de Janeiro comemora amanhã seus 444 anos.

Algumas músicas para homenagear a cidade.


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Em 1976, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade compôs este poema de amor ao Rio.

Retratos de Uma Cidade

Tem nome de rio esta cidade onde brincam os rios de esconder
Cidade feita de montanha em casamento indissolúvel com o mar.
Aqui amanhece como em qualquer parte do mundo
Mas vibra o sentimento de que as coisas se amaram durante a noite.
As coisas se amaram.
E despertam mais jovens, com apetite de viver
Os jogos de luz na espuma, o topázio do sol na folhagem,
A irisação da hora na areia desdobrada até o limite do olhar.
Formas adolescentes ou maduras recortam-se em escultura de água borrifada.
Um riso claro, que vem de antes da Grécia (vem do instinto)
Coroa a sarabanda a beira-mar.
Repara, repara neste corpo que é flor no ato de florir
Entre barraca e prancha de surf, luxuosamente flor, gratuitamente flor
Ofertada à vista de quem passa no ato de ver e não colher.


Eis que um frenesi ganha este povo, risca o asfalto da avenida, fere o ar.
O Rio toma forma de sambista.
É puro carnaval, loucura mansa a reboar no canto de mil bocas,
De dez mil, de trinta mil, de cem mil bocas, no ritual de entrega a um deus antigo,
Deus veloz, que passa e deixa rastro de música no espaço para o resto do ano.
E não se esgota o impulso da cidade na festa colorida.
Outra festa se estende por todo o corpo ardente dos subúrbios
Até o mármore e o ray-ban de sofisticados, burgueses edifícios:
Uma paixão:
A bola
O drible
O chute
O gol
No estádio-templo
Onde se celebram os nervosos ofícios anuais do Campeonato.


Cristo, uma estátua? Uma presença, do alto, não dos astros, mas do Corcovado,
Bem mais perto da humana contingência, preside ao viver geral,
Sem muito esforço, pois é lei carioca (ou destino carioca, tanto faz)
Misturar tristeza, amor e som, trabalho, piada, loteria na mesma concha do momento
Que é preciso lamber até a última gota de mel e nervos, plenamente.
A sensualidade esvoaçante em caminhos de sombra e ao dia claro
De colinas e angras, no ar tropical infunde a essência de redondas volúpias repartidas.
Em torno da mulher o sistema de gestos e de vozes vai-se tecendo.
E vai-se definindo a alma do Rio: vê mulher em tudo.
Na curva dos jardins, no talhe esbelto do coqueiro, na torre circular,
No perfil do morro e no fluir da água,
Mulher mulher mulher mulher mulher.



Cada cidade tem sua linguagem nas dobras da linguagem universal.
Pula do cofre da gíria uma riqueza, do Rio apenas, de mais nenhum Brasil.
Diamantes-minuto, palavras cintilam por toda parte, num relâmpago, e se apagam.
Morre na rua a ondulação do signo irônico.
Já outros vêm saltando em profusão.
Este Rio...
Este fingir que nada é sério, nada, nada, e no fundo guardar o religioso terror,
Sacro fervor que vai de Ogum e Iemanjá ao Menino Jesus de Praga,
E no altar barroco ou no terreiro consagra a mesma vela acesa,
A mesma rosa branca, a mesma palma à Divindade longe.
Este Rio peralta!
Rio dengoso, erótico, fraterno, aberto ao mundo como uma laranja
De cinqüenta sabores diferentes (alguns amargos, por que não?),
Laranja toda em chama, sumarenta de amor.
Repara, repara nas nuvens:
Vão desatando bandeiras de púrpura e violeta sobre os montes e o mar.
Anoitece no Rio. A noite é luz sonhando.


Fotos: Ricardo Zerrenner

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Comentário de Laura Macedo em 28 fevereiro 2009 às 23:37
Helô, lindo post para homenagear a Cidade Maravilhosa!
Belas fotos, belas músicas e belo texto do Drummond.
Parabéns.
Beijos.
Comentário de elizabeth em 1 março 2009 às 1:05
Lindissimo post.Parabéns Helô.
Maravilhoso texto do nosso maior poeta.
Amo aquela música que sempre toca no avião, quando se chega ao Rio, espero que ainda toque:"Minha alma canta/ Vejo o Rio de Janeiro/Estou morrendo de saudades..."

Eu, como paulineira apaixonada pelo Rio, peço licença para uma humilde contribuição, nem lembro quando escrevi, deve ser nos anos 90.

Rio, 40


A escada que vai dar no Cantagalo
O consolo aos deprimidos. Calçadões.
A praia especial para os cachorros.
A esmola fácil ao falso mendigo.
A orientação das pedras, as pulseiras.
Os estrangeiros. Tapetes vermelhos.
As alças dos vagões sujos da Central.
As quinze facadas. As ciclovias
ao pôr do sol. Peixe à belle méunière.
Os bares da barra. Pizza em pedaços.
Os sons ainda distantes do carnaval.
Os solenes rituais do cotidiano.
A carta e a carteira. O farol e o sinal.
Os velhos casarios. A graça de Deus.
O templo nos altos de Santa Tereza.
O estorvo e o trevo do arcado poeta.
A elegância delgada do sambista.
A algaravia. O sol na tua cabeça.
As manchetes nos quiosques de revistas.
Os invólucros dos corpos. As barcaças.
Os olhares esgarçados das meninas.
O negro gato enroscado sob a mesa.
A estrela na porta. A tua presença.
Os tiros na madrugada. As risadas.
A tornozeleira indiana, as cartas.
As padarias que não vendem cigarros.
Os matadores. A visão do templário.
Os bolos sempre embatumados dos bares.
O chute na pedra. O homem da espada.
O tratado de métrica abandonado.
Os primitivos à venda numa praça.
As marcas dos trilhos de bondes extintos.
O sol nas barracas de Copacabana.
As finas paredes dos apartamentos.
A folia incessante sob os trópicos.
A roda da fortuna, as linhas das mãos.
As impávidas causas. Multidumbres.
A sinistra cegueira. A alma antiga
dessas mulheres. Os desencontros.
A thing of beauty is a joy forever
Comentário de Elianne Diz- Laura Diz em 1 março 2009 às 1:49
Lindooooooooooooooooooooooooooo já conhecia, vc teve trabalho para fazer...
o meu é menos bonito, mas fiz com amor tb, veja lá
http://blogln.ning.com/profile/LauraDiz
bj
Comentário de Ilva em 1 março 2009 às 2:28
Oi, Helô, parabéns pela lindíssima homenagem que fez ao "nosso" Rio maravilhoso. Estou certa de que ele é digno dela, e olha que ser digno de uma homenagem não é pouca coisa não. Sinto pelo Rio um misto de amor e paixão que me asfixia quando estou longe dele. Aqui, na terrinha, como em tantas outras nas quais já estive, sinto-me um peixe de água salguada tentando sobreviver - graças à esperança de as minhas águas retornar - em águas doces. O Rio é um bálssamo pra minha alma. Como carioca, agradeço-lhe a bela homenagem.
beijos,
Ilva
Comentário de João Sabóia Jr em 1 março 2009 às 10:24
Salve...
Parabéns!
Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudade.
Rio, teu mar, praias sem fim
Rio, você foi feito pra mim.
Cristo Redentor
Braços abertos sobre a Guanabara.
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você
A morena vai sambar
Seu corpo todo balançar.
Rio de sol, de céu, de mar
Dentro de mais um minuto estaremos no Galeão...
Comentário de Fernando Grassi em 1 março 2009 às 10:38
O Rio é a síntese do Brasil.
Perdão cariocas, mas esta cidade não é de vocês, é de todos nós.
Enquanto São Paulo é dos paulistas, o Rio é do Brasil.
Apesar de não ser mais corte ou capital, e de não ser o mais centro econômico do país, continua sendo o farol irradiador da cultura nacional, para onde acorrem as melhores cabeças do pais, de sul a norte, de leste a oeste, o que prova que dinheiro não é tudo. Estes imigrantes, começando pelos negros baianos, deram, e continuam dando, a cor e a personalidade da cidade.
O Rio ao mesmo tempo que é peculiar, é extremamente universal e, sobretudo, cosmopolita.
Linda e justa a homenagem da nossa cidade.
Sugiro para a trilha a seguinte canção:

Saudades da Guanabara


Composição: Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro

Eu sei
Que o meu peito é lona armada
Nostalgia não paga entrada
Circo vive é de ilusão (eu sei...)
Chorei
Com saudades da Guanabara
Refulgindo de estrelas claras
Longe dessa devastação (...e então)
Armei
Pic-nic na Mesa do Imperador
E na Vista Chinesa solucei de dor
Pelos crimes que rolam contra a liberdade
Reguei
O Salgueiro pra muda pegar outro alento
Plantei novos brotos no Engenho de Dentro
Pra alma não se atrofiar (Brasil)
Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro
Três por quatro da foto e o teu corpo inteiro
Precisa se regenerar
Eu sei
Que a cidade hoje está mudada
Santa Cruz, Zona Sul, Baixada
Vala negra no coração
Chorei
Com saudades da Guanabara
Da Lagoa de águas claras
Fui tomado de compaixão (...e então)
Passei
Pelas praias da Ilha do Governador
E subi São Conrado até o Redentor
Lá no morro Encantado eu pedi piedade
Plantei
Ramos de Laranjeiras foi meu juramento
No Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro

Pois é pra gente respirar (Brasil)
Brasil
Tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar
Comentário de Mario Henrique em 1 março 2009 às 11:43
Puxa, Helô,
Captou a imagem e alma do Rio...Cada vez que se está no Rio (mesmo a serviço...), tem algo que nos encanta mais...que é diferente e dá vontade de voltar...os colegas e amigos que lá moram nos mostram mais daquela gente, do seu modo de ser... Viva o Rio! Viva o Brasil!!
Comentário de Luiz Eduardo Brandão em 1 março 2009 às 11:51
Maravilha, Helô. O carioca aqui no exílio paulistano agradece.
Comentário de Cafu em 1 março 2009 às 13:39
Belíssima homenagem, Helô. Parabéns para o Rio (neste aniversário cabalístico!) e parabéns pra você pelas escolhas musicais, imagens, versos e prosas.

Deixo aqui minha contribuição por meio do olhar de Marc Ferrez:



Beijos.
Comentário de Andrea Cavalcanti Cysneiros em 1 março 2009 às 14:49
Belíssimas imagens e um maravilhoso poema do nosso querido Drummond. Obrigada pelo presente Helô! Um verdadeiro bálsamo para quem está bem longe da terra natal.

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