São Paulo, quinta-feira, 09 de abril de 2009


RUY CASTRO

O Rio "noir", no verso do cartão-postal
Na sua face sombria, Copacabana deixa de ser a princesinha do mar e assume traços de um cenário fatal





RUY CASTRO
COLUNISTA DA FOLHA

Uma metrópole se caracteriza por seus contrastes. Quanto mais contrastes tiver, mais metrópole será. O Rio, por exemplo. O fato de ser uma cidade à beira-mar faz com que os mal-informados o reduzam à condição de balneário e, ao compará-lo com algum lugar, pense no sul da França.
Mas, se você quer saber, essa comparação não existe. Cannes inteira é menor que Copacabana e, somente na minúscula e querida Urca, cabem duas ou três Saint-Tropez.
Na verdade, não existe outra cidade do tamanho do Rio com as mesmas conveniências de Nova York, Paris ou São Paulo e, ao mesmo tempo, tão voltada para uma cultura de praia.
Cultura esta que vem de várias gerações, e não é incomum que um jovem carioca de hoje se divirta com fotos de seus bisavós na areia de Copacabana, em 1928, ou na ponta do Arpoador, em 1932.
No Rio, ninguém diz que vai "para a praia" -o que implica ter de esperar pelas férias, viajar 300 km e rezar para não chover. No Rio, vai-se "à praia", todos os dias do ano, com a mesma naturalidade de quem atravessa uma rua, mesmo que, para isso, o cidadão tenha que pegar o carro ou tomar um ônibus e vencer dois ou três túneis.
Mas ninguém está a mais de 30 minutos de uma praia -assim como de um museu, de um teatro ou de um restaurante centenário.
Por sorte, essa cultura de praia está longe de ser a única e, quem conhece apenas o Rio dos cartões-postais, está perdendo as outras cidades embutidas na metrópole. Pois, assim como há o Rio solar, dos corpos dourados, há também o Rio noturno, que não é o das luzes da Barra, dos botequins do Leblon ou das gafieiras da Gamboa, templos da "joie de vivre" carioca.
É o Rio "noir", em que o bairro de Copacabana deixa de ser a princesinha do mar para se parecer com um cenário, sombrio e fatal, de filme de Jean-Pierre Melville nos anos 50; em que as tentações do balcão da Adega Pérola, na rua Siqueira Campos, buscam amenizar a solidão de um frequentador; e os salões de peroba e mogno dos apartamentos da orla convidam tanto a conspirações quanto a efemérides.
É o Rio de Vila Isabel, em que a estátua de Noel Rosa no bulevar espera com paciência pelo fim da guerra entre as facções e os sambas impressos nas calçadas de pedras portuguesas cantam a certeza da volta de dias melhores. E é o Rio da eterna Lapa, onde novos amores e desamores brotam à sombra dos velhos Arcos ou nos degraus do Selaron, depois de décadas em que a cidade parecera lhes virar as costas.
Mas mesmo este Rio "noir" é palco para deslumbramentos.

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Comentário de Luiz Eduardo Brandão em 11 abril 2009 às 13:26
Beleza, Gilberto. E pensar que este ano ainda não consegui visitar minha cidade amada...
Comentário de Helô em 6 maio 2009 às 23:49
Outra vez a Adega Pérola! :)
Ruy Castro é outro mineiro que ama o Rio e como ele mesmo gosta de dizer, "sou tão mineiro quanto o Milton Nascimento é carioca".

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